“Depois você volta, tá!”

O nome do seu pai estava errado na lista que a prefeitura passou. O endereço não se encontrava no GPS, ainda que a cidade não pegava a minha operadora na cidade, apesar de ter um bom porte.

Os descobri porque uma pessoa indicou pelo sobrenome e mais ou menos a localidade batia. Era um dia de chuva e eu estava com preguiça de usar sombrinha. Fui deixada no pé do morro e fui a procura dele. Subi e suspeitei que era por ali. Gritei e a sua mãe apareceu. Tive que subir uma viela e passar por baixo de uma viga. Não sei porque tinha uma viga no meio do caminho, mas tinha.

Cheguei no barracão de dois cômodos e a encontrei. No alto do seus 5 anos e com toda curiosidade do mundo ela não quis falar nada. Estava numa espécie de varanda coberta, onde havia dois gatos, um cachorro, uma maritaca e suas irmãs.

Sua mãe entrou para preparar um lugar para que eu sentasse. Sua vizinha já havia informado que eu estava indo pra lá. Mas fiquei diante daqueles pequeninos olhos me observando. Eu, doida que sou, gosto de puxar assunto para quebrar o gelo. “Olha, esse gato é igual o meu! Estou com saudade dele. Qual é o nome do seu?” E assim foi como uma comporta de palavras se abrindo e ela, a mais nova, não parou mais de conversar comigo. Tive que mostrar a foto do meu gato no celular e “o seu é gordo! O meu é magrinho!”. É, Antônio! Você precisa emagrecer.

Entrei para dentro do cômodo. Lá eram dois, uma cama de casal nos dois para 6 pessoas. Não havia janela. Em época de zika e dengue, muitos mosquitos voavam. E as crianças brincavam. Expliquei mais ou menos porque eu estava lá, o que precisava e sua mãe foi buscar os documentos. Ela, imperativa por si só, queria saber como escrevia meu nome, como era minha cidade, quis pegar no meu cabelo e explicava que a maritaca era o bicho mais nervoso da casa e mordia os pés de todo mundo. “Estou com bota, tem problema não!”. Ela ria e fugia da maritaca. Pulou pra cima da cama e ficou atrás de mim conversando até sobre a novela que passava a noite na TV. Já era uma grande pequena amiga.

Foi pro canto da cama e trouxe um álbum de fotos da escolinha. Mostrava com toda alegria que tinha formado, aquelas eram suas amigas e sua professora. E fez pose pra que eu tirasse uma foto dela do meu celular. Estava na frente dos pais dela e eles falaram que tinha problema não, não tinha como recusar (e eu nem queria mesmo).

Claro, cortei a foto.

Seu pai me olhava com um sentimento um pouco de raiva, o qual eu entendo. Ele e a esposa, um pouco mais novos que eu, eram pescadores e sustentavam a casa com a função. Tinham 3 filhas e a irmã mais nova da sua esposa estava na guarda deles porque seus pais haviam morrido. E agora seu sustento estava morto também, se não fosse a Bolsa Família para ajudar a comer… a comer!!!

A pesca, no rio que passava pouco atrás da casa deles sustentava ela, seus pais e sua pequena tia. Ela serviu pra quebrar o gelo e sua conversa fez com que eu — a inimiga — fosse um pouco melhor aceita. Ela quis escrever meu nome numa folha da escola e começou a desenhar. Me deu aquele papel e explicou “esse é o Antônio, essa sou eu e essa é você”.

Eu tentava cumprir meu trabalho e ela puxava assunto. Numa dessas, errei o que estava escrevendo em uma declaração (não havia referência a empresa, nem nada comprometedor). Ela vendo que havia errado, começou a rir e pediu que desse a folha pra ela. Aquela folha não tinha problema, colocaria como rascunho então eu a dei. E ela começou a desenhar. Desenhou as irmãs em seus traços rústicos e soltou “erra de novo!”. Era pra errar e dar mais um papel pra ela. Ela só queria ter mais papel pra desenhar!

Não, eu não errei de novo. Até que queria, mas a ética profissional, ranzinza, pesa nessas horas. E ela achou um papel no caderno dela, arrancou e começou a dobrar. Fez uma cartinha, perguntou como escrevia meu nome de novo e me deu. Arrancou uma folha de uma revista da Avon e me deu também “esse é pro Antônio, tem até a Minnie e o Mikey”. E eu recebi seu presente com o outro desenho dentro, o que havia eu, ela e o Antônio.

Acabei meu trabalho e chovia muito. Mas tinha mais casas para ir e pedi o celular emprestado para dar um toque no motorista a cobrar. Me despedi e fui descendo. A viela, a rua. De repente escuto alguém gritando “Lucianaaa! Lucianaaa!”, me viro pra trás e aquela cabecinha de lado pendurada na porta de entrada da viela debaixo de chuva gritou:

- Depois você volta, tá!

Desculpa pequena grande criança, eu não voltei. Desculpa pequena grande criança, pelo rio que lhe foi tirado.