[Capítulo 7] Da luz às trevas

A volta.

Capítulo VII

A volta.

Os anos seguintes foram de uma paz inabalável em todo o mundo, coisas ruins ainda aconteciam por humanos que já haviam sido corrompidos pelo mal, mas o numero havia diminuído drasticamente. Amanda e Julia continuaram juntas por um longo período de tempo, porém Joana voltou com Alberto que se tornou um homem respeitável com o tempo. Eduardo não gostou da ideia de Joana novamente com seu ex-marido, mas com o tempo viu o que era certo, e mesmo tendo aconselhado Julia a fazer isso, decidiu deixar com que seu amor se tornasse algo do seu lado humano, que deixaria para trás, e se dedicaria mais ao seu novo lado. Já Amanda foi aceita de volta em casa pelos pais alguns meses depois de sair, os mesmos aceitaram seu relacionamento com Julia que, mesmo com estranhamento, os visitava com frequência e era sempre tratada bem.

Miguel e Adriel visitavam Eduardo e Julia algumas vezes nesse tempo, pois eram os únicos que viam problema em uma paz tão grande no mundo por tanto tempo. Apesar da paz que acontecera, o ano seguinte foi o com maior numero de mortes, a maioria inexplicáveis.

Joana revelou que estava com câncer alguns meses depois e mesmo com o tratamento, faleceu após um tempo. No velório, Eduardo viu Adriel levar-la ao paraíso, e como espírito, Joana pode ver a real forma do homem. Sorrindo para Eduardo, ela subiu aos céus.

Quatro anos depois, com a paz teoricamente ainda estabelecida e os anjos desesperados para saber o que estava acontecendo, o lado humano de Julia ainda existia e junto com Amanda estavam se formando. Amanda se empolgava com a formatura, vivia procurando vestidos com sua mãe e Julia.

Nos primeiros anos, Eduardo ainda trabalhou na livraria, mas após o falecimento de Joana, decidiu seguir algo mais além e, assim como Julia, entrou em uma faculdade, para que pudesse expandir seu conhecimento humano e tornar a vida de salvador mais próxima de todos.

O dia da formatura chegara, Julia se sentia nervosa, mas não tanto quanto Amanda que tremia com medo de qualquer tipo de tropeço ou coisa parecida.

–Sério que você está se preocupando com a opinião de vários babacas e vadias como você mesma diz?

–Mas é claro, é hoje que me despeço de toda essa merda, preciso fazer isso direito.–Fazendo Julia rir.

Julia havia envelhecido, mas ainda não parecia ter a idade que tinha. Como Amanda mesma dizia, parecia ter em média dezenove anos tendo quase vinte e seis.

Na cerimonia, antes de ser chamada, Julia teve um sentimento estranho em seu coração, um sentimento que não sentia havia muito tempo. Um homem com terno preto passou do seu lado, mas a garota não se importou muito, afinal era uma formatura e homens de terno seriam o que mais teria lá, apesar de sua sala ter mais mulheres.

Amanda foi chamada e, como tanto desejou, não tropeçou em nada.

Após alguns outros, Julia foi chamada, sua mão tremia mais do que a de Amanda ao pegar o diploma.

Julia sentia às vezes o sentimento estranho, mas ainda não se incomodava.

Todos se reuniram para a foto. Amanda colocou o capelo para frente, cobrindo parte do rosto, enquanto apoiava o braço esquerdo em volta do pescoço de Julia que, assim como ela, cobriu o rosto com o capelo.

Julia não parava de sentir alguma coisa estranha então no meio da multidão ela viu. Tantas pessoas reunidas no mesmo lugar enquanto jogavam os capelos para o alto, lá tranquilamente, um homem com terno completamente preto e com a gravata vermelha passava. Um homem que já havia visto, mas que nunca vestira algo parecido, e com seu clássico sorriso de lado seguido de uma piscada, Julia reconheceu Caleb.

Quando os olhos de Julia piscaram não o viu mais. Amanda segurou seu braço puxando-a, mas viu a expressão aterrorizada de Julia, então largou-a perguntando o que acontecera. Julia estava respirando rápido e ofegante. Amanda levou-a para fora da multidão, indo para a rua em frente ao salão. Ela ainda olhava fixada para o nada, até que no chão mesmo se sentou e começou a chorar.

