Sementes ao vento

Luiz Carlos Peres
Aug 24, 2017 · 10 min read

Conto

A terra puxava-a de volta num abraço de deixar-se ficar, de não ser. Mas um calor a atiçou, então empurrou o chão, antes seu tudo, e ergueu-se. Brotou.

Agora havia mais além dela. Tanto mais que decidiu inventar nomes. Ao calor que a cobria deu o nome de sol. Algo a tocava, suave, envolvente. Deu-lhe o nome de vento.

Sentiu-se vibrar, chamou de sons. Zunidos, sopros, assobios, divertiu-se distinguindo quem os fazia. Chamou de insetos aos ligeiros e barulhentos. De pássaros os solenes e melodiosos.

O sol trazia outras vibrações, refletidas de tudo que tocava. Chamou de cores e por elas percebeu o que lhe cercava. Um imenso manto lhe cobria de azul, o sol se mostrava amarelo. À sua volta muito verde, de brotadas como ela. Se é nítido, está próximo. Se impreciso, misturado, está distante.

Notou que era pequena, bem pequena e outras em volta lhe barravam a deliciosa luz do sol. Queria o sol então decidiu mover-se… não conseguiu. Estava presa, enterrada! Sua parte de baixo toda coberta de terra! Tentou sacudir, tirar a terra. Nada, mexia muito devagar. Tentou e tentou, mas era lenta, muito lenta.

Algo invisível e espesso a freava mais do que a terra. Chamou de tempo. Queria tanto aquele mundo novo, mas a terra e o tempo a prendiam. Quis chorar e berrar, não conseguiu. Então sugou a água por suas pontinhas enterradas. Adormeceu, cansada, encolhida, sorvendo, ninada pelo sol e acariciada pelo vento.

Despertou quando uma grande gota de água lhe caiu. E depois outra. Adorou a chuva e aprendeu a sugar pelas partes que chamou de folhas. Agora possuía três. O sol, mais intenso, a tocava diretamente. Não estava mais cercada, havia espaço a seu redor. Quase não percebeu a grama tão baixa. Haviam encolhido? Entendeu que crescia.

Repassou o mundo, fez uma lista: havia o sol, a luz, sua parte escondida na terra e o tempo, que era um chato! Mas ela conhecia. E havia a grama, que não-era-como-ela! Sou maior e diferente! Grama não tem caule, ficam amontoadas, rastejando. Eu tenho caule! Sou ereta! E mais alta! Não sou grama.

Então prestou atenção à sua volta. Ao seu lado, bem perto, cores novas. Ficou eufórica. Quantas! Roxos, vermelhos, marrons, rosas, e cores já conhecidas. São como eu? Tem o caule verde e fino como eu. Mas as folhas são diferentes, tem cores! Não, não são folhas. Chamou de pétalas as partes delicadas e coloridas de suas vizinhas. Chamou as vizinhas de flores e passou a sonhar com esse novo mundo. Ai, que demais! As flores são como eu! Pensava versinhos.

Cores tão vivas

Vida são flores

Flores tão lindas!

Nasci para brilhar, enfeitar, divertir… Somos flores! Somos lindas! E balançava ao vento, cantarolando de um jeito que só ela ouvia.

Olhava-se buscando nela o que via em suas vizinhas. Não podia ouvi-las, mas imaginava que riam muito. E conversavam e brincavam. E viu que eram tocadas pelas abelhas e outros insetos divertidos. Percebeu que algumas cores trazem um tanto de outras cores. As cores se misturam! E brota outra cor! Então as flores também se misturam. Mas como as flores se misturam?

Notou o beijo delicado de um pássaro azul flanando sobre a pétala de uma flor. Pássaro, flor e o beijo a hipnotizaram. Sonhou ser aquela flor.

Mas nenhuma pétala lhe brotava, nenhuma cor além do mesmo verde. Envergonhava-se de ser tão verde. Porque minhas pétalas demoram a brotar? Sentia-se torta, desajeitada. A sua volta, sons, luzes, cores, alegria. Como encarar as vizinhas sem ter cor?

