[Capítulo 4] Da luz às trevas

A queda.

Capítulo IV

A queda.

Julia passou alguns dias com Caleb, onde ele explicava sobre as atitudes de um anjo e suas regras. Mostrava a ela cada demônio que os cercava, que para o espanto da garota não eram poucos. Caleb explicou sobre cada forma de ajudar as pessoas, inclusive a ensinou a como fazer as pessoas quererem ouvir o que o anjo tem a dizer sobre Deus, assim como Julia sempre o ouvia quando era aluna de Caleb.

Certo dia, pela manhã, Caleb foi até a estação de trem novamente.

Lucio, junto com o grupo como sempre, os olhava com raiva, já que havia denunciado Caleb. Julia então mandou uma piscada de olho sorrindo para o demônio que desviou o olhar em seguida. Todos entraram no trem depressa.

–Cuidado com o cadarço.–Disse Julia a Lucio quando entrava.

Caleb não conteve o sorriso. Ao chegar na estação desejada, Lucio saiu antes que todo mundo, para não ouvir piadas, na pressa deixou seu paletó cair, pegou-o e continuou carregando-o de baixo do braço.

Diferente dos dias anteriores, Caleb não encontrou Eduardo no caminho. Chegaram um pouco atrasados, mas a balconista nada disse. Se aproximando do vestiário, ouviram som de metal batendo, então Caleb notou um dos armários amassado, como se houvesse levado um soco. Ao chegar no centro do vestiário estava Eduardo chorando socando uma das portas, com suas mãos sangrando de tanto que havia batido. Caleb interveio e segurou a mão do homem, que ainda aos prantos forçou para que o anjo soltasse.

­–Saia daqui antes que eu comece a te bater também.

­–Acalme-se, Eduardo, o que houve?

–Eu disse para sair.–Gritou Eduardo tentando socar o rosto de Caleb, que desviou, fazendo-o acertar o armário.

Ouvindo o grito, Julia entrou no vestiário. Caleb estava encostado contra os armários enquanto Eduardo chorava apoiando as mãos sobre o ombro do anjo.

A garota manteve-se parada, até que Eduardo olhou para ela. O homem limpou o rosto e se aproximou dela.

–Não sabia que viria hoje.–Disse sorrindo.

A garota o abraçou.

–Não precisa fingir estar bem, Eduardo, nós queremos ajuda-lo.–Disse Julia.

–Vocês não podem me ajudar.–Respondeu Eduardo acabando com o sorriso.

–Tente.

–Eu contei para Lucas que minha mãe havia sido internada, ela precisava de uma cirurgia, ele até se ofereceu a pagar, mas eu recusei.

–A proposta continua valendo, podemos pagar.

–Não podem.

–Claro que podemos.

–Ela faleceu durante a noite.

O silencio permaneceu na sala.

–Ela era a única coisa que eu tive, minha única família que restou.

Julia ainda não sabia o que dizer, apenas o abraçou e sentiu a tristeza que o homem acompanhava.

–Estaremos com você, Eduardo.–Dizia Caleb.–Não somos sua família, mas com toda certeza pode contar conosco.

O homem enxugou o rosto, pegou o esfregão e um balde, carregou-os até a porta, parou e disse:

–Não precisa e não insista.

Então seguiu seu caminho. Caleb fez o mesmo e junto com Julia se mantiveram vigiando o homem. Tudo estava bem, apesar do clima ainda pesado que ali estava, até que Caleb viu Lucio se aproximando de Eduardo, entrou na frente do demônio e disse:

–Eu sei o que vai fazer. Sei que sua falta de escrúpulo é maior que de qualquer um, mas pela primeira vez peço, por favor, não faça isso.

Lucio sorriu e passou ao lado de Caleb, seguiu em direção a Eduardo e forçou o balde que estava do lado, fazendo-o cair e dizendo:

–Limpa aí.

Caleb pode ver no rosto de Eduardo uma expressão de desespero, pensou que iria embora chorando de raiva na hora, mas foi surpreendido quando o homem levantou o cabo de esfregão e quebrou na cabeça do demônio, que caiu em seguida. Eduardo começou a acerta-lo com o resto de cabo que segurava. O anjo puxou-o para longe, mas o chefe passou pelo lugar.

O chefe demitiu Eduardo, perguntando a Lucio se o denunciaria.

–Não precisa,–Respondeu Lucio com o rosto sangrando.– hoje, durante a noite, acontecerá o que tanto espero.

O chefe achou estranho, mas não questionou. Eduardo foi embora logo em seguida, sem olhar para ninguém.

Pouco tempo depois Caleb estava indo embora, chamou Julia, que estava mexendo no computador da balconista que dormira.

Lucio não foi mais visto na empresa, após o ocorrido.

–Nós vamos para esse endereço.–Disse Julia a Caleb, mostrando um papel.–É a casa de Eduardo, o devemos isso.

–Por isso estava no computador?

–Claro, acha que eu estaria fazendo o que? Conversando com “meus amigos” no facebook?

Caleb não conseguira rir, estava muito preocupado com Eduardo, então foram para sua casa.

Bateram na porta, era uma casa pequena em um bairro com pouco movimento. Eduardo abriu e com os olhos vermelhos os encarou.

–O que fazem aqui?

–Viemos apoia-lo.

–Eu disse que não preciso.

–Todos precisam em um momento como esse, Eduardo, por um tempo achará que é culpa sua, não pense assim.

Eduardo virou o rosto.

–É culpa minha, tenho noção disso, não preciso que alguém minta para mim.

–Acalme-se…–Dizia Caleb, quando Eduardo bateu a porta gritando para que fossem embora.

