Um fim

Fiz o que pude e ajudei até onde a minha capacidade permitia, mas as coisas nem sempre são reversíveis.

20h30, você teve outra parada. O código 0 já havia sido dado e era só questão de aguardar, aos poucos você foi se esvaindo e eu ali, ao seu lado, tentando amenizar qualquer coisa que pudesse lhe causar medo e dor. Você ainda resistia, mas a vida já foi bastante severa e você não precisava sofrer mais ainda nesse momento, aos poucos o descanso eterno foi sendo introduzido.

Eu fechei os seus olhinhos, muitos não o fariam, mas eu precisava. Tenho a imagem deles cravados num olhar perdido e depois, nos seus últimos segundos, mirando em minha direção. Ali senti o peso que é estar lidando com uma vida, senti o olhar de agradecimento de uma alma pura que se libertava desse mundo e também a sensação de impotência.

Eu tirei o seu acesso, sua patinha já estava ficando gelada e seu sangue já não corria mais.

Eu te coloquei no saco preto e me despedi de você, pequena Mili.

Eu senti um vazio naquele momento. A dona morte estava novamente na minha frente e me mostrando o quanto a vida é efêmera e frágil.

Eu senti a certeza de estar fazendo o que sempre tive que fazer, mesmo com toda a dor daquele momento.

Olhei ao redor no internamento, 4 vidas que permanecem, 4 vidas que continuam insistindo. Por elas eu permaneço e continuo, por elas e pelas que o futuro me reserva eu sempre renovo a minha única certeza na vida.

Hoje eu morri um pouco, por ter vivido, por ainda sentir e por ainda me importar. A cada dia a vida se esvai mais um pouco e só nos deixa a eterna incerteza de não saber quando ela realmente termina.

Londrina 08/08/2016
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