Acordou com uma mancha vermelha em sua folha. Vermelho, vermelho! Finalmente! Sou flor, sou flor! Num ímpeto mostrou-se, abriu as folhas, aproveitou o vento mais forte que passava e o usou para gritar. Sacudiu-se, apresentou-se. Por dentro cantava, o mais alto que podia. O vento parou. O inseto vermelho sobre sua folha agitou-se, abriu as asas e voou. Voltaram os sons, as luzes, as cores, os movimentos e até a alegria. Alegria das flores. Alegria que ela não entendia. Por que a alegria?

Desistiu de esperar suas cores, desistiu do mundo. Já não podia encolher, seu caule crescera. Agradeceu haver a chuva fria que chorava o que ela sentia. Fez do vento frio a sua voz, ressentida, monótona, vazia.

Marcava o tempo agora pelo pulsar do sol ora perto ora afastado, em seu ritmo de tempo quente e tempo frio. Tudo em volta acompanhava esse ritmo. Para ela a mesma vida, monótona, solitária e concisa, um fluxo constante de ar, luz e água circulando entre ela, a terra e o ar. Uma vida firme, os insetos não a afetavam, sobrevivera. Mas nada importava. Odiava o sol e erguia-se o quanto podia tentando encará-lo. Queria tocá-lo, queimar-se e finalmente morrer. Buscou-o com toda força.

Cresceu.

E mais longe enxergou, não viu as flores. Desistira de sofrer pensando em sua alegria, a alegria que não podia ser dela. Mas onde estão as flores? Buscou-as nos campos próximos, onde as conheceu. Achou-as bem abaixo, roçando a base de seu caule, agora mais largo. Tentou reconhecê-las, não pôde. Eram as filhas das filhas das flores que havia conhecido.

Como pôde pensar que era flor? O tempo consumia suas vidas numa velocidade intensa, numa vida curta! Esse o preço de tanta alegria incontida? Teriam consciência dessa armadilha, teriam escolha?

Voltou-lhe a curiosidade pelo mundo. Mas agora queria respostas, pois trazia perguntas. Pensar a libertava. Bastava ter consciência, ficar atenta ao mundo. Vingava-se do tempo, que não podia frear seu pensamento.

Procurou quem a pudesse entender, quem compartilhasse suas dúvidas. Encontrou, à sua altura, plantas complexas que desenvolviam inúmeros caules, em diversas espessuras e, o que mais a fascinou, em múltiplas direções. Chamou-as de arbustos. Fluíam, alargavam-se, ocupavam espaços, buscavam, cresciam em todas as direções.

Essa a atitude que havia lhe faltado, concluiu. Não lamentar seus limites, mas agir, impor-se ao mundo, questionar, transformar. Não podia apenas vegetar, inerte, passiva. O mundo está a ser construído, transformado conforme nossa vontade e capacidade!

Passou a alinhar-se ao trabalho de seus companheiros, forçava seus galhos, afastando-os de seu tronco, concentrou-se em mover todos ao mesmo tempo. Eram poucos galhos, comparando-se aos arbustos, mas eram os seus caminhos, as suas possibilidades. Passou a estudar os arbustos, buscando deduzir o significado pretendido em cada trama, em cada enrolar, em como abriam em pontas e cada ponta em outras pontas. E como concentravam a seiva nesse trabalho, mantendo fino o próprio tronco, uniformizando a espessura de troncos e galhos. Tudo neles era avançar, cobriam onde pudessem, espalhavam-se, expandiam-se, redistribuindo o fluxo de seiva aos galhos menos favorecidos.

Esforçou-se em ser um bom arbusto, distribuir-se melhor, mas não conseguia. Continuava disforme, um tronco centralizador, egoísta, de onde saíam galhos medianos que reprimiam os galhos menores, desfavorecidos. Tentou disfarçar sua estrutura conservadora. Deixou-se escalar pelos arbustos, abriu seus galhos o quanto pode em favor do coletivo. Soube que fora aceita ao vê-los escalar seu tronco. Ficou feliz em ter companhia, acolheu as heras e arbustos, gozou a sensação de misturar-se. Quanto mais crescia mais ajudava os companheiros em suas conquistas. Aprendeu, estudou, conjecturou teoremas, traçou mapas dos desígnios do sistema.

