[Parte 15] Filhos de um Deus menor

A verdade e a mentira de uma única falácia

Capítulo XII

Lou estendeu mão coma arma para mim. Não apontando, ele estava me dando. A outra estava um tanto distante. Ao mesmo tempo que sinto que a faca não está com ele e ele não quer me matar, sei como ele é esperto.
Pego a arma e vejo se tem balas. Tem todas.
 — A gente falou muito sobre planos, mas o que temos é bem raso. — Disse Lou.
 — Estava pensando sobre isso. Ainda pretende ter uma vida depois disso? — Perguntei.
 — Vida? — Lou apoiou a mão em meu ombro — Acho que tá tarde para isso.
Ele saiu andando para o quarto.
 — Sei que teve sua chance. Espero que me perdoe por atrapalhá-la.
 — Lou.
 — Fala.
 — SDT para sempre.
Ele fez uma respiração para fora que mesmo de costas ouvi seu sorriso.
 — SDT para sempre.

Seis anos antes
 — Lou, põe a missão.
 — Que missão? Para que jogar missão quando tem um mundo aberto para fazer qualquer coisa?
 — Vai ficar rodando por aí atirando em qualquer pessoa?
 — Tem coisa melhor?
 — Mas aí eu nunca vou jogar.
 — Quando eu morrer.
 — Quando você morrer, vai embora com o jogo.
Então joga agora.

— Lembra quando discutíamos muito sobre jogar GTA na missão ou tocando o puteiro?
 — Lembro. É quase a mesma ideia agora.
 — Vamos ficar rodando atirando neles?
 — Tem coisa melhor?

— Você tá jogando sem missão agora.
 — Enjoei.
 — Viu. Por isso não faço missão.

— Será amanhã a noite.
 — Não, tem que ser pela manhã.
 — Por quê?
 — Dylan.
 — Esquece essa merda. Ele tem que guardar o ódio, ninguém vai ter coragem de contar para o moleque.
 — Ele não vai ver todo o massacre.
 — E por que não?
 — Eu não quero ser como um deles.
Lou ficou em silêncio.
 — Eu não quero ser mais um que criou um monstro. — Continuei.
 — Você sabia desde o início que chegaria a hora dele.

— Lou, vamos embora. — Minha tia gritou.
 — Vou embora. — Disse Lou pegando o jogo.
 — Dorme na minha casa.
 — Eu não posso. Dylan vai precisar.

— Mas, Lou… — Eu dizia.

— Por que ele vai precisar? — Perguntei seis anos antes.

— …Você que me despertou isso.

— Porque no jogo, o único a sair matando, tem que ser eu. Os outros só viriam para impedir.

— Só uma coisa mudou, V.
 — O que?
 — Vão clamar por uma continuação.
 — Mas não precisamos entregar a eles.
 — E eu quero que se lembrem.
 — Você não tem jeito.
 — Não, você não tem jeito. Nunca vai deixar de ser fraco.
 — Eu consigo me conter, e você?
 — Você não se contém, você não tem coragem.
 — Eu não tenho coragem? Você que está com a faca, mas não me matou ainda.
Lou ficou em silêncio por um tempo. Estendeu a mão para o lado e pegou uma das armas. Achei que apontaria para mim, mas apenas colocou na cintura.
 — Do que você tá falando? — Ele me perguntou.
 — Tá faltando uma faca.
 — E acha que fui eu.
 — Não tem mais ninguém, Lou.
Ele balançou a cabeça em concordância e sarcasmo. Pegou a mochila, tirou um dos GPS do McDonalds e quebrou na parede. Jogou o outro para mim.
 — SDT para sempre é o caralho.
Lou saiu pela porta. Ele não tinha para onde ir, mas o deixei.
Não por muito tempo.
Pouco tempo depois olhei pela janela e vi como escurecera. Notei que ele sempre, apesar de um caminho perdido, tinha um caminho. E meu controle, era só para manter uma vida, o que tinha acabado de me aliar a ele em não ter.
Eu sou um merda.
Desci a escada e fui para a rua procurá-lo.

