Sobre os incômodos das mudanças

Somali family at Dadaab
Barbara Davidson

Hoje terminei o livro sobre a vida de uma mulher que nasceu no deserto da Somália, fugiu de sua família, atravessou o deserto sozinha, descalça, com aproximadamente 13 anos de idade e quase foi comida por um leão.

O motivo de sua fuga foi o fato de seu pai acertar seu casamento com um senhor bem mais velho que o próprio pai em troca de 5 camelos.

Warris Dirie

O livro é um mergulho lindo sobre a vida destes nômades que vivem sobrevivendo no deserto da Africa. Vivem um dia após o outro e estão sempre procurando um lugar que tenha água e um pouco de pasto para suas cabras e seus maiores bens, os camelos.

Lendo este livro Warris Dirie — Desert Flower me conectei com a força desta mulher e seu pensamento de nômade mesmo depois de ter se tornado uma Modelo Internacional e embaixadora das Nações Unidas pelos direitos humanos.

Olhando para sua trajetória e para sua luta contra a mutilação genital feminina, uma prática que ainda existe na Africa percebi que nossa motivação e nossa luta dependem de nossa história e também de nossas dores e incômodos.

Estou sem escrever ultimamente pois pela segunda vez em 3 anos mudei de cidade e de vida e estou ainda digerindo as alegrias e os incômodos destas mudanças.

Sempre que eu me mudo para um novo lugar, seja uma casa nova, uma cidade nova ou mesmo um novo país me sinto entusiasmada com as curiosidades sobre este lugar. Me apaixono instantaneamente por todas as novidades.

Depois vem a fase de desfazer as malas, descarregar as caixas e aí que os nômades da Somália me surpreenderam pois o que eles levam com eles é o suficiente para ser colocado em cima de um camelo. Galhos e peles de animais que são elementos para a tenda. As roupas são as que estão no corpo e seus bens mais valiosos as cabras que fornecem o alimento (leite e carne) e os camelos que são os caminhões de mudança.

No caso da minha mudança do Paraná para São José dos Campos, levei comigo e minha família, um caminhão inteiro lotado de coisas, roupas, fotos, quadros, mesas, cadeiras, camas… Uma infinidade de coisas que para desempacotar tudo levou aproximadamente 5 a 6 meses.

Este processo de desempacotar e encontrar um novo lugar para cada coisa vai muito além de coisas materiais. É um momento de grandes reflexões e o mais importante é eu conseguir me desfazer do que não cabe mais. Entender que o incômodo de uma mudança está em você se deparar com o que estava esquecido, guardado lá no fundo do baú e que você não sabe mais o que fazer com aquilo. Seja um sentimento ao encontrar um foto antiga , ou uma peça que teve muito valor em uma época, mas agora não faz mais sentido guardar, pois está ocupando um espaço precioso e é preciso abrir espaço para o que está por vir.

Estou nesta fase agora. Em uma grande pausa entre o passado, a saudade dos amigos, do conforto da rotina antiga e a expectativa de um futuro novo, o desconhecido que irá rechear minha vida nova. E quando penso na força destas famílias nômades da Africa consigo me acalmar e entender que é preciso dar um passo após o outro. Olhar um pouco para o chão, e caminhar em uma trilha sem muitas indicações, confiar no meu instinto sem deixar que o futuro incerto me atormente. Se eu olhar para a imensidão do horizonte que ainda está tão vago e imenso é capaz de eu ficar paralisada e não caminhar com medo de seguir um caminho incerto e perder a oportunidade de cruzar com pessoas que irão mudar a minha rota.

É preciso confiar. E hoje eu estou confiante. Sei que trago comigo a vontade fazer e transformar. Sei que comecei minha caminhada em busca de profundidade nas relações e continuo em busca do meu autoconhecimento e autodesenvolvimento. Em minha jornada descobri que meu propósito é trabalhar com pessoas com as quais eu possa compartilhar meu aprendizado para que cada uma delas possa transformar e fazer a diferença em sua própria vida.

Se quiser conhecer meu trabalho dá um olhada aqui no meu site.

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