Perdi uma reunião de trabalho. Sem babá e em adaptação na escola maternal, pai e avós distantes, a menina de três anos se põe a chorar na porta do prédio. Não deu pra entrar. “Mas a senhora tem filho? Precisamos de alguém que tenha total disponibilidade…” No último vôo Nova York-Roma da United Airlines, inconscientemente, embarquei no filme francês “Papa ou maman”, de Martin Bourboulon. Um casal bem sucedido profissionalmente com três filhos (!!) decide se divorciar porque o casamento não vai bem. Uma comédia. No momento da separação, ambos ganham uma promoção para o exterior e…agora? Nenhum dos dois quer a guarda das crianças. Ao chegar na Itália, o primeiro livro que caiu na minha mão foi “Ancora io” (Left neglected), de Lisa Genova, na tradução de Laura Prandino. Uma mãe de três filhos (!!!) muito bem sucedida profissionalmente (mais que o marido!) sofre um acidente de carro e fica incapacitada.

Pode ser dose de azar, procura inconsciente pela autocomiseração, sinal das estrelas, pode ser qualquer o motivo, uma reflexão sobre essa bifurcação na vida de quem tem filho e quer trabalhar. Pra quem não tem filho, faltam as risadas dentro de casa, o sorriso na porta da escola, a brincadeira no parque e sobra o silêncio para leitura e filmes, disponibilidade para o trabalho, liberdade para conhecer alguém. Poder cozinhar com criatividade. Nada de espaguete com pesto ou arroz, feijão e bife todo dia, dependendo da trupe. Sem filhos podemos fazer pesto de rúcula com pinoli, filé com molho de pimenta verde, tomando um gole de vinho e relaxando.

Vale para as mulheres, mas também para os homens, especialmente aqueles que se dedicam à criação dos filhos. Existem ganhos e perdas. Ter perdido uma oportunidade de trabalho em um momento de fragilidade, ganhar uma promoção em um momento em que teria que se dedicar mais à família, sofrer um acidente quando é um bom momento no trabalho (apesar dos filhos…). Do outro lado, a solidão tremenda nos sábados à noite e desejar simplesmente que tivesse alguém vendo televisão ou acessando o facebook na sala ao lado, ter tanto tempo livre para a academia, para ficar conversando no bar ou pra escolher que filmes vai assistir nessa temporada no cinema. Estar no outro não é possível, mas pensamos assim em busca de consolo ou resignação.

Assim como na cozinha não existe uma única versão de um prato, a vida tem suas várias versões. Basta mudar de região, de família, que encontramos aromas diversos e métodos diferentes de cozinhar, mesmo que se cozinhe a mesma coisa. A melhor receita, independente do que estamos preparando, é aquela em que nos reconhecemos, o sabor da existência verdadeira, o “sapore della mamma”, reflexo de um tempo em que as mães detinham o poder de fazer a família ser feliz. Mas em um mundo cada vez mais tecnológico e em que os sentimentos valem cada vez menos, é mais difícil reconhecer esse sabor. Pratos que às vezes eram feitos com quase nada de especial, mas com humildade e paciência, Ali se reconheciam sabores perdidos, aquele cheiro de coisas boas que alguns de nós, se não fomos ainda completamente absorvidos pelo materialismo, sentimos saudade.

No filme francês, o casal declara uma guerra para que as crianças escolham ficar com o outro, deixando assim o campo livre para crescer na carreira. Uma mãe bêbada na festa da escola? O pai ginecologista que leva as crianças para assistir um parto natural? Os extremos para se livrar do peso de cuidar de filhos e ser livre para ser reconhecido profissionalmente e ter sucesso. É um filme pra rir, mas mostra que essa competição pela liberdade é a marca dos relacionamentos atuais, com ou sem filhos. Companheirismo e fidelidade, que antes eram os principais motivos de estar com alguém, deram lugar para individualismo e falta de compromisso. Com a Internet, depois com o Orkut, e o Facebook, agora o Wattsapp e para os mais antenados, o Telegram, que permite a criptografia e a eliminação imediata das mensagens trocadas, a base dos relacionamentos pode ser minada dia após dia. Família vira um porta-retrato a ser exibido para os outros. Ao interno das famílias a infidelidade emocional vai se espalhando porque o prazer em estar virtualmente com alguém passou a ser maior do que aquele de abraçar ou conversar com a pessoa que está ao seu lado.

Um trauma cerebral tirou a consciência do lado esquerdo do corpo da personagem principal do livro da neurologista Lisa Genova. A protagonista da história é uma dessas mulheres que estudaram muito, foram sempre boas alunas e conseguiram o melhor emprego possível assim que se formaram. Ela casou com um colega de faculdade tão capaz quanto ela, mas que não teve tanta sorte assim ao conseguir emprego, e foi mãe por três vezes, driblando horários noturnos, viagens, reuniões intermináveis, tendo ao lado uma babá competente e um marido muito presente. Após o acidente, não será mais capaz de dirigir, ir ao banheiro sozinha, será outra pessoa. A tese do livro é que a protagonista ainda é ela mesma, apesar de não exibir aquele exterior de competência — não é mais capaz de ler nem mesmo um jornal — e a beleza do rosto sempre maquiado e pernas depiladas se perde no seu andar arrastado em um andador. Quando a nossa vida acaba? Quando morremos ou quando não somos mais capazes de vivê-la como gostaríamos que ela fosse? Deixar de ser amada, perder um emprego, se separar, ter uma deficiência, tudo isso são como os ingredientes de um prato que preparamos para um almoço de domingo. Será que alguém vai aparecer para dividir com você aquilo que passou horas, dias ou anos preparando?