E o tempo deu-lhe muitos tempos assim, envolvida em profundas reflexões. Ficara toda coberta de arbustos, misturados aos seus galhos e folhas. Cravavam esporos em seu caule, atingindo seu cerne, invadindo sua seiva, injetavam-se. Recebeu uma vez uma seiva nova, inebriante, que um arbusto amigo lhe apresentou. Passou a sonhar embriagada. Ria e fantasiava com seus parceiros. Era toda alegria, quanto mais esporos em sua casca, mais abria os sentidos. Abandonou suas questões. A seiva nova a mantinha saciada, ausente, dispersa, distante de si mesma.

Sentia… feliz! … os… companheiros… tantos! …sem nomes, todos… nenhum!

Fraca, dependia da seiva, temia perdê-la. Tentou livrar-se, não conseguiu. Os arbustos a cobriam por inteira. Não via a luz, não tinha o sol, morria.

Por tanto tempo desejou seu fim, mas agora não conseguiu aceitar. O medo era o que restava de sua essência, que teimava em ser. Não tinha voz para gritar, não podia gesto para implorar. Estava só. Ainda assim esperou por salvação, enquanto secava.

Tocada pelas raízes, uma torrente de vida a alimentou. Não era água, não vinha da terra, era seiva, seiva de outra planta. De alguma forma recebia ajuda, recebia vida. Deixou-se alimentar, agradecida. Não entendia quem lhe ajudava, apenas recebeu e esperou.

Cresceu firme e mais decidida. Engrossou tanto que rompeu cada arbusto que a abraçava, dilacerou-os, refez-se, limpou-se. Lamentou o tempo da seiva venenosa, mas guardou a boa lembrança de suas francas intenções e do quanto aprendeu.

Crescia abrindo-se em mais e mais galhos, mais e mais folhas. Recebia sol à vontade, não havia planta a fazer-lhe sombra. Abrigava pássaros que iam e vinham, pousavam e cantavam. Sentia-se forte, firme. Que tolice ser arbusto! Querem tanto crescer e o faziam a qualquer custo, sobre qualquer coisa. Reconheceu que fora tola, os arbustos são o que são. Decidiu respeitar toda a vida.

A sua também.

Aprendeu a natureza submersa das plantas que pelas raízes compartilham água e seiva. Que a floresta é mais do que se vê sobre a terra. Aceitou, não possuía suas raízes, pertencia a elas. Mas nascera para a luz e sob ela viveria. E pouco importava brilhar, florir ou expandir. Mesmo aprender, seu maior prazer, deixou acontecer.

Viu-se cercada de árvores maduras ocupadas em cuidados, carinhos e tratos com pequenas partes que lhe brotavam dos caules. Partes redondas, alongadas ou de outras formas, amarelas, vermelhas, bojudas, carnudas, penduradas nos galhos. Chamou-lhes frutos. Os frutos pesavam naquelas árvores, mas não eram uma carga. Consumiam sua melhor seiva, sugavam seu tempo, sua vitalidade. E eram retribuídos com alegria, carinho e entusiasmo. Deu nome de amor.

Encontrar-se, buscar, impor-se, competir o espaço do mundo, afirmar-se, trocar, ajudar, então frutificar. Ter frutos nos faz eternos, revividos! Quis seus frutos, outras vidas, derivadas da sua. E viver para eles, dar-lhes todo seu amor.

Conheceu as cheirosas filhas de Dona Araçá, as lendárias Inajás, os muitos e formosos filhos do Seu Tucumã. E muitas outras personalidades que animavam sua vizinhança. Viu tantas e ajudou muitas aprendendo a também dar seiva pelas raízes. Havia sempre uma novidade que o vento trazia, incansável. Notícias de novos frutos que brotavam dos galhos, caíam à terra e estimulados pela chuva e pelo sol, retomavam a nova vida. Viu cada um crescer e frutificar. Perdeu a conta de quantas celebrações de passagem participou, sempre ajudada pelo vento que levava sua voz e entregava seus presentes. Acompanhou várias gerações, aconselhou muitos enquanto aguardava seus frutos.

