
Manifesto literário
Em verdade vos digo, tudo que escrevo é mentira.
E o mais certo de tudo é o quanto não sei.
Se arrogo certezas são sólidas dúvidas,
só ergo impérios de gelo e papel.
Não acho em mim o quanto me interesse.
E se acaso me vês credite a teus olhos.
Construo de ti que é matéria mais certa.
Roubei-te na noite enquanto dormias,
fucei teus discursos e cacoetes.
As tuas verdades, os teus alfinetes.
A tua festa tão doce, a mesma em que há vida.
A dor da saída, a mesma que é a vida.
Proponho balões que te levem contigo.
Só peço que venhas e roubes também.
Assaltes a obra, retire o que tem.
Engula de vez o que te convém.
E deixe o restante que junte alguém.
Se restar rima pobre que seja amém.
São ossos do ofício nossos orifícios.
O castelo de um é a masmorra de outros.
Então vigie a estrada que eu preparo a mentira.
Eu só distraio o guarda, é você quem se atira.
Se aparo tua falta, me apuro do choro.
Se retorno com o gosto da tua alegria
é você quem se esfola no asfalto e nem chora.
Quem dera eu tivesse toda energia.
Faria alegria com a sabedoria.
Quem dera a verdade fosse carambola.
