Mais um caso vitorioso da humildade no esporte

Todos os dias, milhões de crianças moradoras das regiões metropolitanas e subúrbios do Brasil seguem uma rotina pré-definida por suas humildes condições de vida. Em muitos casos precisam conciliar estudos (quando conseguem se matricular em algum colégio), trabalhos domésticos e até mesmo algum ofício remunerado para complementar a renda familiar.
E quando encontram tempo livre, dedicam quase exclusivamente a um esporte específico: é o futebol que preenche as lacunas deixadas pela falta de oportunidades. Mais um exemplo da força de inclusão social, que pode ser observada desde o asfalto até a favela, sendo esta última onde são mais fortes os efeitos da prática do esporte mais popular na terra tupiniquim. E é na bola que muitos veem uma oportunidade, talvez a única da vida, de ascender e encontrar melhores condições para si e para a família.

Foi um cenário assim que cresceu Franklin Gama de Moraes. Nascido no bairro do Quintino Bocaiuva (ou só Quintino), localizado na Zona Norte carioca, tinha o sonho de ser jogador de futebol, característica compartilhada com muitos meninos, principalmente do bairro, onde nasceu Zico, um dos maiores talentos que o mundo da bola teve. A mística do lugar parecia jogar a seu favor. Desde novo, jogou futebol de salão na Fundação Nacional do Bem Estar do Menor (FUNABEM), onde sua mãe o matriculou. Participou de diversos campeonatos de base. Já aos seis anos, se destacou e foi levado para treinar em outros clubes formadores, mas nunca com muito sucesso. Ele acabou entrando para a lista de jovens que acabaram tendo suas carreiras abreviadas e encerradas antes mesmo de chegar a disputar um campeonato de elite. As muitas lesões o impediram de seguir como boleiro. O pai de Franklin foi decisivo para a etapa seguinte. O incentivou a estudar, a solução seria se afastar do futebol.

Se afastar, mas não abandoná-lo. Buscando manter-se próximo àquilo que mais gostava de acompanhar — esportes — , Franklin ingressa no curso de Educação Física da Universidade Gama Filho (UGF), no final da década de 80/início da década de 90. A caminhada foi dura. Era necessário trabalhar para pagar o curso da, ainda na época, conceituadíssima faculdade privada. Franklin arrumou emprego em uma corretora de venda de linhas telefônicas, algo bastante naquele tempo. Subiu na empresa, tendo começado como office boy, chegando até uma das posições mais altas de corretagem, administrando os negócios da companhia, e só estando abaixo da dona da empresa, uma velha senhora, discreta, sem nada muito especial, além do seu patrimônio conquistado com a firma. Ainda não era suficiente, mas a situação ficou um pouco mais leve quando, graças ao seu bom rendimento nos estudos, Franklin consegue uma modesta bolsa de 20%, mas que já era um alívio nas contas.
E assim ele seguiu, até se formar. Uma das primeiras atitudes que seguiram sua graduação foi pedir demissão da corretora, decisão e motivo prontamente acatados pela senhora mandatária. Franklin queria seguir a carreira escolhida, pautada na faculdade cursada.

E assim, o destino aprontou pela primeira vez, lhe colocando em uma situação de coincidência que remete à sua infância. Começou como profissional de Educação Física fazendo trabalhos de natação. Franklin, quando mais jovem tinha uma condição a cumprir com sua mãe para que pudesse jogar futebol, que era de também praticar natação, que ele odiava, mas fazia, para poder brincar de bola. Também foi se aventurando como personal trainer, além de treinador de futebol para crianças no condomínio Aldeia do Mar, para onde foi trabalhar em agosto de 1994, e está até hoje. Paralelamente, também acabou voltando ao futebol, com o qual tenta sempre estar conectado, agora do lado de fora das quatro linhas. Foi convidado para treinar o time de base da Universidade Castelo Branco, nos anos 2000. Ele e seus companheiros de comissão técnica conseguiram grandes resultados, dentro que era esperado. Foram quinto lugar no Campeonato Carioca de juniores, chegaram a eliminar uma das grandes forças do Rio, o Vasco, além de terem cumprido seu principal papel, a principal proposta daquela equipe, o qual era revelar talentos para o futebol carioca. Entre os exemplos de sucesso que trazem orgulho, é possível citar Cortez, com passagens por Nova Iguaçu e Botafogo, e mais recentemente, Luiz Otávio, que marcou o gol da vitória da Chapecoense sobre o Atlético Nacional-COL, na primeira partida da final da Recopa Sulamericana-2017 (04/04).

Após isso, Franklin recebeu convites para treinar equipes de menor expressão de categorias de acesso do futebol carioca, mas sempre longe do prestígio que do mundo do futebol mostrado pela grande mídia, do espetáculo, das grandes arenas. Um cenário onde a paixão move jogadores e treinadores, porque se dependesse somente da estrutura disponível, o futebol estava fadado à morte.
Por isso, resolveu se distanciar, pelo menos por enquanto, do mundo dos boleiros, e hoje se dedica aos seus alunos, principalmente no condomínio citado, localizado próximo ao Posto 5 da praia da Barra. Já pós-graduado, também pela UGF, ele se especializou ainda mais e também se dedica ao trabalho funcional com idosos. Ele afirma que um dos motivos, é ter a consciência de que um dia ficará velho, e por isso terá conhecimento e capacidade para se cuidar, juntamente com aqueles que treina. Nunca deixando esse esporte apaixonante de lado, ele mantém suas aulas de futebol para crianças, para manter socialização e inclusão únicos que só essa atividade proporciona. Sempre que possível, leva meninos e meninas para campeonatos infantis, para que se descubram, saibam o que querem do esporte em suas vidas.

Falando na vida, como ela é uma caixinha de surpresas, resolveu pregar outra peça no personagem dessa história. Hoje com 48 anos, Franklin, que afirma ter sido a vida toda solteiro “bem solto mesmo”, teve que mudar seu planejamento. Ele diz que já não fazia planos para isso, mas há pouco mais de dois anos se casou, e hoje já tem seu herdeiro no futebol: o Miguel, de 1 ano e 10 meses.

Isso tudo e um pouco mais Franklin contou em uma entrevista concedida na academia onde trabalha no Aldeia do Mar. Ele também analisou diversos aspectos, principalmente do futebol de base/acesso onde atuou direitamente por seis anos.

*Recomendação: volume máximo para ouvir os depoimentos*
Os vídeos estão abaixo:

Extra — O entrevistado também contou alguns casos engraçados em que se meteu quando mais jovem. Senta, que lá vem história. Haja! Divirta-se:

https://soundcloud.com/luca-di-fialho/historias-bem-humoradas-de-franklin