[Conto] Os animais da vizinha

Ele tá latindo de novo. Eu não aguento mais esses cães.

Eles nunca foram assim. Na verdade, sempre que saía de casa, os cães e gatos da vizinha me ignoravam. Esses bichos são animais com vida, devem procurar isso nas pessoas, e eu sou quase um morto vivo.

Vivo dessa vida sem sentido na espera de que algo mude repentinamente. Casa, trabalho, trabalho, casa. Eu não sei quando isso muda.

Dentro dessa vida quase niilista, desde criança criava uma teoria de que esses jogos, ou até filmes, em que os personagens são feitos em computação, talvez fosse nossa vida para outro ser superior. Imagine assim, você nunca vê o Andy nascer no Toy Story, mas sabe que aquilo teve que acontecer, muito menos vê quando que fizeram uma bruxaria para os brinquedos terem vida. Sabendo que tudo isso já aconteceu previamente na história do desenho, imaginava a vida como um molde para o dia em que me tornaria história.

Sou aquele típico personagem sem vida que do dia pra noite é chamado para uma missão. Aí começa a clássica jornada do herói. Talvez eu fosse como o Neo… no momento sou Mr. Anderson.

Eu saio pela porta e os cães vêm em minha direção. Ela continua deixando os animais soltos e a porta aberta, um dia ainda vai perder esses bichos. Tento brincar com eles, mas meu ânimo não é lá desse tipo. Desço o elevador, vou para o trabalho.

Azia desgraçada. Por que comemos coisas que sabemos que nos fará mal? Não importa. Tá me queimando por dentro enquanto subo pelo elevador suando.

Chego até minha porta, pego minhas chaves e ouço um som de passo no corredor de incêndio.

A luz apaga.

Eu fico me movendo para ver se acende, mas não. Talvez tenha queimado a lampada.

O mesmo som no corredor.

Certo, levando em consideração a minha teoria, minha vida realmente foi moldada para que no futuro eu me tornasse personagem de uma cena inicial de filme de terror clichê? Tem toda a cara. Luz se apaga, som no corredor. Que droga, agora vou ser assassinado e aparecerá o logo do filme na tela do cinema. O irônico é que sempre imaginei que caso tornasse a minha vida um filme de terror, eu seria o vilão. O Jason, talvez. Não, no fim das contas o Jason era aquela velha doida.

O som tá mais próximo.

Por que não abri a porta e entrei logo? Eu sei o que é esse som.

O primeiro cão chegou, mas ele passou reto. Tod… Nunca foi muito simpático.

A luz acendeu assim que ele passou. Podia ouvir o som do próximo subindo e…

A luz apagou de novo.

Essa animação toda me fez até esquecer a azia, nem a sentia mais. O próximo cão, Biff, subiu e desviou de mim, acendeu a luz novamente e ele foi para o elevador. Logo atrás vinha o gato. Sempre preferi o gato. Pabo.

Ele parou na minha frente e me olhou bem nos olhos. Os portões do inferno estão nos olhos do gato, como dizia Constantine. O inferno parece tão belo aos olhos daquele gatinho inofensivo.

A luz apagou novamente.

Continua um som vindo do corredor, chegou Fitu, ele parou e deitou nos meus pés.

Ouço as botas pisando. Eles estão chegando, finalmente. Foram até o elevador, esticaram a maca.

A luz acendeu.

Biff lambia meu rosto caído no elevador. Ainda bem que não sentia, acharia nojento. Me deitei na maca com Pabo, mas não deixaram ele ficar comigo, pois precisavam colocar meu corpo, no entanto Fitu pôde ir deitado comigo. Foi bom passar esse tempo com eles.

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