Os Cavaleiros de Dragão

— Desce daí, menino!

— Eu acho que vi um. Espera!

— Malipo, eu não vou mandar outra vez.

O jovem desceu da árvore, desanimado.

— Vamos embora, sua mãe nos espera. — disse o pai.

Malipo e seu pai caminharam pelos campos da fazenda dos Helgia, passando por plantações vizinhas da plantação de varuska onde trabalhavam. O pequeno Malipo acabava ajudando seu pai algumas vezes, pois precisa-se que alguém molhe a varuska enquanto outro a puxa da terra, do contrário nem cinco homens fortes conseguiriam colhê-la.

— Até amanhã, meu velho! — o pai de Malipo gritou para um homem de barba que varria o chão na frente de uma casa.

— Até amanhã, Marn — respondeu. — Cuide desse seu pequeno curioso.

Malipo gostava de ir ajudar o pai na fazenda, porque de lá tinha uma visão melhor das montanhas. As montanhas não eram o alvo de seu interesse, mas sim o que havia lá. As vezes se perdia em pensamento olhando para o norte e se esquecia de que seu pai fazia força para tirar as varuskas do chão.

— Eu tenho certeza de que eu vi dessa vez, pai — Malipo carregava um pequeno saco nas costas.

— Tem muitos ninhos de dragão lá pro norte — disse Marn, ajeitando a velha enxada no ombro. — Eu não duvido.

— Nós poderíamos ir mais perto das montanhas…

— Malipo, deixe dessa bobagem. Dragões são perigosos — respondeu o pai absoluto.

— Não são! — disse acelerando o passo para olhar o pai de frente enquanto andavam. — O Bugaru das Cronicas do Cavaleiro de Dragão se tornou bonzinho quando Thiaron o abraçou — Malipo ara aficcionado pelas Cronicas do Cavaleiro de Dragão, um livro infantil escrito por um damariano.

Marn suspirou, já tinham tido essa conversa centenas de vezes.

— Bugaru e Thiaron não existem.

— Talvez não, mas ninguém nunca tentou abraçar um dragão.

— Porque eles são perigosos — Marn deu ênfase na última palavra.

A conversa sobre os dragões não se extendeu muito, e pouco tempo depois estavam falando sobre outra coisa. Chegaram em casa ao aonoitecer e Malipo sonhou com dragões.

No dia seguinte seu pai iria até a fazenda dos Helgia sozinho. Não havia varuskas para colher então o garoto tinha o dia inteiro livre. Sua mãe sempre o repreendera quanto a ir longe de casa, mas isso não o impedia de o fazer.

Estava em um galho alto de uma árvore alta, mastigando folhas azedas de vín. Ele costumava fazer isso depois do almoço, do alto da árvore podia ver as grandes thauls e imaginá-las em forma de dragão.

Malipo começou a se imaginar voando nas costas de um dragão, cortando o céu enquanto via todos os reinos de Mawei como formigueiros. Ele voaria pelas Planícies Geladas e não sentiria frio, olhando do alto as ruínas abandonadas de Rorhania. Daria a volta em Zincar e no fim do dia voltaria para Ugela em Citornel, para contar ao seu pai que estava certo. Existiam cavaleiros de dragão.

Mal pode completar a aventura em sua mente, ouviu um rugido furioso no céu. Afastou as folhas do campo de visão até encontrar dois vultos rodopiando pelo céu.

Um paladdor e um kashinia estavam brigando ferozmente. Nenhum dos dragões cuspiu fogo, pois aquilo não funcionava em outro dragão, portanto a luta se resumia em investidas e poderosas mordidas. O kashinia era pequeno e rápido, então conseguia se esquivar da maioria das investidas do paladdor, esticando o pescoço longo para mordê-lo no flanco.

Malipo estava fascinado. O chão chegava a tremer quando um dos dragões rugia de fúria ou dor.

Apesar de sua velocidade, o kashinia foi atingido e caiu num giro, tentando bater as asas sem sucesso. O garoto ouviu um estrondo quando o dragão caiu não muito longe de onde estava. O paladdor voou foi embora, se escondendo atrás de uma thaul.

Sem pensar duas vezes, Malipo pulou da árvore e começou a correr na direção do kashinia. Tropeçou numa raíz e caiu rolando, mal se colocou de pé e continuou correndo bosque a dentro. Ele não sabia se o dragão estava vivo, queria chegar rápido.

Uma pequena cachoeira deixava água cristalina cair em um riacho ao lado de um morro. A água estava marrom, pois parte do morro tinha caído no riacho com o impacto. Malipo se aproximou de vagar e viu o kashinia com metade do corpo dentro d’água. A cabeça do dragão estava totalmente submersa e bolhas saíam da água.

Malipo se apressou e pulou no riacho. Os kashinias eram um pouco menores que um cavalo, então o garoto pode segurar-lhe o pescoço e puxar para fora da água com um grande esforço. O dragão aos poucos começou a movimentar a cabeça, e involuntariamente Malipo se afastou.

Rapidamente o dragão se apoiou nas patas da frente e começou a gritar. Era um berro estridente e desesperado. O kashinia tentava olhar de um lado para o outro, mas estava ferido e sentia muita dor no pescoço. Tentou bater as asas mas só conseguiu jogar água para todos os lados.

Malipo não estava com medo, mas não queria que o dragão fugisse. Era a primeira vez que via um dragão de perto e um turbilhão de sentimentos aflorou em sua mente. Ele queria tocá-lo, queria abraçá-lo, queria que esse fosse o seu dragão.

— Calma, garoto… — disse com o tom mais calmo que conseguiu. — Eu não vou te machucar.

O dragão continuou com seus berros desesperados. Cada vez que abria a boca, milhares de gotículas quentes saíam de sua garganta.

— Eu vou cuidar de você, certo? — Malipo pensou que se conseguisse mostrar que se importava, se conseguisse abraçá-lo e mostrar que era seu amigo, tudo ficaria bem. Ele seria finalmente um cavaleiro de dragão.

O dragão olhou com os olhos esbugalhados para Malipo. Ele continuou rugindo até que uma labareda de fogo saiu de sua garganta.

Não existiam cavaleiros de dragão.

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