Jogada de Mestre

Luiz Carlos Peres
Aug 24, 2017 · 4 min read

Conto

A mais estranha história conta que o demo zombava de Jesus pelo fracasso de sua passagem terrena, que atiçou foi a causa maligna, pois que agora na terra se praticava o mal com mais afinco, autorizados ficaram os homens pela fé, encarniçando o combate ao que não fosse semelhante, ao que não fosse cristão. Ria e escarnava do santo filho que nada respondia, ciente que o cujo tinha alguma razão, vez que os homens ainda se perdiam em sangrentos conflitos por religião, mesmo os ditos seus discípulos, o que muito desgostava Jesus que sereno resignava-se confiando que depois daquele calvário, de tanto ensinamento e pregação, nada mais lhe cabia, obediente inclusive ao preceito de seu pai de manter a imparcialidade dos céus, condição do livre arbítrio humano.
Jesus até então ignorava as peraltices do torto a recitar salmos e homilias pelos cantos do limbo, travestido em sacerdote com cruzes, tiaras e bíblia na mão, a modo de sarcasmo e zombaria dos desígnios divinos. Tomava-o por brincante em divertimento que na terra regularmente se via, expressão de espírito crítico, que em nada abala a causa da paz, ao contrário, trabalha por ela, no tocante à busca da igualdade entre os homens.
Mas a afronta ultrapassou o tempero quando o demo, que antes pouco subia à terra, postou-se à vontade nas igrejas e templos terrenos levando junto seu demoníaco exército e ordenando atiçar novos colaboradores com prêmios e comissões por malignos resultados em radicalizar os entendimentos da fé, gerar e ampliar preconceitos, semear ódios e conflitos intermináveis, planejando mesmo a tomada de governos pelas hordas de fanáticos em nome dele, Jesus. Tal a artimanha do tinhoso que, como mestre estrategista, ensinava e cobrava eficácia e eficiência na gestão da malignidade.
Jesus, que nada tinha com essa ordem, justificava que pregara uma igreja que abrigasse a todos, sejam os oportunistas, desencaminhados ou mal intencionados, confiando que, mesmo proferida e administrada por gananciosos, sua palavra atraía os homens de boa vontade e enquanto as igrejas se pautassem pela caridade, serviriam de incentivo e oportunidade para práticas da boa vontade onde houvesse. Tal a infinita fé de Jesus na humanidade. Mas eis que o sucesso da nova empreitada do demo destrava o equilíbrio cósmico, desperta Jesus de sua contemplação e o impele a proteger sua amada humanidade. Filho respeitador e obediente, vai ao pai por sua intervenção e sabedoria. O demo, sabendo da atitude do deus-homem, pois do céu nada se esconde aos que de lá despencam, vai atrás, mesmo sem convite, interessado no que viria.
À volta de Jesus acomoda-se a multidão de querubins, serafins e anjos, cedendo-se humildemente os melhores lugares aos grandes espíritos humanitários. Ao centro posta-se Jesus, fartamente iluminado por sóis e estrelas emprestadas para o evento por galáxias vizinhas. Com gestos graciosos de Carlitos, que da platéia sorri agradecendo a citação, toma nos braços um boneco de marionete, maltrapilho, de madeira já roída, de traços brandos e sinceros, põe entre os joelhos e, à moda dos ventríloquos de feira, por um longo tempo o interpela em perfeita dicção e dinâmica dramática, usando pausas e ritmos orientados, segundo o programa, pelo recém chegado mestre Ariano. Detalha a situação, comunga inquietações, expõe preocupações. A platéia ouve agradecida a opção artística consciente que Deus não carece que lhe palavreiem pois de tudo sabe, mas assim fica mais bonito.
O diabo aguarda nos bastidores, num canto escuro entre o urdimento, de olhos e ouvidos fechados que por sua disposição maligna não suporta estar defronte ao pai celeste, o que resolve sintonizando a consciência de um jovem querubim, recurso malicioso usado desde os primeiros tempos para, consoante seu velho preceito, conhecer bem o inimigo.
Após ouvir os argumentos de Jesus, Deus, pela voz do boneco, sentencia:
- Tens razão, menino, chegou a hora de intervir.
- Aleluia, meu pai santinho! O que ordena? — dialoga Jesus em tom de mestre bonequeiro para regozijo da angelical platéia.
- Tu voltarás. Mas já viu, colherás novamente o ódio e a incompreensão dos homens — responde o Deus boneco.
Jesus, em perfeita mímica de triangulação com a platéia, resigna-se sabendo, desde há muito propagado, que voltaria.
- Seja feita sua vontade, meu painho. Não pedirei novamente que me afastes esse cálice e aceito o sofrimento em nome do Senhor.
- Amém, meu filho.
Aplaudem todos. Jesus levanta a mão numa pausa dramática e, feito silencio, retoma:
- Sei, no entanto, que enxergas o quanto desacredito da missão, pois vejo que retornarei e pregarei e serei sacrificado conforme tua vontade mas, ô meu pai, o espírito dos homens ainda é o mesmo, minhas palavras, ditadas pelo teu amor, são as mesmas. Como poderei dar nova luz aos homens?
O diabo exulta enxergando sua vitória, pois que Jesus enfim reconhece que a humanidade é um caso perdido.
Então, manipulado pelo filho ventríloquo, o divino boneco põe a mão sobre a cabeça de Jesus.
- Meu filho, tua sina será pior e tua missão mais difícil.
- E como pode ser pior, meu pai?
- Tu retornarás, viverás entre os humildes, pregarás o amor e a paz como fizeste antes, pois da mensagem de amor basta repetir a cartilha. Mas — pausa longa ampliando a tensão dramática — serás ateu, pregarás a minha não existência!
E finaliza apoteótico:
- E pra que sejas a perfeita testemunha de minha verdade, não terás a consciência de quem és, até que retornes. Viverás por tua inteira vontade e determinação.
- Mas pai, e se eu falhar? E se, não sabendo de tua vontade, cair em tentação e vos der fé?
Deus ri gostosamente, arrastando a platéia consigo e trovejando a manhã de sol claro.
Só o diabo não vê graça, intuindo a incomensurável sabedoria de Deus.

)

Luiz Carlos Peres

Escritor por teimosia e respeito às insistentes histórias que nos perseguem. Também diretor teatral, professor de teatro, contador de histórias. Terráqueo.

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