
Vírus
Conto
Agora tá feito. O último pacote saiu da distribuição para as bocas na sexta à noite, bem na véspera de carnaval. Devem ter passado tudo naquela noite mesmo, fez até fila de carro pra pegar o bagulho. O que sobrou circulou no sábado, de mão em mão, das bocas aos puteiros, às festas, aos becos, onde tinha um viciado não faltou a erva, o pó. Tinha à vontade. Quem pôde, quem quis cheirou, fumou, injetou. Mataram a seca. Estavam no desespero, do jeito que a gente queria. Sedentos pela droga que antes não vinha, não tinha. Vagabundo batendo cabeça atrás de quem tivesse um pino, uma paranga, de qualquer sobra de pedra. Não tinha. Agora tem, tá sobrando.
O plano foi perfeito: recolher tudo daquela vez, “limpar o mercado” antes. Quando a gente quer, não passa nada! Naquela vez, nem a cota do coronel. Juntamos duas toneladas, de pó, de pedra, de tudo, aprendidos em dois dias. Limpamos as ruas. Um recorde da corporação! Pena que essa foi por fora, no sigilo. Essa dava até na Globo.
Estocaram “na sombra”, proprietário do local nem ficou sabendo. Aí, arregar por uma semana, evitar flagrante, deixar os nóia, os filho da puta cheirar e fumar o pouco que ainda tivessem. E segurar assim. Uma, duas semanas. Sem pó, sem nada. Os malucos na maior tensão, abstinência total. Foi assim. A gente segurou. Dessa vez valia a pena.
Enquanto isso, botaram o químico pra fazer a mistura. Veneno brabo, um russo, eu acho, já tinham usado lá mas pra apagar um político. Radioativo, sei lá. Que não mata na hora, mas depois, em pouco tempo. Invisível, indetectável pra perícia, até pra quem já cheirava no berço. Operação de risco a mistura, mortal, roupa de plástico, meio científico, coisa de filme. Diz que na Rússia rola direto, mas pra um ou outro. Aqui foi no atacado. É Brasil, menino! Fui na equipe de limpeza. Rotina: apagar o químico, tiro na nuca, arrancar os dentes, queimar o corpo, sem detalhes, sem nada pra perícia. Tinha jeito não, essa não podia vazar nada!
Então passamos tudo. Devolvemos a mercadoria ao “mercado”. Tudo bem disfarçado. Fizeram que chegava do Paraguai, de navio. No esquema normal com os parceiros do crime, nem desconfiaram. Em pouco tempo tava tudo nas ruas. Em pleno carnaval. Foi a festa.
Agora taí, quarta-feira de cinzas e essa choradeira na diretoria.
A culpa não é nossa, o plano era perfeito! Não era pra acabar com os viciados? Pra alavancar a campanha do homem? Funcionou, quer mais mito que isso?
Não dava pra avisar ninguém não!
A gente não tem culpa que morreu uma porrada de mauricinho, filhinho de papai, gente de grana, da “sociedade”, pai de família, bispo, executivo, socialite, o caralho! E daí que “embarcou” o filho do prefeito, primo não sei quem do governador, um monte de político?
O marketing dá um jeito, tá fácil. Ó a manchete: “Morte misteriosa….”
Então? Diz que foi vírus.
