Desigualdade é não ter opinião

A comunicação é um recurso para a consciência e detém um poder que, de um ponto de vista negativo, pode induzir ao consumo e a modelos de comportamento, à manipulação e distorção dos fatos. Assim como a História é escrita com os olhos do histórico, também a notícia é fruto das observações dos profissionais de mídia. Por isso a importância que assume a educação aos meios de comunicação, um instrumento interativo do ato de apreender a realidade através da informação.

Uma das prioridades do processo comunicativo é o consenso, o poder da persuasão. A capacidade de desconfiar é inerente ao ser humano e existem diversos planos de poder que permitem ao cidadão recusar o consenso, como vemos nas pesquisas sobre o comportamento dos consumidores de informação. Mas participar do consenso é prazeroso, é onde se encontram os elementos de participação social, pensar as mesmas coisas nos faz sentir parte da sociedade, por motivos de tradição social e espiritual, por razões de aceitação.

A igualdade na democracia, porém, vai além do consenso, aparece quando o indivíduo se responsabiliza pelo que pensa e se sente integrado à sociedade onde vive. A ausência de consciência sobre o poder que as mídias podem ter sobre as escolhas quotidianas e sobre o modo de agir e pensar aumentam os níveis de desigualdade.

Historicamente nos meios de comunicação sempre predominou o interesse das elites. Os trabalhadores apareciam — e ainda são retratados assim — quase sempre em situações curiosas ou extravagantes. A força do capital prioriza os interesses dos que têm maior concentração de renda. A comum espiral negativa a qual os processos comunicativos estão relacionados.

Os primeiros jornais, lembra Habermas, foram chamados ironicamente de “jornais políticos”. Os temas predominantes eram as reuniões imperiais e eventos bélicos, impostos, transporte de metais preciosos e notícias de comércio internacional. A alfabetização sempre foi essencial na participação política, e assim será também no processo de afirmação na esfera pública. É no seu êxito que a percepção do poder é mais visível. É o espaço metafórico sobre aquilo que parece disponível para todos, ou seja, o pensamento e a capacidade de expressão. A ampla e ilimitada circulação de livros e jornais aumenta a consciência dos cidadãos e das autoridades sobre a necessidade de ter canais e espaços para a expressão pública da opinião e para a troca de informações. Após as revoluções europeias de 1848, o espírito do Iluminismo sustentava a necessidade de ter cidadãos instruídos, que fizessem parte de uma saudável discussão pública, interessados no progresso da ciência e do conhecimento.

Hegel afirmava que a educação deveria ser vinculada ao trabalho socialmente necessário. Por meio da educação o indivíduo se torna capaz de dar um sentido à sua capacidade de trabalho. Historicamente a cultura é um dos critérios de admissão na sociedade, o outro é a propriedade. O acesso à esfera pública é regulado pelas funções culturais e políticas e coincide com a participação tributária. Na Revolução Francesa se falava de um critério de diferenciação entre cidadãos ativos e passivos, que representava os níveis de desigualdade.

Desigualdade é a falta de liberdade.

Revela a incapacidade de fazer parte da esfera pública, de se mostrar como um ser público e de ter controle. Nas reflexões de Kant é possível ver que o homem pode ser feliz em qualquer condição social, desde que seja uma decisão consciente e individual e não uma determinação externa à sua vida. A felicidade, portanto, não dependeria da situação econômica, desde que exista uma escolha pessoal.

Habermas dirá que a opinião pública se torna simplesmente um limite do poder. Em uma situação de igualdade de decisões, o liberalismo ataca afirmando que a liberdade levaria ao caos, à falta de ordem e ao risco do uso de forma errada se houver uma formação cultural, moral e escolar insuficiente. É com essa justificação que se procura afastar cada vez mais o poder de quem não faz mais parte da elite conhecida e organizada.

O nascimento da esfera pública na Idade Média era um “espaço metafórico” onde se realizava a livre expressão da opinião em público. Mas era sempre o poder das classes dominantes que determinava essa esfera. O poder da igreja, do Estado e da classe dominante criava restrições ou limitações, os cidadãos sabiam que não era possível lutar contra essas forças, eram influenciados por aquilo que as instituições propunham.

