Desigualdade na comunicação

Luciana Cabral
Jul 10, 2017 · 4 min read

Existe uma relação direta entre as formas de distribuição das informações na sociedade e a desigualdade social. O problema não é o excesso de informação, mas a sua fragmentação excessiva. Existem dois profissionais necessários para o futuro do jornalismo nesse contexto, os media educators, os profissionais de educação aos meios de comunicação, e os jornalistas com responsabilidade social. Ambos devem dominar as técnicas e estratégias que corresponde a essas novas necessidades de “compreensão da fragmentação”, evitando assim que o privilégio de uma compreensão crítica da realidade seja restrita apenas a pequenos grupos, isso conduz a uma substancial privatização do poder de comunicação e do uso dos recursos disponíveis no mundo.

A proposta é uma análise da função da mídia e das suas relações com o desenvolvimento social, cultural e educativo, reconhecendo o seu papel na aquisição do saber na avaliação da atualidade regional, nacional e internacional. Uma sociedade fragmentada, sem memória e sem solidariedade, ou seja, uma sociedade que encontra a sua unidade somente através de imagens sem reflexão está em risco. Sem refletir as pessoas não conseguem vivenciar integralmente o seu direito à cidadania.

Inicialmente a defesa da tecnologia se referia a um caminho para uma existência social menos desigual, mas a sociedade contemporânea mostra um difícil paradoxo. A realidade da cibernética a qual somos expostos diariamente na sociedade ocidental não corresponde a essas previsões. A automação não cumpriu o seu papel integrador, pelo contrário, fez com que os homens se tornassem seres mais divididos e solitários, mesmo se parecem bem integrados virtualmente. As informações são tantas e chegam sem parar criando um “curto circuito” que faz com que a identidade dos sujeitos seja fragmentada.

Os efeitos da fragmentação na construção do texto jornalístico é de um processo que passa da narrativa para a tradução. O jornalista deixa de ser o autor, é o tradutor de um fato em texto, uma transferência de um sistema semiótico para outro, o que provoca perdas e compensações que devem ser consideradas. O texto jornalístico pode servir como instrumento de coesão das informações fragmentadas visto que relaciona o discurso sobre a realidade ao pensamento. Ao narrar a desigualdade, por exemplo, o jornalismo, como emissor popular da linguagem, relaciona a informação sobre uma determinada realidade à possibilidade de propor mudanças. Como ressalta Pierre Bordieu, o poder simbólico das palavras é decisivo nas relações sociais e define o lugar que cada um ocupa na sociedade.

A dificuldade intelectual da nossa época é superar os efeitos negativos da fragmentação criando estratégias e táticas, como propunha nos anos 1990 o filósofo francês Michel de Certeau. E ao contrário do que afirmava Marshall McLuhan a tecnologia do conhecimento não nos faz conhecer melhor o homem, entendemos melhor os seus mecanismos, mas a capacidade de expressão de sentimentos, ideias, estão cada vez mais embotadas pelo excesso tecnológico nas reações humanas. Vivemos o desafio de compreender a relação entre indivíduo e sociedade, a legitimação do poder, a relação entre consenso e dissenso, a formação da opinião pública, a ação comunicativa, a participação social e política dos cidadãos dentro de um ambiente tecnológico e de pouca valorização do humano, dos sentimentos, do pensamento.

A desigualdade é resultado tanto da pobreza no sentido econômico quanto da distribuição do conhecimento. Portanto a necessidade de se pensar sobre a necessidade atual de uma educação ao desenvolvimento, a necessidade de ampliar a participação social do indivíduo através da comunicação, que vamos denominar de Media Education — ou educomunicação. Antes de tudo é necessário refletir de que forma a fragmentação da oferta de informação provoca a desigualdade. Considerando que a distribuição da informação influencia as diferenças sociais e que a educação é um fator essencial para a transformação social e que o jornalismo atual exige cada vez mais a prática da responsabilidade social.

Esse livro é resultado de pesquisas realizadas sobre experiências bem sucedidas de educação aos meios de comunicação no continente europeu. Os meios de comunicação, a Internet, as redes sociais ocupam hoje o lugar que antes pertencia à família, à igreja ou à escola. As informações veiculadas são as mais importantes influências de socialização da sociedade contemporânea e portanto merecem, cada vez mais, pesquisas sobre o papel sociológico e antropológico, concomitantemente à continuidade da reflexão sobre o aspecto linguístico. Avaliar a informação é aprender a considerar significados, convenções, códigos, gêneros, escolhas, combinações e tecnologias. A partir dessa premissa pretende-se compreender de que forma o ato de informar se relaciona com as divisões sociais, com a distribuição de renda e a cidadania.

De um lado nos encontramos em uma sociedade com tanta informação, mas com pouca capacidade de avaliação. O desenvolvimento da habilidade individual de procurar e encontrar informações aumenta enquanto se esvai a capacidade coletiva de entender e julgar. Nos jogos linguísticos da informação jornalística a distribuição do poder é fundamental. A consciência e a competência para traduzir fatos em notícias, para em seguida transformar as notícias em instrumentos de cidadania, não estão disponíveis para todos. De que forma a teoria da comunicação aborda a questão da desigualdade? A teoria da comunicação precisa criar estratégias para “colar” os pedaços fragmentários da informação cotidiana se a intenção é estimular indivíduos mais integrais (e integrados), estimulando o pensamento que seja resultado de uma reflexão e não de um consenso criado a partir da imposição do poder econômico.

Luciana Cabral

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jornalista e professora da Universidade Positivo