COM QUE ROUPA?

Lucio Medeiros
Jul 22, 2017 · 5 min read

Agora vou mudar minha conduta

Eu vou pra luta pois eu quero me aprumar

Vou tratar você com a força bruta

Pra poder me reabilitar

Pois esta vida não está sopa

E eu pergunto: com que roupa?

Com que roupa que eu vou

Pro rock que você me convidou?

Com que roupa que eu vou

Pro rock que você me convidou?

Noel Rosa cantava algo mais ou menos assim. Como nunca fui de samba vou me reabilitar no terreno do rock e ficar aprumado com o Roupa Nova.

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O grupo iniciou suas atividades nos anos 1970 com o nome de FANKS, fazendo versão de sucessos estrangeiros, para depois assumir uma roupagem autoral. Seus integrantes vinham de outras experiências musicais, mais rockeiras, cujo destaque talvez caiba ao baterista Sérgio Herval que integrou a banda A Bolha. Sobre esse grupo é possível encontrar informações na internet. Como estou bonzinho, nem precisa googlar.

Sei bem que o Roupa Nova encrencou em 2011 com o fato de serem enquadrados pelos organizadores da 22ª Edição do Prêmio da Canção Brasileira na categoria canção popular pois se consideram MPB.

Só que não estou nem aí. Eles são herdeiros, sim, de uma linguagem rock. E não só isso. São artífices da naturalização da linguagem rock com acento brasileiro. Como fizeram o Roberto & Erasmo, os Novos Baianos, 14 Bis e tantos outros.

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Talvez façam um som excessivamente polido para os ouvidos rockeiros de uma geração posterior ao hardcore e thrash metal, mas quero trazer o testemunho do punk avant la lettre Glauco Mattoso, que já era Pedro, o Podre, antes do Johnny Rotten. Autor do melhor ensaio sobre o rock brasileiro, que saiu encartado em 2 números da revista SomTrês (set. e out. de 1988), Mattoso disse sobre o grupo:

“Enquanto a mídia priorizava o rock carioca, os paulistas, invés de valorizar o punk local, superproduziam grupos frágeis numa pálida tentativa de seguir aquela linha soft & clean — e tome coisas como Metrô, versão piorada do estilo vocal dos Abóboras (nessas horas dá uma saudade da Elis …), ou o Rádio Táxi, fraco concorrente dos corinhos do 14 Bis (Linda Juventude) e do Roupa Nova (Sapato Velho), estes sim, capazes de ‘amolecer’ com qualidade e até de fornecer vinheta instrumental para o jornalismo da TV Manchete, como Videogame (83) do Roupa Nova,”

O prestigioso ABZ do ROCK BRASILIERO (1987), do Eduardo Dolabela, também não deixa dúvidas quanto a vinculação estética do Roupa Nova à linguagem rock:

“ROUPA NOVA — Grupo carioca, surgido na década de 70, com o nome de FANKS, cantando versões de músicas estrangeiras; já como ‘Roupa Nova’, eles partiram para carreira solo, tocando, na maioria das vezes, músicas próprias; e como músicos de estúdio, gravaram com Gal Costa e outros nomes da música brasileira. Seus maiores sucessos são Canção De Verão, Sapato Velho, Anjo e Mina.” (pág. 135)

Rodrigo Faour em sua HISTÓRIA SEXUAL DA MPB (2006), ainda que focando no conteúdo da letra (tema de sua pesquisa), é taxativo ao falar que a canção analisada é um rock:

“Tabu por tabu, talvez nenhum outro tenha sido tão grande em nossa sociedade quanto o do sexo anal, apesar do bumbum ser uma preferência nacional. Hipocrisia à parte, este assunto realmente apareceu pouco nas letras da MPB até os anos 80. Há, no entanto, uma pérola gravada pelo grupo Roupa Nova, em 82, que não fez sucesso nenhum, mas é de matar … Usando a metáfora de pedir para a pessoa mudar o lado do disco para variar, o rock Vira de lado (Ricardo Feghali/ Serginho/ Mariozinho Rocha) não media ambivalências e dizia assim: ‘Vira de lado/ Que esse lado não quero mais/ Hei! girl! Hey! gay!/ (…) Eu só tô querendo variar/ (…) Eu tenho certeza que pedindo você não vai me desapontar/ Quem sabe o outro lado pode vir a ser um grande sucesso …’ O Roupa Nova cantando essas coisas, quem diria, hein!!!” (pág. 331)

