a primeira vez que morreu

— Qualé, Gustavo, todo mundo lembra da primeira vez que morreu.

Emmanuel Polanco

A conversa fluía entre cervejas e petiscos. Falavam alto e as explosões de risadas ou de gente animada demais sobre um assunto intercalavam com aqueles silêncios que mais parecem que estão todos carregando as baterias para mais explosões. As vozes quase abafavam as músicas esquisitas que só Daniela gostava e que Tiago fingia se interessar, já que seu interesse era em outra coisa. A fumaça do cigarro de Gustavo cortava o meio da sala como um muro cinza dividindo os amigos de dois lados. Quando Ana fez a pergunta, tragou mais um pouco para evitar de responder e logo colocou bebida na boca, depois petiscos, tudo para mantê-la cheia o suficiente para que o assunto mudasse antes dele falar qualquer coisa, como sempre acontecia.

— A minha primeira vez foi foda — Tiago começou — Acidente de carro, sabe? Uns caras estavam apostando racha ali na avenida.

— E bateram no seu carro?

— Não, eu nem dirigia. Tinha uns quinze anos. O cara perdeu o controle, bateu e deu umas sete voltas antes de cair em cima da minha cabeça enquanto eu tomava um sorvete. Meu pai fala que foi fácil demais achar “material” para que eu voltasse, porque eu fiquei todo espalhado. Até hoje eu tomo sorvete olhando pros lados. E pra cima.

Daniela riu e Tiago comemorou internamente esse feito. A sala se encheu de vozes e experiências de morte, cada um falando da primeira, da segunda ou da terceira vez que, por alguns instantes, deixou de estar vivo, para depois voltar como se nada tivesse acontecido. Ana caiu de um prédio. Daniela se afogou. Juliana, que estava calada até agora, apenas disse pausadamente as palavras “Zoológico. Duas garrafas de vodca. Jaula dos leões” contando cada item nos dedos. Esperou que todos ligassem os pontos e chegassem a uma conclusão.

Gustavo fumou até a brasa da ponta do cigarro queimar um pouco os seus dedos. A dor passou rápido, mas usou isso como desculpa para ir ao banheiro. Pediu licença para as pernas de Tiago e bebeu o resto da cerveja antes de deixar a garrafa vazia no primeiro aparador que encontrou. Saiu enquanto Tiago falava da vez que morreu ao escorregar em uma casca de banana e bater com a cabeça, igual um desenho animado. A última coisa que ouviu foi mais uma das teorias de Juliana, conspiracionista incorrigível, sobre o mundo.

— Essa coisa de voltar a vida tem nos deixado frágeis. Cada volta enfraquece nossos corpos mais e mais. Tudo para que a gente morra mais facilmente e eles ganhem mais dinheiro.

— Então porque você continua voltando?

— Gosto de viver.

— Não parece.

A porta fechada causou a ilusão de que todos estavam muito distantes e já não conseguia distinguir o que saía das bocas de seus amigos. Lavou a mancha do cigarro dos dedos e esfregou suas mãos mais do que o necessário. Colocou água em suas mãos em forma de concha e jogou em seu rosto. Enquanto as gotas escorriam, lembrou-se da primeira vez que morreu.

Lembrou-se, particularmente, dos remédios descendo sua garganta.

Como tomou muitas, as pílulas passaram com dificuldade pelo esôfago. Bebeu tudo com cerveja e continuou bebendo até os remédios fazerem o efeito desejado (por ele, não pelas farmacêuticas). Acendeu um último cigarro para punir mais um pouco o seu corpo, corroer aquela prisão de segurança máxima, sem banho de sol, sem direito a visitas ou ligações.

Seu irmão fala que eles o encontraram deitado na cama com o cigarro ainda nos dedos, apagado, porém dava para perceber que um pouco do lençol tinha se queimado. Falaram que havia a possibilidade de tudo se incendiar, garantindo ainda mais a primeira morte de Gustavo e dificultando sua volta. Teria sido melhor, já que Gustavo não queria voltar.

Deixou uma carta falando do seu desejo. Era um pouco longa, cada parte se referindo a uma pessoa da família e alguns amigos. A sua vontade de não ser trazido de volta estava presente no texto de cada pessoa referenciada, mas no da sua mãe era o único que falava mais detalhes e terminava com:

Eu sei que você vai querer me trazer de volta. Eu sei que você não quer perder nenhum filho. Mas, por favor, não faça isso. Não me faça sair da única coisa que me trouxe paz. Deixe-me descansar. Deixe-me finalmente descansar.

Sua mãe ignorou seu último desejo sem nem pensar duas vezes.

Gustavo ficou 5 anos sem olhar nos olhos da mãe. Recebia mensagens dela todos os dias até ignorá-la. Seus irmãos e seu pai, então, começaram a pedir para que parasse. Ele não conseguiu. Até tentou, uma vez, mas antes de entrar na casa dos pais, colocou todo o seu almoço pra fora, em cima do tapete retrô e fofo que eles precisaram descartar. Ele voltou pra casa naquele dia ainda com o gosto na boca. O gosto permaneceu mesmo depois de escovar os dentes, fazer toda higiene bucal. Mesmo depois de dias. Não era mais o gosto do seu almoço semi-digerido, seu paladar só respondia a sua incapacidade de viver e como agir como um ser humano normal depois de ter voltado.

Depois de tantos, tantos anos, se olhar no espelho ainda era um desafio. Sua imagem parece sumir aos poucos, como se olhasse para um estranho. Desde que voltou sentia isso, que estava no corpo de outra pessoa, que ele mesmo, seu eu verdadeiro, conseguira atingir seu objetivo e já não mais estava vivo e sua forma atual era apenas um simulacro, uma imitação de ser humano que parecia o suficiente com a original para confundir todas as pessoas próximas.

Abriu a porta e os sons das risadas e da conversa animada invadiu seus ouvidos. O barulho aumentava enquanto ele encaminhava em direção a cozinha e reduzia ligeiramente depois que entrou para pegar uma cerveja. Tornou a aumentar até que conseguiu distinguir a voz de Tiago se sobressaindo.

— … com toda certeza não faria. Eu não sou igual certas pessoas que acordam sem nem lembrar onde colocou as calças. Ou se tinha usado calças. Falando no diabo, valeu Gustavo. Pega outra cerveja lá pra você.

Gustavo mandou Tiago se foder e empurrou Juliana para se sentar. Espreguiçou exageradamente para incomodar de propósito todos por perto, que reclamaram daquele jeito complacente que os amigos reclamam um do outro. Falavam de coisas que fariam bêbados que jamais fariam sóbrios. O assunto tinha mudado, graças aos céus, e não parecia que retornaria tão cedo.

Bebeu um gole e deu um trago em seu cigarro, com a mesma vontade de punição daquela vez, mas sem o desejo da morte. Os remédios ajudam e as consultas tem o feito organizar melhor suas ideias. Há muito não pensa em morrer, mas escolheu não ser trazido de volta quando isso, eventualmente, acontecesse. Fez todos prometerem que não o trariam de volta, prometendo em troca que não adiantaria nada, não forçaria nada. Deixaria simplesmente acontecer, que o destino faça seu trabalho sem que ninguém tente entrar no seu lugar. Afinal, se seu eu de verdade já estava morto e esse de agora era só uma imitação porca, não tinha porque apressar. Decidiu que ainda quer que isso aconteça, mas que seja naturalmente, mesmo que esse naturalmente seja pelo cigarro, por acidente de carro dos outros ou por uma bebedeira dentro de um zoológico perto da jaula dos leões.

Mas não escorregando em uma casca de banana. Assim não.


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