O tempo passou, eles não vieram. Veio a tristeza. Egoísta, do que me entristeço? Sou parte da vida de muitos, que importa se não frutifico? Importava. Talvez por ela, talvez por vergonha, talvez sem motivo, desprezou-se e foi sendo desprezada. Já não cuidava das outras. Sofria calada e se culpava. Sabia-se mais sábia, respeitada na floresta. Como podia ainda sofrer, angustiar-se? Como podia querer mais?

A melancolia voltou, com mais força, pela dificuldade em admiti-la, pelo susto de ver-se pequena novamente. Quanto mais questionava o sentido de tudo, mais ímpeto imprimia seu ciclo de seiva, água e luz, mais ar recebia, mais ar expelia. A vida fluía num espasmo gigante, um pulmão imenso, erguendo-se sobre toda a floresta. Levada pelo tempo, que insistia com ela, crescia mais e mais.

Não podia nem queria evitar, pequena diante de sua própria força, do volume imenso de seu tronco, do peso colossal de suas centenas de galhos e folhas. Aos seus pés a floresta diminuía. As gerações de flores, arbustos e frutos como quem conviveu tornavam-se memória e paisagem. Sabia que era levada a um novo ciclo. Dessa vez, quis percorrê-la consciente.

Agora avistava o fim da floresta. Via o rio mais próximo, outros mais afastados. E mais longe, uma montanha, única no horizonte que lhe parecia alcançar em altura. Animais já não lhe subiam, poucos pássaros alcançavam seu topo, minúsculos insetos e larvas a habitavam em colônias. Ria divertida de saber-se o mundo para os pequenos que nasciam e morriam em seu tronco. De companhia tinha o vento, que jamais a abandonou. Já não dormia, no luar imaginava ver o infinito. Divertia-se acompanhando o giro do planeta e a dança das estrelas.

Um dia avistou ao longe, próximo ao rio, pedaços de arvores queimando em um pequeno circulo. Já conhecia o fogo, trazido pelo raio sobre uma amiga que, coitada, perdera as folhas. Mas aquele fogo estava aprisionado, controlado por seres diferentes que pulavam ao redor. Rápidos e barulhentos como os animais. Dançavam, cantavam juntos. Umedeciam, amassavam e queimavam terra naquele fogo, formando pedras que empilhavam. Chamou-lhes homens.

O que viria deles?

Vieram e a rodearam. Riam e cantavam, batendo em seu tronco, que vibrava. Era bom, divertido. Entendeu que faziam com ela o que ela fazia com o vento. Compartilhavam sua pulsação, seus excessos, a parte que não cabia em seus corpos. Presos ao tempo, uniam-se para devolver ao mundo suas inquietações e desejos.

Achou ter pensado, mas ouviu:

- Sumaúma

não suma

sumaúma

se apruma

A voz não vinha dos homens. Vinha pelo vento, de um jovem brotado da terra, de longas e espessas folhas, altíssimo como ela. Respondeu, também pelo vento:

- Sumaúma?

- Assim te chamam os homens.

- E você?

- Sou chamado Jatobá.

Descobriu ser, para os homens, uma sumaúma, árvore nascida antes do primeiro homem. Tão alta que liga o céu e a terra. Adorada por vibrar generosamente pelo vento forte permitindo aos homens ouvirem seus deuses e antepassados e responderem a eles, batendo em seu tronco.

Dizem esses homens que o vento sopra alto na floresta porque as centenárias árvores dançam e namoram, espalhando suas sementes.

Sumaúma aceitou o nome que lhe deram.

Adotou os homens, pássaros, insetos e toda a floresta como seus. Proteje-os e quando pode comove-se com os poemas de seu jovem companheiro, recitados em silenciosas conversas, que para os homens duram o tempo de terem netos.

Mas decidiu ser ela mesma.

)

Luiz Carlos Peres

Escritor por teimosia e respeito às insistentes histórias que nos perseguem. Também diretor teatral, professor de teatro, contador de histórias. Terráqueo.

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