–O que aconteceu?

–Eu o vi. Eu o vi. Eu o vi.

–Quem?

–Meu amigo, meu professor, ele estava lá.

–Julia se acalme.

–Não tem como me acalmar, ele estava muito diferente.

–O que?

–Suas roupas. Preciso ir para casa, por favor, vamos para casa, passe a noite em casa.

–Claro, se fizer você se sentir melhor.

–Fará, por favor, vamos.

Pegaram o primeiro taxi em que puseram os olhos e foram para casa.

Ao chegar em casa, Julia encontrou Eduardo na porta, que, assim como ela, estava desesperado e suando.

–Também o vi.–Disse ele assim que viu o estado da garota.

Amanda estava confusa e entrou depressa na casa junto com Julia e Eduardo, mas próximo ao quarto algo aconteceu. O braço de Amanda, que envolvia o de Julia, endureceu. A garota estava completamente parada, então Eduardo olhou no relógio.

–O tempo parou.

Julia olhou para a porta de seu quarto, que estava um pouco aberta enquanto uma luz saía de lá. Com calma, Julia abriu a porta, apoiando a palma da mão no meio da madeira.

Olhando para o chão, sentado mantendo o sorriso no rosto, ajeitava a gravata logo antes de olhar nos olhos de Julia, crescendo ainda mais seu sorriso. Levantou-se, mas Julia permanecia imóvel junto a Eduardo. Caleb se aproximou de Julia, abraçou-a e em seu ouvido disse:

–Assim que se comporta ao ver um antigo amigo?

A garota apoiou as mãos nas costas de Caleb, apertou-o como uma criança e seu urso de pelúcia. Chorava como uma garotinha que se perdera dos pais.

Eduardo continuava parado, não entendia o que acontecera.

Com tanta emoção ao ver Caleb, Julia ignorou a sensação que sentia cada vez mais forte.

–O que faz aqui?–Perguntou Eduardo.

Caleb largou Julia.

–Eu voltei.–Dizia Caleb.

Olhando ainda nos olhos lacrimejados de Julia, esfregou sua bochecha com o polegar tirando a lagrima que escorria.

–Não sabe como senti sua falta.–Continuou.

–Acredite, eu sei.–Disse Julia.–Alguns momentos no começo foram difíceis, Caleb, eu precisei de você e doía saber que não o veria.

O sorriso de Caleb diminuiu, então olhou para o chão. Eduardo olhava com cara desconfiada.

–Talvez você possa continuar me vendo, para sempre.

–Como podemos saber que você é o mesmo Caleb?–Perguntou Eduardo.

–Eduardo.–Gritou Julia repreendendo.

–Ele foi levado para o inferno. Como podemos acreditar se é ele ou alguém de lá em seu corpo?–Ao dizer Julia se afastou um pouco.

–Muito bom, Eduardo, deve protegê-la antes de tudo.–Dizia Caleb.–Julia, eu vi o Dave.

Os olhos de Julia se arregalaram.

–Como ele está?

Caleb não respondeu, apenas fez um movimento com a cabeça fazendo Julia olhar para o chão com tristeza.

–E o que quer?–Continuava Eduardo.

–Tenho uma proposta…–Dizia Caleb quando foi interrompido por Eduardo.

–Sabemos que você já ouviu essa frase e não acabou bem.

Caleb desmanchou o sorriso e encarou Eduardo.

–Sua coragem aumentou, Eduardo. Admiro isso, mas deve entender que não os tenho como inimigos. Não precisa desconfiar de mim.

–E por que desconfio?

Caleb sorriu, olhou para Julia e continuou.

–Há um modo de salvar o mundo, salvar de tudo que há de ruim, fazer qualquer mal se tornar algo bom. Preciso de você Julia.

–E por que faríamos isso?

–Para ver sua mãe.

Os olhos de Eduardo se estreitaram.

–Minha mãe está no paraíso.

–Ah, continue acreditando nisso, e quando chegar lá saberá a verdade.

