Preso no trânsito e pensando na morte

Eu penso muito na morte quando o ônibus fica preso no trânsito.

Minha cabeça não para de pensar que meu tempo está sendo desperdiçado. Cada segundo que passo agarrado no tráfego é um segundo mais perto do fim da minha vida, numa contagem regressiva macabra e inevitável.

Nesses momentos eu posso sentir a morte se aproximando.

Seus dedos esqueléticos percorrem minhas costas, causando um arrepio tão aterrorizante quanto, de certa forma, erótico. Meu instinto mais básico de sobrevivência prepara meu corpo pra fugir, mesmo meu cérebro sabendo que tentar fugir da morte é tão inútil quanto enfrenta-la ou tentar entrar em um acordo com ela. Ela está tão próxima que posso sentir o seu hálito gelado, produzido sabe se lá onde dentro daquelas vestes negras e do peito literalmente ossudo. O frio da sua reputação não incomoda, é aconchegante. Quase me sinto confortável.

Essa dança íntima entre eu e a Morte (com m maiúsculo mesmo, já que não falo de uma morte, mas sim da personificação do fim de todo ser vivo) é interrompida por ela mesma. Sua mandíbula descarnada range como uma porta antiga. Sua boca sem lábios se abre como se preparasse para dizer algo. A Morte, finalmente, falaria e, por alguns instantes, o mundo inteiro paralisou para ouvir estas palavras:

— Ô MOTÔ ANDA LOGO CACETE TO CHEIA DE COISA PA FAZÊ SOU OCUPADA PA CARALHO VAMBORA PORRA.

O resto da viagem foi bem silenciosa.

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