–Vamos. Ele precisa descansar, amanhã nós o visitaremos novamente.–Disse Julia.

–Descansar, esse é meu medo.

Julia abaixou a cabeça.

Eles pegaram o trem e foram para casa. Caleb se deitou logo em seguida, sem falar muito.

Um tempo depois Caleb começou a sonhar. Via uma seringa, Eduardo chorava, então ele mesmo aplicou em seu braço. O homem se deitou e de uma sombra saiu Lucio.

Caleb acordou desesperado, olhou para a porta e viu Julia, completamente assustada, entrando.

–Eu também vi.–Disse a garota ao ver o rosto de Caleb.

Os dois saíram de lá às pressas, pegaram um taxi e foram até o endereço. Caleb bateu na porta, mas ninguém atendia, então ouviu um gemido. Assim que viu o taxi virar a esquina arrombou a porta e foi para dentro da casa. Procurou nos cômodos até chegar ao quarto de Eduardo.

O homem estava deitado sobre a cama se engasgado com o próprio vomito, devido às drogas que injetara. Sua alma já estava sendo levada por Lucio em sua real forma, então Caleb voltou a dizer palavras desconhecidas por Julia, mas que no fundo podia entender. “Eu absolvo os pecados do homem que é levado agora, não há culpa em seus feitos, que todos eles sejam feitos meus com sua aceitação.”

­–Não. Não. Não.–Gritava Lucio repetidamente.

–Eu aceito.­–Disse Eduardo.

Uma aura clara cobriu o homem e surgindo asas em suas costas foi levado ao céu.

Gritando “Não” continuamente, Lucio cravou seus dedos pontudos no peito de Caleb, perfurando seu coração. O anjo que olhava para Eduardo subindo virou para Julia dizendo:

–Meu fim chegou, o seu inicio também, minha pequena.

As lagrimas escorreram sobre o rosto de Julia, então o corpo de Caleb caiu com o coração perfurado e evaporou, mas sua alma de anjo permanecia de pé. Mais um demônio surgiu e junto com Lucio, voaram atrás de Caleb, que começou subia desesperadamente até o céu. Os demônios, alguns momentos, conseguiam segurar a asa do anjo, mas ele era mais rápido, com toda a pressa chegou ao paraíso, mas quando um buraco nas nuvens abriu para que entrasse, Lucio conseguiu segura-lo. Caleb fincou a ponta dos dedos sobre a nuvem, então Deus surgiu. Lucio fechou o olho, pois a luz divina destrói qualquer demônio, o que aconteceu com o outro que tentara puxar Caleb. Mais um surgiu e fincou a mão escura sobre a asa do anjo, fazendo-o gritar de dor.

–Pai, salve-me.

Deus o olhava parado.

–Eu não posso salvar sua alma. Eu não posso traze-lo ao paraíso.

­–Eu posso prometê-lo…

­–Mas eu não. Já deixou de cumprir sua primeira promessa.

Como as lagrimas que caiam dos olhos do anjo, ele caiu. Puxado pelos demônios, Caleb foi levado ao inferno.

Gabriel se aproximou de Deus, junto com Miguel, Adriel e Dante. Deus caiu de joelhos ao chão e golpeou as nuvens com os antebraços gritando um “Não” continuo e tão alto que todos ao seu redor foram mandados para trás e a terra foi coberta por uma enorme tempestade.

Caleb caiu no inferno com suas asas arrancadas. Os dois demônios gargalhavam descontroladamente, assim como todo o lugar, como o anjo parecia ouvir.

Lúcifer aproximou-se de Caleb que estava de joelhos com as costas sangrando devido às asas arrancadas.

–Não sabe como esperei por isso.

–Eu sei que esperou, agora estou aqui.

–Uma coisa lhe espera.

Então dois demônios voando se aproximaram carregando enormes asas de morcego feitas de metal. Lucio e Lúcifer então fincaram um suporte para elas nas costas do anjo, seu grito ecoou mais alto que de qualquer um no inferno inteiro, isso alegrava e muito a todos ali.

–Um dia ainda irá se completar como um de nós.

–Não tenha tanta certeza.–Retrucou o anjo.

–Ah, eu tenho. É sua única opção agora.

–Então acho melhor me destruir logo.

–Não, não, não. Claro que não, você me é útil, por que faria isso?

–Porque não o servirei.

–Temos muito tempo ainda.–Dizia Lúcifer sorrindo.–Levem-no, mostre a ele tudo e todos.

No paraíso, Deus se mantinha chorando no mesmo lugar, mas ninguém ousara se aproximar. Um tempo depois ele se levantou.

Deus olhou para Eduardo que estava logo atrás.

–Eu não imaginava que Deus chorasse.

–De todo o pranto que há na terra, eu choro ainda mais, pois sofro por todos.

–Isso não acontece desde Lúcifer.–Comentou Gabriel com Adriel.

–Venha, Eduardo.–Disse Deus.

Todos caminharam juntos, até que Eduardo foi parado.

–O que houve?–Perguntou Miguel.

–Eu não consigo passar.–Respondeu Eduardo.

–O que está havendo, pai?–Perguntou Gabriel a Deus.

–Ele está voltando.

–Voltando?–Perguntou Eduardo.

Em um piscar de olhos, o novo anjo acordou em uma cama de hospital. Ao lado Julia dormia, sentada com o rosto vermelho de tanto chorar.

–Julia.

–Eduardo, o que houve com ele?

–Ele…

–O que?

–Ele foi levado.

A garota caiu de joelhos no chão chorando repetindo “Não, foi minha culpa” varias vezes.

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