Sobre motivação, universidade, e o papel de cada um no Ensino Superior

Semana passada chegou até mim, a partir do recompartilhamento de uma ex-aluna, um texto de Adauto Braz intitulado “A Universidade matou sua motivação”. Não conheço o Adauto, e meu intuito aqui não é entrar em treta com ele, mas sim refletir acerca das questões — extremamente válidas — que ele levanta.

Faço um aparte de que comecei a lecionar em graduação apenas recentemente, apesar de ter estado em sala de aula — formal ou informalmente — em diferentes níveis: como estudante até o mestrado, e como professor passei por oficinas informais, escolas profissionalizantes, cursos pré vestibulares, ensino médio técnico, e na graduação. Mais do que a “carteirada”, esse contexto já me permitiu ver boa parte das críticas de Adauto por mais de um ponto de vista, e é essa discussão que eu pretendo aqui.

O texto original aponta diversas situações que, para o autor, fazem com que o jovem estudante afirme que “a universidade matou sua motivação”. Entre elas, a desproporção entre “professores bons”, em menor número, e “professores ruins”, o “currículo desconexo do ‘mundo real’”, “aulas desinteressantes”, entre outros.

A primeira parte da argumentação defende que, baseado em livro sobre motivação de Daniel H. Pink, todo mundo depende de 3 fatores para se sentir motivado, que seriam paulatinamente minados pelas universidades públicas (sim, mencionadas especificamente, ou seja, excluindo as particulares desse universo desesperador apontado no texto):

Autonomia

o desejo de dirigirmos nossas próprias vidas

Se você faz parte da grande maioria dos universitários, não tem muito controle sobre como vai aprender os assuntos do seu curso. Por mais que existam alternativas — livro-texto, vídeo-aulas, estudar sozinho, etc — a maior parte do conteúdo é passado em sala de aula pelo professor na forma de palestras. Nesse modelo, o estudante não assume um papel ativo no processo pedagógico, tornando-o bem menos motivador.

Falando de minha própria experiência — recente — com isso, existem dois pontos importantes a serem considerados.

Autonomia não se dá, se toma

Quase toda instituição de ensino pela qual passei até hoje exige do professor, para que as aulas se iniciem, um planejamento minimamente estruturado de como a disciplina será desenvolvida. Na FAE, faculdade onde lecionei ao longo de 2015, esse planejamento é apresentado aos estudantes logo na primeira aula, e fica disponível para consulta permanente pelos sistemas da instituição. No IFPR, onde trabalhei com cursos técnicos, o planejamento era pre requisito para que o semestre se iniciasse, ainda que não necessariamente ficasse disponível ao aluno. Porém, sempre que alguém pedia para conferir, eu apresentava meu plano na hora.

Textos sugeridos para leitura em casa, em diversas disciplinas, era realmente estudados por menos da metade da turma. Atividades de pesquisa — equivalentes ao “estudar sozinho” mencionado por Adauto — eram realizadas de fato “em cima da hora”, com raríssimas exceções. Além disso, até mesmo o planejamento das aulas, quando aberto à discussão, recebia opiniões como “fica muito difícil a gente estudar o assunto se o professor não explica antes”, ou “será que o professor não podia fazer um resumão da matéria, pq os slides só com palavras-chave não permitem que a gente estude direito”.

Professores também são indivíduos

E, portanto, também precisam ser motivados, respeitados em seus anseios, etc. Por diversas vezes, ao longo da minha trajetória, eu busquei incentivar quem estava nas minhas turmas a fazer as coisas por si mesmos.

Lembro em especial de um exercício bastante complexo de Fotografia de Moda, com a turma de médio integrado (estudantes de 16 ou 17 anos, no geral), que devia produzir um editorial completo. Escolher conceito, desenvolver alternativas, encontrar figurino, modelos, locação, props e tudo o mais. Para cada uma dessas etapas, as equipes foram instruídas sobre os requisitos, e tinham total liberdade para trabalhar como bem entendessem (ou seja, de forma autônoma) além de permissão e incentivo para me procurar a qualquer momento para solicitar ajuda e/ou opiniões. Tornando curta a história, conceitualmente os projetos de editorial eram maravilhosos, mas nenhum deles chegou a ser produzido de fato, pois tudo ficou “para a última hora”, inviabilizando reunir todos os elementos necessários.