Vi no Facebook um texto de Goethe em um quadro de escola que nos lembrava que nós somos o elemento decisivo da nossa vida — e até da vida do outro. Rejeitar quem nos faz mal é uma reação de sobrevivência para não ter uma vida miserável. A indiferença ou o desrespeito podem ser usados como ferramenta de tortura. Cabe a nós escolhermos ser aquele que faz mal ou ser um instrumento de inspiração, disse Goethe, podemos humilhar ou tolerar, machucar ou curar. Tratar os outros como eles são, ou seja, com suas fraquezas, não faz ninguém melhor. Se olharmos para o outro com a intenção de vermos nele uma pessoa melhor, estaremos colaborando para o seu desenvolvimento. O problema são os momentos de total incapacidade de reação, quando como dependemos financeiramente ou emocionalmente de uma pessoa, seja ela uma mãe, um amigo, um marido ou uma irmã. A dependência aniquila.

Era um dia belíssimo de sol, estávamos em uma estrada ladeada de ciprestes recortados em um céu de azul desbotado de fim de verão. Ouvíamos a trilha sonora do filme Cinema Paradiso, que assistimos juntos nessas férias, indo em direção à Certosa de Calvi, um magnífico monastério aos pés da montanha, onde monges passavam a vida enclausurados rezando pela salvação das almas angustiadas que se espalham mundo afora. Eu estava enlevada pela música, pensando na arte, em como ela pode nos faz bem, seja uma música, um filme, a arquitetura. A lembrança daquela amizade tão preciosa entre o menino apaixonado pelo cinema e o velho operador do projetor me enternecia. De repente, as crianças soltam essa: “Tira essa música besta, ela não para nunca, fica se repetindo”. Assim como eles, por serem crianças, são dependentes de mim, igualmente sou dependente deles, porque responsável. Não foi possível ir na reunião de trabalho, não é possível ouvir a música que me emocionava em paz. Aniquilada.

Nada disso nos faz deixar de amar ou ter vontade de seguir adiante. Mas nos coloca diante de nós mesmos. Ao não ser capaz mais de trabalhar tanto, a personagem do livro descobre que ela existe, apesar da sua incapacidade, que ela é mais do que pode fazer, ganhar ou produzir. Eu me lembro que as pessoas idosas mais interessantes que encontrei ao longo da vida eram aquelas que olhavam sempre para o lado, para o outro, as que escutam e observam. Eu admirava as mulheres que sentavam nas calçadas do subúrbio carioca para conversar enquanto as crianças brincavam de pique-esconde ou queimada na rua. Elas se completavam porque se olhavam e ofereciam o que de melhor um indivíduo pode ter. Perdi um trabalho, como tenho perdido tantas certezas nos últimos tempos nesse emaranhado que é a autodeterminação a ser mais ou menos humano. Nos últimos meses ganhei abraços de desconhecidos nos parques e esses episódios, assim como o lixeiro que devolve a carteira da minha amiga ou o adolescente que dá lugar a uma velhinha no ônibus, são fatos que tendem a diminuir a dor provocada por quem nos nega uma explicação, uma amizade ou até mesmo um trabalho.

E o que parece definir nosso período pode ser a agressão e a rejeição a tudo que nos incomoda, e falamos de governos, pessoas mais pobres e marginalizadas, imigrantes, ou simplesmente, um amigo ou companheiro que nos parece excessivo, desagradável, deprimido. Aparecem aqui e ali, indivíduos que se rebelam contra essa força destrutiva, e oferecem a vontade de dialogar, de entender e de respeitar, apesar das diferenças. Se as pessoas usarem a tecnologia para aproximar, agregar, e tornar os vínculos reais mais fortes acredito que estaremos fazendo um uso construtivo dessa força. Mas se a tecnologia for simplesmente para destruir o que é real e enaltecer uma persona virtual que desrespeita e aniquila o que e quem está a sua volta, seremos cada vez mais solitários e incapazes de apreciar o tempero da comida do outro. E a produção alheia pode ser não apenas o trabalho ou o sucesso profissional.

Assim volto ao meu tema inicial, o desafio de ter filhos, vida profissional e ainda ser um indivíduo respeitado. Não ter conseguido entrar naquela reunião me fez lembrar da minha amiga professora, dirigindo aos prantos porque não conseguira preparar a aula daquela manhã depois de ter passado a madrugada acordada tentando fazer seu bebê dormir. E ao passar dos dias, diante das mulheres descabeladas deixando seus filhos na escola, de pais estressados tentando terminar um trabalho para ter um pouco de tempo com os filhos em casa, pensei que vivemos diante de um enorme livro de receitas maravilhosas, mas que nos faltam os ingredientes e o tempo para preparar algo que realmente dê vontade de sentar à mesa. E chamar os amigos.

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