Reuniões da turma são a revisitação do colégio

Não sei o que está acontecendo, mas o mundo, no geral, tem resolvido mergulhar na nostalgia. O “antes”, o “aquele tempo bom”, vira e mexe, estão saltando em timelines, fotos de Instagram em que saem marcando todo mundo, como se, de repente, os “novos adultos” sofressem como nunca a Síndrome de Peter Pan.

Desde o início da semana passada, tenho sido perseguida por ex-colegas que, me parece, querem “rever a galera”, em outras palavras, reunir quem cursou a 8ª Série no ano 2000 em nosso colégio. A intenção é boa, para eles. Para mim, tal reunião seria a volta àquela que se configurou como a pior fase da minha vida até agora.

Ano 2000? A única coisa boa que este famigerado ano me trouxe foi um disco incrível da Laura Pausini, que contém uma das minhas músicas favoritas dela. No mais, foram meses de inferno, e só foram assim por causa do colégio e de boa parte dessa galera que hoje quer se reunir. Minhas notas eram excelentes, como sempre. Eu era a garota educada, gentil, disposta a ajudar os outros, como sempre. Só que eu era a gorda da sala, como sempre. A que nunca saía à noite. A que deveria ser sozinha e nunca teria beijado, porque, oras, quem iria encarar a gorda? A pobre coitada que não bebia nas festinhas, que não sabia jogar vôlei, com quem nenhum garoto ficaria. Um zero à esquerda que só era notada quando: A - alguém fazia uma piadinha ou musiquinha sobre as formas dela; B - tirava as melhores notas da sala e despertava inveja em quem não estudava.

Em meio a isso, eu tinha, sim, uma grande amiga, que nunca me julgou ou aborreceu com isso e com ela suportei, bravamente, até o dia 28 de novembro daquele ano, o último dia de aula e a data em que eu deixaria de conviver com meus carrascos. Nunca havia estado tão feliz até então. Estava livre! E estava, mesmo. Não tive que vê-los mais, ganhei novos colegas e o Ensino Médio foi completamente diferente. A faculdade, idem e o Mestrado, melhor ainda.

Ainda sou inteligente, gentil, educada, prestativa. E, embora não seja tão grande como naquela época, não sou magra. E nem quero ser, porque se algo essa “galera” me ensinou é que tudo, realmente, tem volta. Sem entrar em detalhes, a “Luluzinha gorda” apenas precisou sentar-se à porta da casa e observar a vida agindo. E ela cresceu, amadureceu, mas não se esqueceu de nenhuma coisa vivida naquele ano. E nem deveria, mesmo: isso a ajudou a crescer como nunca e se diferenciar ainda mais daqueles que, presos à ilusão da “vida perfeita”, esqueceram de cuidar da alma e do cérebro.

Portanto, não, obrigada. Convite recusado. O capítulo em que esse ano estava foi lido e as páginas, todas viradas. Como “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, só serviu para ser lido uma vez. Porque me “reunir com a galera” que nunca foi minha galera será uma revisitação do colégio quando nada de útil e agradável, além da Literatura e da Gramática, foi aprendido.

Luluzinha virou Luciana. E muitos não merecem a companhia incrível dela.

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