Acontece que do outro lado da rua na mesma noite, um homem abordou Lou.
 — Aí, isso é um assalto, passa a mochila e tudo o que tiver.
Lou olhou para ele sério. A mão do rapaz estava no bolso.
 — Cadê sua arma? — Lou perguntou.
O rapaz engoliu seco e ergueu o que claramente era seu dedo no bolso.
Lou tirou a arma e apontou para ele.
 — Isso aqui é uma arma.
A rua estava deserta.

No entanto, onde morava é tão violento que próximo a esse horário, um cara veio para mim me roubar. Esse estava armado.
Ele apontou a arma para mim e fingi um certo panico, olhei para rua e quase nenhum carro passava, mas conhecia o ponto de ônibus que havia ali perto.
Um ônibus estava vindo e nesse momento, ouvimos um som de tiro. O rapaz se distraiu com o som, e o chutei, deixando-o ser atropelado pelo veículo.
O homem freou, mas estávamos em uma esquina, corri para o outro lado.
Era um cara armado, isso se resolveria.
Fui até a casa de Briene de carro e Gummy atendeu a porta.
 — Vamos para casa.
 — Pensei que não me veria mais.
 — Era o plano, mas planos e Lou não combinam.
Gummy de uma certa forma entendeu a situação e por algum motivo me abraçou.
 — O que tá fazendo?
 — Sei como acha estúpido hoje em dia a história do SDT, mas sei como isso importa.
 — Não sabe.
Ela me soltou com um olhar de “Eu queria ajudar”, mas não deixou-se abalar, não era uma boa hora. Foi seu momento mais são acredito.
Um tempo depois, Gummy voltou com a mochila e fomos para casa.
Na viagem estávamos conversando e o assunto do plano surgiu.
 — Você pretende matar? Sabe que sou contra isso.
 — Não importa se você é contra.
 — V, pensei que mudaria depois de nossa conversa.
 — E eu pensei que você não fosse burra.
Gummy puxou o freio de mão e começou a gritar.
 — Porra, pare de me achar burra.
 — EU VOU TE TRATAR COMO BURRA ATÉ ENTENDER.
 — O QUÊ?
 — EU TO SIMULANDO.
Ela ficou em silêncio.
 — Eu já to simulando, Gummy. — Disse a ela.
 — O quê?
 — Você disse que se algo me incomodasse, eu devia continuar a simular o contrário que me contém. Eu estou. Estou sentindo raiva e ódio de você, pois não quero que sinta que você é minha fraqueza.
Ela continuou em silêncio.
 — Você é minha única ligação com uma vida e não é hora de ter uma vida, é hora de cumprir o prometido.
Soltei o freio de mão e continuei a dirigir.
 — Quando tudo isso acabar, eu vou deixar um livro para você. Minha mãe vai pegar a oportunidade de se passar como a mocinha, a donzela, e esse livro resolverá isso.
 — Está bem. — Ela disse com a cabeça ainda baixa.
 — Está mesmo?
 — Está. — Respondeu com algumas lágrimas.
Chegamos em casa em um clima um tanto tenso, mas logo iria passar. Foi o que acreditei.
Ela começou a tirar as coisas da mochila e enquanto isso tentei conversar.
 — Como foi na casa de Briene?
 — Foi divertido — Disse ela tirando um casaco — Conversamos como não fazíamos há um bom tempo.
 — E sobre o que?
 — Papo de mulher, V. — Disse tirando as roupas da mochila. — E vimos filmes e comemos alguns doces.
 — Com o Lou não foi tão bem, como pode notar.
 — Olha, amor. — Disse tirando um pote — Isso vai se resolver, como já se resolveu.
 — Dessa vez acho mais difícil. Eu fiz muita merda.
 — Com certeza você vai se redimir. — Disse ela tirando um garfo… e uma faca.

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