Educação solidária para a inclusão

Luciana Cabral
Sep 3, 2018 · 3 min read

Um aluno que incomoda em sala de aula é alguém que pede ajuda ao professor. Qualificado como desconcentrado, bagunceiro, desobediente, quase sempre é um indivíduo carente de atenção. Não só crianças com deficiências têm necessidades educacionais especiais. Quando a diferença vira um problema é momento de se pensar em educação inclusiva. Incluir é promover a equidade, o respeito à igualdade de direitos, considerando as diferenças e as necessidades das pessoas, de modo a promover condições que possibilitem que todos tenham as mesmas oportunidades.

Igualdade e diferença são valores indissociáveis. Não basta integrar para enfrentar as práticas discriminatórias.

Na busca por alternativas para vencer a exclusão nas escolas é preciso discutir o conceito de normalidade. Se consideramos um aluno como “normal”, estamos considerando um outro “anormal” ou fora do padrão da normalidade, ou seja, diferente. Essa normalidade ou anormalidade é uma construção social.

Nenhum grupo é homogêneo, cada aluno tem sua particularidade, tempo e modo de aprendizagem. Na língua inglesa, a definição de deficiência expressa na palavra handcap indica apenas uma “desvantagem que torna difícil o sucesso”. Aceitando a diversidade e a diferença pode-se reduzir essa desvantagem. Diversidade é tolerância e convivência e diferença é o reconhecimento da alteridade, da empatia pelo outro, reconhecendo e aceitando as suas particularidades.

Um dos obstáculos nesse processo é o preconceito na sociedade e, especificamente na escola, a dificuldade dos pais em lidar com a diversidade e a diferença. A inclusão escolar não se dirige apenas às crianças indicadas para a educação especial. Toda criança que parece inadequada — apresenta habilidades, competências ou dificuldades no ambiente escolar — está solicitando que algo seja feito para que ela se sinta incluída.

Os pais precisam aceitar essa inadequação e a escola deve levar em consideração o contexto escolar e familiar para elaborar estratégias. É um trabalho conjunto e contínuo entre as duas instituições: família e escola. Sem essa parceria dificilmente o aluno se sentirá incluído.

O maior desafio atualmente tem sido a qualificação dos professores. Eles não estão preparados para atender essa demanda do novo paradigma das necessidades educacionais especiais. Os professores não são habilitados a conduzir os alunos a partir das suas limitações, dificuldades e habilidades, a reconhecer que mais importante que o conteúdo é respeitar as condições de aprendizagem.

Incluir e aceitar é superar os preconceitos, especialmente dos professores, que ainda têm dificuldade para reconhecer a necessidade de trabalhar competências individualizadas. Mas também das famílias, que se atêm a mitos como o atraso na aprendizagem, e até dos próprios alunos, que não aceitam e não desenvolvem empatia pelo colega “diferente”.

Talvez o motor propulsor da inclusão escolar seja realmente a formação adequada do professor, que deve estar consciente e preparado para atuar diante desse desafio. A capacitação e a aprendizagem desses profissionais devem ser constantes para lidar com as necessidades individuais e específicas e desenvolver estratégias de ensino. Tanto os professores quanto os gestores escolares precisam valorizar esse percurso de adaptação, incentivando a formação continuada.

Inclusão é reconhecer a alteridade, procurar entender o outro. A educação desenvolve o corpo, a mente e o espírito, dando subsídios para a autoeducação e oferecendo um sentido para a própria existência. Sem essa troca com o outro não existe desenvolvimento. Sem cultivar a tolerância minamos o convívio social. Precisamos aprender a aprender, a ser, a fazer e a conviver, desenvolvendo o potencial de gestão de conflitos e aceitação.

Reconhecer a alteridade é assumir a responsabilidade sobre nós e os outros, principalmente em um espaço complexo como é o ambiente escolar, um local de encontro de várias identidades, gostos, necessidades, culturas, em que formas diferentes de ser, pensar, sentir, valorizar e viver se entrelaçam. O verdadeiro educador é aquele que tenta promover esse encontro ajudando esses indivíduos a conviver com as diversidades, um mediador de capacidades, competências e limitações que tende a criar um modelo educacional solidário.

Luciana Cabral

Written by

jornalista e professora da Universidade Positivo

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