Cartaz defende o uso legal da erva durante Marcha da Maconha na região da Paulista. Foto: Futura Press

Sobre os que não tem nome e os que não tem rosto

Recentemente, em Petrolina, duas jovens de classe média alta foram presas em flagrante por tráfico de drogas e suas fotos circularam somente em blogs policialescos. Entretanto, as fotos dos jovens negros e pobres que se envolvem com o tráfico de drogas alimentam cotidianamente o G1 e os blogs dos radialistas da região. A mídia local reforça o racismo institucional com a divulgação dessas imagens e a ausência das primeiras fotos. Banaliza a privação da liberdade destes e os desumanizam nas fotos em que estão algemados com as drogas apreendidas em uma mesa a sua frente e um cartaz com o brasão da delegacia no fundo.

A familiaridade de certas fotos constrói nossa idéia do presente e do passado imediato. As fotos traçam rotas de referência e servem como totens de causas: um sentimento tem mais chance de se cristalizar em torno de uma foto do que de um lema verbal. (SONTAG, 2003)

Fazendo um paralelo entre essas práticas do jornalismo com o livro “Diante da Dor dos Outros” de Susan Sontag percebemos a relevância que o fotojornalismo tem ao narrar os fatos. Lendo as matérias sobre o flagrante das meninas encontramos informações sobre local onde elas moram, idade, profissão portanto uma preocupação em tratá-las como sujeitos. Já os jovens envolvidos com o tráficos são resumidos a meliante, criminoso, bandido e suas imagens expostas o estigmatizam ao crime cometido.

Acredito na influência que o jornalismo tem na sociedade, caso mude a forma como se noticiam a fracassada guerra as drogas mudasse também a insistência do Estado em criminaliza-las. Se a imagem das meninas de classe média pipocasse o noticiário todas as vezes em que fossem enquadradas nossa sociedade enxergaria a hipocrisia que é defender a criminalização. Se a história de todos os jovens mortos e presos nessa guerra fosse noticiada levando em conta o seu passado, sua família e seus sonhos talvez nos sensibilizaríamos de fato sobre o tema.

Uma imagem tem sua força drenada pela maneira como é usada, pelos lugares onde é vista e pela frequência com que é vista. Imagens mostradas na tevê são, por definição, imagens das quais, mais cedo ou mais tarde, as pessoas se cansam. O que parece insensibilidade se origina na instabilidade da atenção que a tevê intencionalmente provoca e nutre por meio da sua superabundância de imagens (SONTAG, 2003).