10 anos que o mundo não é mais tão bão, Sebastião

Sebastião Lopes da Silva 20/01/1928 — 24/05/2007

Tem dias que eu ainda tenho a sensação que você e a vó não se foram, que bastaria uma visita para encontrá-los sentados no sofá da sala e ter mais um pouco mais de tempo. Hoje tudo é uma boa memória das coisas do passado que transformaram-se em saudade.

Lembro do pacote de balas pendurado na fruteira. Sempre balas de erva cidreira ou de morango.

Até hoje eu sou uma pessoa muito mais de comidas doces do que salgadas, acho que aprendi contigo a gostar tanto de açúcar.

Lembro do potinho de goiabada guardado no armário para o café da tarde. Sempre com sequilhos e um pão francês “cortado do jeito errado”.

Até hoje eu só como Laranja Lima por sua causa, e cortada em cubinhos igual a vó deixava pronta para quando a janta terminasse.

Lembro de chegar da escola e te encontrar enfiado no quartinho. Sempre consertando ou inventando alguma coisa.

Lembro do rádio Sharp que a mãe te deu e que te acompanhava por todo canto; lembro o quanto te deixava feliz ver a família toda reunida e falando ao mesmo tempo; lembro da vez que eu e a Ju ganhamos um aquário e fico pensando o trabalho que deve ter sido para carregá-lo em um ônibus com uma bengala, a sua companheira de caminhadas após o derrame.

Lembro de muitas coisas e sinto por outras terem se perdido com o tempo. Eu só tinha 13 anos quando você partiu, não existia muita maturidade e consciência de aproveitar mais os momentos ao seu lado.

Foi durante a Copa de 2006 que a sua batalha pela vida começou. Eu sempre acreditei na sua melhora e que ainda iria te ver fora daquela cama, mas as pessoas começaram a falar que os sentimentos te seguravam aqui e que era hora de pensar que o descanso seria uma libertação de todo o sofrimento que você estava vivendo. Eu ainda tinha fé naquela época e pensei um dia antes de dormir: “pode ir, meu avô, eu não quero ser alguém que te faz não querer partir e que te prende nesse resto de vida tortuoso”…dias depois sua vida se esvaiu.

Entre as muitas lágrimas que eu vi no seu velório, me marcou a quantidade de pessoas que vinham me falar das coisas boas que você havia feito por elas. Sei que ninguém é santo nessa vida e que todos cometem erros, mas a bondade sempre fez parte da sua essência e por isso alguns te chamavam de “Seu Coração”.

Foi por não ter aproveitado melhor o tempo ao seu lado que eu percebi o quanto a presença das pessoas é fugaz, e isso me fez curtir muito mais os momentos com a vó.

Quantas coisas eu penso agora e que nunca terei a chance de conversar sobre elas com você. Queria poder ter dito o quanto eu me orgulhava da pessoa que você era e de ter a sorte por ser sua neta.

Onde você estiver, saiba que eu ainda acredito que o mundo pode ser bão, Sebastião.

O meu avô foi pedreiro, o meu avô era negro, filho de uma guerreira e de um passado injusto. A vida nunca foi fácil e ele sempre manteve esse sorriso e a serenidade para lidar com o mundo.

Londrina 24/05/2017
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