sobre aquela vez que o universo piscou

Aquela foi a primeira vez que viu o universo piscar.

E piscar é a palavra mais adequada. Estava sentada no ônibus, no banco da janela, como de costume, sua cabeça batendo suave e repetidamente no vidro devido ao balanço quase natural do veículo. Seus olhos estavam fechados, mas não dormia. Prestava atenção em todo o ambiente do ônibus, ouvindo as conversas do trocador com o motorista, da senhora com o jovenzinho que deixou de lado sua música barulhenta para ouvi-la, a mãe gritando para a filha no telefone por não ter pendurado a roupa no varal, já que ela tinha pedido duas vezes, já tinha até tirado da máquina, era só pendurar, Juliana, custa nada. Abriu os olhos rapidamente para saber se já aproximava de seu destino. Piscou uma vez, meio que para limpar a visão e acostumá-la à luz, e o universo piscou de volta.

Pensou ainda estar sonhando, até lembrar que não dormia. Ele piscou como quando mudam os canais numa TV analógica e a estática toma rapidamente conta da tela, as imagens do outro canal disformes, distorcidas, irreconhecíveis o suficiente para saber que algo estava diferente, mas semelhante demais para deixar desconfortável. Aquele caos momentâneo, um centésimo de segundo só, até tudo retornar a normalidade. Ela viu,certeza que viu. O universo inteiro piscou e somente ela teria se importado o suficiente para se incomodar com isso.

Desceu do ônibus tentando esquecer. Foi só uma ilusão de ótica. O sol bateu em algum lugar que refletiu no olho dela, o movimento do ônibus se misturou com paisagem, seu olho piscou meio atrasado um do outro e um cisco caiu na íris quando piscou causou esse efeito, estava realmente dormindo e confundiu rapidamente sonho com realidade, ainda estava sob os efeitos do remédio para dor de cabeça que nem tem tantos efeitos assim porém esse provavelmente era um deles, achar que o universo piscou.

Ele piscou.

Ela decidiu voltar.

Caminhou até o ponto onde viu tudo piscar. Demorou para chegar lá e seus pés, desacostumados com qualquer caminhada mais longa que o caminho do trabalho+escadas para o segundo andar, doíam o suficiente para ficar descalça no meio da rua. Eles nunca tinha sido confortáveis mesmo. Olhou ao seu redor até encontrar o ponto exato. Não tinha certeza, jamais saberia explicar para qualquer pessoa como sabia, mas sabia, e isso era importante.

Deu passos curtos com os pés descalços ao ponto onde passou e o universo mudou de estação por alguns instantes. Levantou seu braço lentamente em direção ao ponto. Um lado da sua mente gritava desesperadamente para que não fizesse isso, pra que fazer isso, você está louca, isso não é possível, desnecessário, cê só vai se decepcionar igual se decepcionou com o Daniel lá em 2014 quando ele disse que não ia te trocar por ninguém que conhecesse na Europa. O casamento dele foi lindo, inclusive.

Do outro lado do seu subconsciente, entretanto, apenas uma palavra:

Faça.

Então fez.

Levantou o braço e levou seus dedos para nada em específico. Sem fé nenhuma, se perguntando se estava louca, se finalmente estava louca, até que depois de tocar o nada o nada lhe tocou de volta.

Sentiu a estática passando por debaixo de suas unhas, subindo pelos seus dedos, envolvendo sua mão inteira. O braço todo começou a formigar, até esse formigamento passar para todo o seu corpo. Ouviu vozes, carros, buzinas, o vento, inúmeros animais, ouviu o barulho que o sol faz quando seus raios tocam a terra, ouviu o som de um coração parando, ouviu um óvulo ser fecundado, ouviu os gritos de todas as estrelas que há muito já morreram, mas que ainda ecoam pelo vazio por milhões de anos depois de suas mortes. Pôde ouvir tudo lá.

Por ouvir tudo, soube o que tinha acontecido. O universo piscou porque estava se concertando, corrigindo alguma falha. Isso fez que, por alguns instantes, nossa realidade escorregasse para dentro de outra linha do tempo. E ela pôde perceber, ele a estava chamando. Ele gritava e sussurrava e dizia para que ela desse um passo, para que saísse dali e fosse para outro lugar, a voz não gritava/sussurrava/dizia nada além de Faça, porém ela podia ouvir todas as promessas que essa realidade alternativa a fazia.

FAÇA

faça

Faça.

Então fez. De novo.


Entrou no ônibus, passou pela roleta e sentou no seu lugar de costume. Escorou a cabeça na janela e riu do bate-bate que ela fazia devido ao balanço quase natural do ônibus. Não dormiu, desde a primeira vez não tem conseguido dormir direito. As vozes não deixam.

Acreditava ser o universo de onde tinha vindo. A chamando de volta, se contorcendo e remoendo por essa falha, por ter algo faltando, mesmo que um pequeno detalhe como a vida dela. Ele a chamava o tempo todo, gritando e sussurrando e dizendo para que voltasse. O achava muito barulhento. O primeiro universo que fora era mais calmo, sucinto, educado. O segundo já era agitado, hiperativo. O quinto gostava de atenção, mas não demonstrava isso de jeito nenhum e falava quase com descaso. O décimo sexto era passivo-agressivo e provocava, dizendo que ela podia ir, não tem problema, faz mó bagunça esse negócio de viagem interdimensional, tem que arrumar um tanto de coisa na linha do tempo, ele tem outras várias pessoas mesmo.

Abriu os olhos e piscou duas vezes, meio que para limpar a visão. Na terceira vez que piscou, aquela piscada natural, involuntária, esse universo piscou de volta.

Aquela foi a Nem-Se-Lembrava-Mais-Qual vez que viu o universo piscar. E, como em todas as outras vezes, ela o ouviu chamando, dizendo para que Faça.

Então, mais uma vez, fez.


Tem uma primeira vez pra tudo. Seja observar outros universos deslizando momentaneamente dentro do nosso, seja morrer. Gustavo não gosta muito de falar da sua primeira vez não.