A reação a essa opressão aparece através da solidariedade, que nasce a partir da incapacidade coletiva de ter uma opinião por causa da posição social, da capacidade de elaborar um raciocínio e de encontrar os canais de transmissão. Foi assim que mais tarde Tocqueville defendeu a necessidade social da representação política para que o poder de comunicação na esfera pública se ampliasse, quando as leis do mercado que dominavam a esfera da circulação das mercadorias e do trabalho social penetraram na esfera reservada à privacidade da opinião pessoal. O debate assim se transforma em consumo e o nexo da comunicação social se desagrega em atos de recepção individual que tendem, no entanto, sempre a se uniformizar no consenso.

A forma como a recepção da informação acontece depende da potência do processo de comunicação. O consumo é um ato individual relacionado aos gostos e desejos pessoais. O papel da comunicação de massa na sociedade capitalista é o de levar a todos modelos de consumo, seja de cultura ou bens materiais, e de comportamento, facilitando, em um certo sentido, a relação comunicativa entre as diversas classes, mas aumentando a desigualdade entre aqueles que determinam o consumo e aqueles que procuram se adaptar. Na origem do conceito de esfera pública a participação política era o elemento principal, mas no mundo atual é o consumo.

Nas últimas décadas o comportamento político passou a interessar menos que o consumo. Mas na era da Internet, a tendência é a reversão desse ambiente, em que as questões políticas e sociais ganham mais espaço no pensamento e nas discussões que as ansiedades de compra. Habermas dirá que os consumidores — e podemos falar de consumidores também de informação — têm a falsa consciência que cooperam responsavelmente e que pensam realmente para formar uma opinião pública. Na realidade são aqueles que possuem instrumentos de constrição e de educação que tem importância decisiva para influenciar o comportamento da população e manipular os seus interesses.

A divisão da esfera pública entre pessoas que pensam e outras que aplaudem é a consequência maligna desse processo. O conceito de interesse reside na regra econômica e como a desigualdade é ainda a base do nosso projeto político ocidental, qualquer transformação esbarra em dificuldades de execução.

A imprensa esteve sempre em primeiro lugar na vida pública e política nos movimentos históricos. O declínio da centralidade da imprensa mostra que muito mudou e o jornalismo não é mais tão importante para a sociedade como foi no passado. A informação tem duas faces, pode almejar a procura pela verdade, a identificação do que acontece verdadeiramente e informar as pessoas sobre a tentativa de manipular as opiniões. Mas a informação pode ser também instrumento de luta política, defendendo seus próprios interesses as mídias não se preocupam com a verdade, mas a usam para derrotar os seus inimigos.

Em um jornalismo ideológico, a consciência da verdade, explicou Antonio Gramsci, não poderia ser atingida somente com a “referência” do que é a verdade, mas seria preciso aprender a “pensar” a verdade. O jornalista, nesse caso, teria a responsabilidade de ajudar a refletir sobre o mundo, a sociedade, a própria vida. A imprensa revolucionou todo o mundo cultural, dando à memória um subsídio de valor inestimável, permitindo uma extensão da atividade educadora, ampliando o desenvolvimento técnico e instrumental da organização cultural. Essa imprensa, portanto, teria, na opinião de Gramsci, um caráter educativo e político que revela o “espírito do seu tempo”. Até mesmo a verdade seria uma mercadoria, tudo seria mercadoria no sistema capitalista. Tanto as mentiras quanto as verdades são fáceis de publicar e divulgar.

O jornalismo, de acordo com Gramsci, seria resultado não apenas de “uma experiência vivida”, mas seria um elemento político que pode ser usado na sua função educativa. Uma espécie de “escola do adulto”, um complexo formador de prosseguimento, que ajude a entender e interpretar a realidade. A doutrina comunista da imprensa defendida por Lênin, por exemplo, sustentava que não bastava somente propaganda e agitação coletiva, mas um organizador coletivo das angústias de classe, um mediador para a instalação de uma hegemonia, ou seja, uma direção política, moral e cultural de um grupo social.

Se de um lado vemos essa proposta de hegemonização ideológica, por outro lado temos a tecnologia e a força econômica como um potente agente de mudanças ou perpetuação de situações de desigualdade. A individualização no uso da informação oferece mais poder aos que já são poderosos e privatiza e dificulta o acesso ao processo de comunicação. O sistema atual das mídias segue princípios de seleção da informação que determinam a dificuldade da maioria do público em entender o conteúdo e estabelecer relações entre a verdade e a opinião.

Responsabilidade social e interesse humano são o ponto de partida para um jornalismo que valorize a sua função educadora, autorizando o jornalista, assim como o artista, a refletir e aprofundar valores e questões sociais. Educar para os meios de comunicação é um caminho para enfrentar o poder em busca da democratização da esfera pública e oferecer maior consciência sobre as desigualdades.