Que graça tem?

O meu grande bode com a comédia não é tanto o debate sobre intenção e propósito levantado pelo The Nerdwriter que coloca os humoristas como detetives da moral, cujo dever é testar os limites sociais, mas sim o fato de que esse importante papel ainda esteja concentrado nas mãos de quem deveria estar em uma metafórica posição de suspeito, não de polícia.

Jerry Seinfeld fazendo trocadilho com Black Lives Matter, especialmente nesse primeiro e conturbadíssimo mês de governo Trump não é testar qualquer moralidade, mas tão somente dar prova de uma completa insensibilidade social e ignorância política. Não precisa ir longe, ninguém está exigindo diploma em sociologia pra fazer stand up, mas, se há menos de duas semanas a marcha das mulheres , que foi apenas um dos maiores movimentos sociais da história do país, foi alvo até de matéria no New York Times sob um viés de raça, um comediante branco achar que é um momento propício para fazer piada com Black Lives Matter é de uma privilegiada miopia aparentemente incurável.

Não acho que dá para todo mundo fazer esse trabalho de detetive, esse é o grande lance. É um pouco o que a Simone de Beauvoir disse sobre ser juiz e parte. Considerar caras brancos e ricos “detetives da moral” é dar a chave da cadeia na mão de quem devia estar atrás das grades. Louis CK brincando com pedofilia, Jerry falando pataquada e reclamando do “politicamente correto” e até o Rick Gervais defendendo o seu “direito de ofender”… Nada disso é ousado ou provocativo, mas apenas a manutenção da interpretação do mundo sob um ponto de vista privilegiado e nós, como platéia, perdoando grandes deslizes porque “pelo menos ele está tentando, né?”.

Chega de ver caras brancos “tentando”, errando e não se desculpando. Está na hora de dar ouvidos e palco para pessoas como Tig Notaro, Leslie Jones, Phoebe Robinson, Naomi Ekperigin, Jessica Williams, Fortune Feimster, Aziz Ansari, Jordan Peele, Keegan-Michael Key, Hannibal Buress e tantos outros comediantes que estão verdadeiramente colocando a moral em cheque e virando valores tradicionais do avesso.