Quando não são só quinze dias

Luís H. Andrade
Sep 1, 2018 · 4 min read

Felipe é um garoto gordo, tímido, nerd e totalmente invisível. mas ele não é nada parecido comigo. Ou eu achava.

Quando me falaram sobre esse livro, confesso, fiquei intrigado mas não tão encantado. A história é sobre um garoto lgbt, gordo, que acaba se apaixonado e tendo que lidar com uma pá de coisas novas e que não são ligadas, diretamente, a ele. Ouvi a descrição e tentei não ligar a nenhum fato de qualquer coisa que já tenha acontecido comigo mas quando li… bom.

O protagonista do livro, Felipe, está ansioso para as suas férias de verão. Serão quinze dias para tirar o atraso de suas séries, livros, filmes e tudo mais que for possível para mante-lo fora da realidade dura que ele passa diariamente: o bullying na escola.

Felipe segue tendo que aguentar apelidos pejorativos. No livro, somos apresentados a diversas situações que causam revolta e desconforto (Pra quem possui a famosa empatia, né).

Vou jogar aqui uma trilha sonora, pra não ficar chato.

Acho que minha vida no ensino médio foi muito abaixo da média. Passei por poucas ou nenhuma situação de bullying. Por sorte, eu acho.Ou por ter sido extremamente invisível. Por outro lado, lembro que na quinta série do ensino fundamental, tive que lidar com uma galera meio escrota. Com comentários negativos seguidos de um grupo específico. Uma vez, por exemplo, uma dupla me seguiu até em casa falando merda e, felizmente, não lembro exatamente o que estavam dizendo mas não estavamos sozinhos na rua. Muita gente via e ignorava a situação. Quando parei em frente e chamei minha mãe, a moça que trabalhava na casa em frente percebeu e, quando abriu para mim, saiu perguntando para os garotos qual era o problema — e eu só sabia repetir um “oi, tá tudo bem. relaxa”. Descobri onde um deles morava e passei a evitar a rua. (coincidentemente uma vez, no meio da tarde, quase fui assaltado em frente a casa dele).

Felipe também tem uma mãe incrível, Rita. Ela é uma senhora incrível, porém, me deixou culpado. É, eu deveria falar mais.

Já me vi em situações idênticas as apresentadas por Felipe. Ele em frente ao espelho, se olhando de lado e pensando em como a vida seria mais fácil se eu não fosse tão gordo. Como seria mais fácil falar com pessoas, sair de casa, comprar roupas, arrumar emprego e ser simplesmente… visto. Ou quão dificil é para ele entrar na piscina. Ele conta sobre como era frequente a diversão dentro da água.

Eu costumava nadar. Todos os dias, das 11 am até a horá que Power Rangers começava na globo. Era um tempo meu comigo mesmo, batendo meu braço de um lado para outro, em um espaço de menos de 2metros, na casa da minha madrinha. Eu também acabava sendo uma “atração difernete” nas festas de familia, quando eu ficava lá… nadando. Parei de fazer isso quando cheguei as 11. Desde lá, foram poucas as vezes que entrei numa piscina.

Felipe por outro lado tem ajuda de sua psicologa. Essa é uma das maiores diferenças entre ele e eu. Infelizmente, são poucas.

Já perdi as contas de quantas vezes eu disse para mim mesmo “garoto, vá procurar ajuda. não pode confiar simplesmente na suas melhoras esporádicas.” Mas assim… vai ficando como resolução de ano novo.

Quando encontra com Caio, o seu vizinho, no elevador, Felipe dá um bom dia baixo e, por saber que vai ser ignorado, nem se preocupa em receber resposta. Segue a sua rotina no inferno e, quando volta para casa, descobre que passará seus quinze dias de férias dividindo a casa com Caio. Não quero e não vou dar spoilers sobre isso.

A rotina de Felipe em casa, por outro lado, me deixou com um pouco de inveja. Eu sou muito recluso e aprendi desde cedo a ser eu. Sentar em salas com famílias grandes é um problema que está longe de ser resolvido por mim. Mais uma coisa para a gigantesca lista de coisas que eu não posso fazer.

Felipe, por outro lado, é personagem. Pode ser que Vitor Martins, o escritor, nunca tenha passado por tantas aquelas experiências ruins e muito menos pelas positivas. Pode ser que ele tenha lido em algum lugar, ouvido de alguém que contou para alguém ou até mesmo surgido de um sonho. Enquanto eu vivi e vivo parte dela.

“Você não deveria ter vergonha de quem você é”

Me senti incomodado durante boa parte do tempo que li o livro, passava as páginas incrédulo com aquelas verdades que eu jurava ser vivida somente por mim. Porém, não só por quinze dias.


Quinze Dias é um romance nacional escrito por Vitor Martins. Está disponível nas versões físicas e digitais em diversas lojas brasileiras.

Luís H. Andrade

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