O Preço

“Meio dia. Encontra-se morto em pleno domingo, na Praça dos Leões, um pássaro azul”

Era cor, um azul eterno não-real (como todas as coisas que são eternas). Passava o seu não-tempo colorindo o lado de fora das paredes da realidade. Porém não era o bastante. Ao contrário das outras coisas eternas que co-inexistiam com ele no não-espaço, o azul queria existir. E por tamanha Vontade, tornou-se um pássaro, transcendendo o abstrato.

Agora era um pássaro azul. Mas de um azul bem comum (como todos aqueles que os olhos podem ver). O tempo passa agora que é pássaro. E de tanto passar, um certo dia, convém de lhe ultra-passar. Este dia é um domingo (como todo domingo, as pessoas tomam sorvete e assistem televisão). Mais precisamente, o fato ocorre na Praça dos leões ao meio dia, deste dia. Ao menor momento depois, o pássaro está lá, posto ao chão. Horas passam para os passos que passam pelo pássaro. Mas de nada adianta. O pássaro está morto! E o vento que antes era sua escada para os céus, agora apenas leva o seu podre cheiro para os narizes, que logo se torcem, das moças que pela praça passam dançando.

É, este é o preço que se paga por existir.

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