No mesmo livro (págs. 414/415) é contada a história que devido à demora em concluir a letra do que viria a ser Close, um rock do Tremendão Erasmo Carlos em homenagem a Roberta Close, famoso travesti dos anos 80, o Roupa Nova não gravou essa canção.

Segundo Erasmo Carlos o Roupa Nova chegou até a gravar “de forma instrumental”, mas a letra demorou a ficar pronta e eles acabaram gravando com outra letra.

Caso fosse bem sucedida a composição sobre travesti, o Roupa Nova teria se juntado a um time que inclui, entre outros, Lou Reed e os Kinks. Estes últimos fizeram sucesso com a canção Lola. Recomendo uma ouvida na boa versão ska com os Bad Manners, interpretada pelo debochado vocalista Buster Bloodvessel.

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Para os que não se convenceram do domínio da linguagem rock pelo Roupa Nova relembro a história, que acredito ter lido em RÁDIO FLUMINENSE FM, da Maria Estrella, da gravação que fizeram acompanhando o David Coverdale, para um comercial dos cigarros Hollywood.

Como não estou com o livro na mão para indicar a página, indico o Blog do Kaka, onde se pode conferir o que foi dito acima. E aqui se pode ouvir a gravação, apesar da qualidade ruim.

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Que fique claro que estou fazendo avaliação cultural e não pratico subjetivismo. Meus vizinhos sabem muito bem que o que chega a eles da (from) minha casa é muito mais indigesto que o palatável e harmonioso som que os caras do Roupa Nova produzem.

Só que eles não são rock por eu quero que sejam e sim por que eles quiseram ser. E é isso que (também) são.

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De minha parte, reputo que o feito mais rock’n’roll do grupo foi pôr o país inteiro para cantar uma cena sexo.

Isso mesmo: sé-qui-ço. Ou tchaca tchaca na butchaca, descabelamento do palhaço, fornicação etc. E com direito a trechos cantados de olhinhos fechados pelas mulheres para expressar toda emoção despertada pela inocente canção.

Que canção é essa?

Anjo. Confiram a letra:

A primeira parte é o clássico 71, empregado há séculos, para convencer a moça a não fazer muita cera e ceder logo. Esse tema é antigo como faz prova o poema To His Coy Mistress escrito no séc. 17 por Andrew Marvell.

Se você vê estrelas demais
Lembre que o sonho não volta atrás
Chega perto e diz anjo

Após ser convencida, eles estão nus (sente o corpo colar) e ela vai se abrindo (solte seu medo) aos poucos (bem devagar) para o amor.

Se você sente o corpo colar
Solte o seu medo bem devagar
Chega perto e diz anjo
Bem mais perto e diz anjo

Visivelmente excitada (uma coisa louca sai do seu olhar), pede para a moça não se assustar (fique em silêncio) pois vai penetrar (deixe o amor entrar). E avisa: nada de gozar logo (pra que tanta pressa de chegar?), pois ele quer curtir o momento (eu sei o jeito e o lugar).

Se uma coisa louca sai do seu olhar
Fique em silêncio
Deixe o amor entrar
Pra que tanta pressa de chegar?
Se eu sei o jeito e o lugar
Se eu sei o jeito e o lugar

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E aí?!? São ou não são rock’n’roll?

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Como iniciei citando Noel Rosa o resgato para encerar ecoando que “a verdade meu amor mora num poço” e “também faleceu por ter pescoço/ o infeliz inventor da guilhotina de Paris.”

Lucio Medeiros

Written by

Retrovanguardista, usa clichês a mancheias. Um punk & brega, cheio de anacronismos.

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