Montar esse trabalho, organizar a minha verificação do trabalho de cada uma das equipes, acompanhar — da melhor forma possível dentro dos limites de tempo e disponibilidade que a minha carga horária permitia — o desenvolvimento dos projetos, etc, consumiu energia, disposição, entre outros recursos. Depois de quase 2 meses cobrando a ponto de ser considerado inconveniente pela turma, chegar e ver todo esse trabalho ser desperdiçado pela falta de interesse — uma vez que qualquer problema poderia ter sido sanado à medida que aparecesse — dos estudantes foi um balde de água fria terrível, e que refletiu nos exercícios que desenvolvi em outras turmas, posteriormente.

De maneira semelhante, novamente na FAE, diversas atividades pensadas dentro de metodologias ativas de ensino, e que o protagonismo é do estudante e não do professor, esbarraram em “professor, o senhor não pode exigir X sem ter dado uma aula explicando X”, como aconteceu durante uma atividade de discussão que foi proposta a partir de textos teóricos que deveram ser trazidos para a sala pela turma, acompanhado de questões percebidas durante a leitura, como complemento à “palestra” que seria dada acerca do tema. Além da falta de iniciativa dos estudantes, mais um balde de água fria na intenção de aumentar as oportunidades de importância à busca pelo conhecimento por parte do estudante.

Lembro sempre de uma máxima da Paloma que sempre se espanta que, para a maioria dos estudantes de ensino Superior que ela encontra, “o professor é um obstáculo ao diploma, e não um guia sobre os temas que ele já estudou mais a fundo”, gerando um antagonismo a priori que também desmotiva a nós, na frente da sala de aula (ou pela sala inteira, como eu costumo fazer), a buscar alternativas que privilegiem abordagens mais dinâmicas e interessantes para nossos conteúdos.

Maestria

o impulso de tornar-se cada vez melhor em algo que importa

Nas universidades brasileiras, muitos dos cursos são estruturados por tempo gasto em sala de aula — por exigência do MEC. Essa disposição torna as expectativas homogêneas, apesar das pessoas aprenderem em ritmos diferentes, e dificulta a progressão diferenciada entre os alunos. Aqueles que vão mais a fundo numa matéria, por exemplo, são formalmente iguais aos demais.
Um currículo baseado em competências, todavia, impulsionaria a busca por maestria na medida que tornaria os cursos voltados ao alcance de habilidades relevantes. Cada aluno poderia, assim, criar seu currículo baseado nas necessidades da sua carreira de interesse. Tal mudança garantiria ainda mais valor ao diploma de curso na medida que seriam conhecidas exatamente quais as competências de um recém-formado. O foco deixaria de ser em esforços para tornar-se em resultados.

O tempo gasto em sala de aula — a carga horária de uma disciplina — é exigência do MEC, de fato. Em boa parte dos casos, esse tempo é suficiente para uma abordagem generalista e rasa acerca dos muitos temas que cada conteúdo encerra, e com isso torna-se necessário que o indivíduo que se interessa de fato por aquele tema vá a fundo por conta própria (com a ajuda do professor, por que não?). É óbvio que em qualquer curso superior o indivíduo vá estudar mais coisas que o interessem do que ao longo do ensino fundamental e médio, uma vez que ele escolheu aquele curso.

É inviável acreditar que, por isso, ele deva estudar apenas o que lhe interessa. Um caso bastante comum, por exemplo, é acerca de disciplinas de exatas (cálculo, estatística, e similares) em cursos de biológicas e de humanas. Sim, eu — graduado em Design Gráfico — fiz cálculo e estatística na faculdade. Muitos acreditam ser uma aberração, como eu também acreditava na época. Hoje, estudo estatística e matemática (ainda não me aventurei pelo cálculo novamente) por conta, pois sinto falta desses conteúdos que aprendi “apenas para passar” no primeiro (e no segundo, e no terceiro, e no quarto) semestre da faculdade.

O ensino por competências é uma alternativa interessante, claro, ao currículo tradicional, mas é importante lembrar que os conteúdos propriamente ditos continuarão sendo abordados. É institucional. O MEC exige. Além disso, quase toda instituição de ensino que conheço trabalha com matrículas com grade horária montada pelo estudante, de forma que a maneira pela qual ele vai angariar, articular, e construir conhecimento é bastante própria e individualizada. O currículo do curso — que corresponde, idealmente — ao conhecimento mínimo necessário para que a pessoa possa se considerar formada naquela divisão da habilidade e instrução humanas continua o mesmo, mas em sequências e iterações próprias do indivíduo.