Eduardo se jogou sobre Caleb, encostando-o na parede.

–Não fale da minha mãe, você não tem o direito.

–Olha que ela nem foi para o inferno por fumar trinta cigarros por dia e por causa de seu vicio ter morrido de câncer pulmonar. Não, ela foi por ter tentado se suicidar, certa vez, quando seu filhinho fugiu de casa por se recusar a ir para a reabilitação.

–Eu disse para parar.

Eduardo socou seu rosto que nem se moveu como se houvesse socado a parede.

–Você me questionou do motivo, aguente se quer tanto respostas.

–Eu veria Dave?–Perguntou Julia.

Caleb empurrou Eduardo, para olhar nos olhos de Julia.

–Com certeza.–Respondeu.

–E eu poderia salva-lo?

Abaixando a cabeça, Caleb respondeu:

–Eu não sei.

A garota abaixou a cabeça em seguida.

–Mas não nos impede de tentar.–Continuou Caleb.

Os olhos dela voltaram para o dele.

–E o que precisamos fazer?

–O que VOCÊ precisa fazer.–Corrigiu Eduardo.

–O que quer dizer?–Perguntou Julia.

–Eu não vou.

–Caleb lhe salvou do inferno, você deve isso a ele.

–Eu o agradeço, mas não o seguirei.

–Então o que faz aqui?–Disse Caleb fazendo com que Eduardo parasse junto com o tempo.–Não me seria útil, eu vim atrás de você.

–Por quê?

–Porque te treinei com a minha sabedoria, é como outro eu me apoiando.–Dizia Caleb, então sorriu.–E o tempo não me fez deixar de te amar.

–A mim também não. Eu ainda te amo, Caleb, mas preciso de um tempo.

Caleb foi até a porta e a abriu por completo.

–Por ela?–Perguntou.

–Sim, preciso de um motivo para sair daqui e…–Julia se interrompeu.

–O que?

–Uma garantia sua de que voltarei a vê-la.

–Eu garanto, sei como a ama.–Disse Caleb sorrindo.–Quanto tempo precisa?

–Acho que uma semana, mas o que eu digo?

–Diga a verdade.

Julia arregalou os olhos em estranheza.

–Isso não é contra as regras?

–Sim, mas é o que deve ser feito.–Disse Caleb.–Agora preciso ir.

–Tudo bem.

Caleb se aproximou para beijar a testa de Julia, que ouviu um som de queimado. Quando se afastou, Caleb esfregou a boca, que saía um pouco de fumaça.

–Caleb.

–Diga.

–Na época que estava confusa sobre Amanda, se lhe perguntasse o que fazer, o que diria?

–Diria para não fazer, mas eu não saberia o quão feliz ela te tornaria.

Quando desapareceu, Julia olhou para o despertador sobre a cômoda que começou a mexer. Eduardo murmurava e fazia perguntas muito depressa, até que Amanda entrou no quarto. Eduardo parou de falar, então Amanda colocou a mão sobre o ombro de Julia.

–Você precisa se acalmar.–Disse Amanda.

–Eu já me acalmei.–Respondeu Julia.

–Você não fará isso, fará?–Perguntou Eduardo.

–Saia do meu quarto.–Disse Julia.

Eduardo ainda confuso e querendo fazer mil perguntas que não poderia na frente de Amanda saiu do quarto com raiva.

–O que ele não quer que faça?

–Eu te conto amanhã. Hoje é noite de comemoração.

Julia empurrou-a sobre a cama, fazendo-a sentar sobre o colchão. Sentada sobre o colo de Amanda com os joelhos na cama, apoiou as mãos atrás de seu pescoço e beijou-a. Com os beijos indo cada vez mais baixo, passando pelo queixo, pescoço, peito, até que suas mãos desceram para que tirasse a blusa de Amanda.

–Você está meio bipolar hoje.–Disse Amanda pausadamente e sorrindo.

–Quer que eu pare?–Perguntou Julia deixando de beijar a barriga já sem blusa de Amanda.

–Por favor, não.

Julia passava a mão sobre o corpo da garota, tocava todas suas tatuagens e ainda desconhecia o significado da frase em latim abaixo de seu seio.

