
Natureza profunda
Com água salgada nos olhos, envolto num céu de pretume, tragado no escuro do mar, procuro um sinal. Os braços pesam a cada batida, os pés agitam perdidos. A boca afoga. Aspiro o que posso, viro e reviro. Onde a terra, de que lado estou? O mar me chacoalha, afundo e levanto, resisto e insisto. Que tempo me resta? O vento responde riscando cortante. Livro a cabeça o tempo que posso. Mas escassa o ar que preciso. Encharcado do mar que me encobre o horizonte, erguido na onda como um menino, encaro do alto o infinito nada no escuro. O medo na espinha extingue o ar. E largado das ondas despenco pesado na muralha de água que me engole afinal. Entrego o que resta e deixo-me ir. Solto os braços e esqueço sereno se um dia já fui. Afundo cedendo esperando morrer.
O silêncio no abismo me concede um segundo. Retorno ao tempo que dormia acordado, sonhava desperto e desdenhava do medo que sabia era sonho. Quando olhava de frente e não queria acordar. Eu vivia abraçado à eternidade do abismo que me habitava.
Na calma do fundo reparo na luz. O farol é bem perto, o medo escondia. Desperto furioso e subo ligeiro. Abro toda a narina, respiro o que cabe e mergulho convicto. Debaixo da água é onde nado melhor. Flutuo suave na direção do farol. Me faço golfinho, subo e respiro. E retorno por baixo, possuindo possesso o meu pesadelo.
Fiz dali meu segredo, minha rota segura que por vezes convido a quem aceite que vivo sob a linha do mar.