Também é arriscado dizer que “Cada aluno poderia, assim, criar seu currículo baseado nas necessidades da sua carreira de interesse. Tal mudança garantiria ainda mais valor ao diploma de curso na medida que seriam conhecidas exatamente quais as competências de um recém-formado.” uma vez que mesmo os currículos baseados em competências (como o da Universidade Positivo) não é tão flexível a ponto de um estudante poder deixar de lado certos conteúdos e ainda assim obter seu grau. novamente: é institucional. O MEC exige. (Sobre as críticas possíveis acerca disso, vou deixar para quem se especializa em currículo, pois a discussão é muito maior do que apenas “precisa ou não precisa saber X para se considerar profissional de Y”).

Um bom exemplo disso eu tenho com ex-colegas de faculdade que, como eu, também não levavam disciplinas teóricas — Teoria da Cor, Semiótica, etc — tão a séria quanto deveríamos. Senti muita falta disso tudo ao longo da minha pesquisa de mestrado (e corri atrás enlouquecidamente, até que de fato me apaixonei pela Semiótica, graças à minha orientadora), bem como colegas de outras profissões faziam pouco de disciplinas de humanas, por exemplo, em seus cursos de engenharia e hoje tem uma dificuldade enorme em ultrapassar raciocínios básicos sobre dinâmicas sociais. (sim, há julgamento de valor aqui, mas como é um texto de opinião, vivam com isso).

Propósito

o anseio de fazer o que fazemos em nome de algo maior do que nós mesmos

A busca individual por propósito tem ficado cada vez mais evidente na nossa sociedade. Normalmente, os primeiros passos dessa eterna busca são dados na faculdade. Mais do que uma profissão, queremos um chamado, uma missão de vida.
E o que é necessário para encontrarmos esse chamado? Experiências.
Na faculdade, as fontes de experiências significativas têm um nome particular: atividades extracurriculares. Estas atividades, tão importantes para a construção social e intelectual dos estudantes, muitas vezes são tidas como efeito colateral.
A própria nomenclatura utilizada para elas exprime o seu estado dentro do que é considerado o currículo formal, embora promovam os momentos de aprendizagem mais significativos da graduação. Enquanto, na teoria, são tidas como extremamente importantes, na prática, falta apoio genuíno. É você que tem que se desdobrar em três para conseguir dar conta de tudo. E é em um desses momentos de correria que você talvez perca a oportunidade de descobrir o seu propósito de vida.

Aqui eu sinto que sim, há a necessidade de atividades extracurriculares e nelas é onde mais se cresce ao longo de um curso. Do IFPR, por exemplo, tenho surpresas constantes e (geralmente) agradabilíssimas ao ver como se desenvolveram as meninas que ficavam conversando comigo e com outros professores pelos corredores, diariamente, sobre a vida, o universo, e tudo mais. Cada uma delas, a seu jeito, se desenvolveu como indivíduo também a partir dessas interações mais próximas.

Vale lembrar, entretanto, que as atividades extracurriculares são parte do tripé fundamental de uma instituição de ensino superior: Ensino (o currículo), Pesquisa (a ciência), e a Extensão (o que vai além dos outros dois) são todos igualmente importantes no cenário universitário, e não é porque a nomenclatura dessas atividades as coloca “além do currículo” que elas são tratadas como secundárias ou menores dentro do contexto do curso de graduação. Quando isso acontece, creio eu que o problema se encontra no primeiro intertítulo: motivação. Alguém precisa organizar, projetar, custear, manter, e reportar essas atividades, então sua ocorrência também conta como esforço e, como tal, deve ser reconhecido.

O que podemos TODOS fazer?

Como afirmei logo no início do texto, eu não discordo totalmente dos apontamentos do Adauto. Só acredito que uma visão sistêmica, mais complexa, e que leve em conta não apenas a questão do estudante dentro do contexto universitário, mas também as condições institucionais — que obrigam determinadas práticas por exigências superiores, como a aplicação de provas, por exemplo — e professorais — que incluem desde o respeito durante o período letivo, até conjunturas econômicas — devem ser consideradas.

Assim como você estudante quer estar motivado para percorrer o longo e árduo caminho até sua formatura, nós professores (ou pelo menos eu, professor) quero — MUITO — fazer com que esse caminho seja menos árduo, mais recompensador, e principalmente, mais completo. Para isso, não basta você correr atrás do seu ponto. Nem eu correr atrás do meu. Precisamos todos, juntos, nos organizar para que a dinâmica de sala de aula (que é ainda inevitável na nossa estrutura de ensino) deixe de ser um embate entre as partes para se tornar de fato colaborativa, construtiva, e integrada à nossa realidade.

O fato é que o “o que” é fácil… o problema reside no “como”, e se você tiver alguma ideia sobre isso, sou todo ouvidos (como eu sou de dar murro em ponta de faca, vai que você me previne alguns cortes, né?)