Na manhã seguinte, quando Eduardo se levantou, foi até a cozinha e encontrou Amanda apenas de calcinha mexendo na geladeira. A garota pegou o leite e um saco com pão que ficava sobre a pia ao lado da geladeira. Quando se virou tomou um susto com Eduardo parado, que desviou o olhar em seguida. Com o leite e o saco cobrindo os seios, Amanda correu até o quarto.

Era mais cedo do que Eduardo acordava de costume, então achou que não haveria problema. A garota voltou em seguida com blusa e shorts, ainda carregando o leite e o pão. Começou a fazer o café da manhã dela e de Julia.

–Eu sei que não gosta muito de mim…–Dizia Eduardo.

–Não é questão de gostar, só não confiava, mas passei a não me importar.

–Obrigado, eu acho. De qualquer forma, saiba que eu quero o bem de Julia, seja lá o que ela diga sobre o lugar que vai, impeça-a. Se não conseguir impedir, faça com que você seja tão memorável que ela não poderia te deixar.

–Mas por que isso? Aonde ela vai e por que não pode ir?

–Eu não sei o que ela dirá, mas nem ela e nem eu podemos dizer. Espero que minta, mas se ela disser que não deveria lhe contar, acredite no que disser.

–Vocês estão me assustando.

–A mim também.

Ao terminar de preparar o café da manhã, Amanda levou-o para Julia que ainda estava adormecida. A garota sentou-se ao lado dela e deu um beijo em seu rosto, que a acordou.

–Bom dia.–Disse Amanda.

–Bom dia.–Respondeu Julia ainda sonolenta.

–Essa noite foi…

–Incrível? Eu sei, também achei.

–É, existem muitos adjetivos para descrever.

–Maravilhoso, espetacular, incrível?

–Incrível de novo?

–É porque foi duas vezes incrível.–Disse Julia rindo e fazendo Amanda rir.

–O que Eduardo queria dizer naquela hora?

Julia desviou o olhar.

–Acho melhor deixar isso para depois, mais tarde.

Ainda curiosa, Amanda aceitou, mas quando chegou a noite voltou a perguntar.

–Tudo bem. Nem sei como dizer.

–Diga com calma.

–Ok. Eu vou precisar ir para um lugar, preciso que entenda, é algo importante para mim.

–Mas o que e em que lugar?

–É bem provável que você não acredite, eu nem deveria lhe contar, mas Eduardo e eu somos anjos, assim como meu professor que morreu. Ele veio ontem e disse que precisamos ir a um lugar, pois isso salvará a terra.

–Você acertou, eu não acredito.

Julia segurou os ombros de Amanda com as mãos, uma luz rodeou as duas, então seus olhos clarearam e suas asas se mostraram, o rosto de Julia tornou-se mais lindo do que nunca. Amanda se afastou e tudo voltou ao normal, menos seus olhos que ainda estavam claros, mas com o tempo escureceram novamente.

–Tá, imagem, mil palavras, verdade.

–O que?

–Está certa a frase uma imagem vale mais que mil palavras. Eu acredito, ok? Mas que lugar é esse?

Julia desviou o olhar para o chão e voltou em seguida.

–Para o inferno.

–O que?

–Precisamos ir para o inferno, eu não sei o que ele pretende fazer, mas é para lá que vamos.

–Não vou deixar você ir para o inferno.

–Eu sei que não, por isso não é uma escolha sua.

–Não me trate como se não fosse algo valido.

–Você é, tanto que a primeira coisa que perguntei para meu professor era se algum dia eu voltaria a te ver.

–Eu não quero um dia, quero viver com você assim como já vivo.

Julia colocou a mão em volta do pescoço de Amanda, abraçando-a.

–Sentirei sua falta a cada segundo.

–Eu já sinto sua falta só de saber de sua futura ausência.

–Não diga assim, faz eu me sentir mal.

–É assim que eu vou estar me sentindo enquanto não estiver aqui.

–É assim que me senti quando decidiu voltar para a casa dos seus pais.

–Só prometa-me que você voltará.

–Eu prometo.

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