Um e-mail de amor

Oi…

Já faz algum tempo… Na realidade dois meses completos hoje… Já são sessenta e um dias que você foi embora da minha vida. Você partiu me abandonou. O que mais me irrita e me entorpece é que você foi o primeiro que me deixou… Nenhum outro. Ainda consigo sentir o silêncio seco que pairou no ar quando saiu porta a fora, deixando para trás nossos momentos, nossas alegrias… Só senti nossas angustias… Um corte no peito que ainda dói, essa é sensação que fica; de cicatriz. Parece que me rasgaram o peito em imensidão. É uma doce ilusão acreditar que já cicatrizou… Se ainda dói, se ainda sinto; só pode ser uma ferida aberta, parece profunda e quem sabe inflamada desse amor. Quando você saiu eu estava olhando a lua através da vidraça… O luar estava tão belo, tantas vezes olhamos juntos, desejamos a lua juntos. Certa vez te disse que gostaria de pisar na lua e você com sua suave e divertida ironia riu de mim, gargalhou e me entrelaçou entre sem braços e me disse, “um dia te levo, um dia vamos juntos”.

Como se você saiu porta a fora? Quando você saiu por aquela porta azul… Lembra quando pintamos a porta de azul? Ideia sua. Sempre te achei mais engraçado e mais bem humorado do que eu… Mais nervoso também. Te achava lindo quando nervoso. E quando me deu um grito de tão louco que te deixei com minha oscilação de humor, eu amei. O dia que pintamos a porta de azul você pintou meu nariz; te retribui pintando sua camiseta branca, ingenuidade sua pintar de azul uma porta vestindo uma camiseta branca. Naqueles íntimos afagos nos beijamos e fizemos amor ali mesmo no chão próximo a porta. Foi incomparável. Nossas respirações eram ofegantes, seu olhar no meu e toda aquela cumplicidade no ar, minha entrega a você, eu tão cheio de coisas, totalmente vulnerável a você naquele instante mágico em que os beijos tinham sabor de desejo… Sussurros, se nenhum vizinho ouviu foi sorte. Não posso dizer ter sido nossa melhor gozada juntos, porque isso se repetia sempre que você me tocava. No meu ultimo aniversario você me trouxe uma pelúcia mesmo sabendo que eu odeio pelúcias, mas essa eu adorei e chorei… Você me trouxe uma lua de pelúcia, um cd da Marisa e um vinho tinto italiano magnífico. Fizemos amor três vezes naquela noite. A porta já era azul. Eu tinha em mim a certeza de que tinha encontrado o encaixe perfeito, a tampa da panela, sei lá; a estúpida metade da laranja… Era amor. Era mais. Era algo que ainda não consigo entender. Falta o ar sem você. Quando eu estava com você tinha a impressão de ver vaga-lumes e uma orquestra inteira tocando Vivaldi. Te escrevo para dizer que o cinema perdeu a graça, não tem mais você com ar juvenil e travesso chegando e correndo para as poltronas do meio, tirando o sapato, cruzando as pernas em cima do acento e segurando minha mão. Segurava minha mão o filme inteiro e não se importava quem estivesse olhando. Os beijos ao final do filme eram os melhores, saborosos e sempre com sabor de chocolate e refrigerante, ou pipoca…

Quando me lembro daqueles dias coloridos em que a vida tinha mais graça, nem o asfalto era cinza ou chumbo e preto piche; ouço Damiem Rice tocando piano e lembro. Hoje acordei e olhei a casa. Não tive coragem, fraco. Me odeio por isso, não entendo como pode se dar esse fenômeno do outro permanecer na gente, mesmo; com um termino doloroso. Fumei, odeio fumar. Tudo está do mesmo jeito que você deixou… Os CDs nos mesmos lugares desde a ultima vez que ouvimos juntos. O livro da sua cabeceira não está mais, você levou. Acordo pela manhã e só acredito que você foi embora quando vejo que seu livro não está mais na cabeceira… É uma dose veemente de realidade. Não estou bem porque percebi que preciso continuar… Me encontrar nesse devaneio louco em que estou. Preciso me livrar de você, do teu cheiro, do teu gosto, do teu desejo, de você em mim. Cético que sou pedi a Deus ajuda, encaro isto como uma batalha travada e sem muita perspectiva de vitória, mas tento ser confiante. Terminamos porque sou louco e você mais. Terminamos porque você é doente e cimento e eu também. Terminamos pelo mesmo motivo cretino de todo mundo, incompatibilidade de gênios. Quanta bosta! Quanta mentira! A gente sempre se deu tão bem. Gostamos de tudo parecido. A diferença é que você corria pelas manhãs de sábado enquanto eu dormia. Escrevi isto tudo porque tenho algumas perguntas para te fazer.

Se você sabia que não ficaria em minha vida porque entrou? Fizemos mesmo esse estrago juntos ou foi você que fez este estrago em mim?

Estou indo viajar de férias… Preciso conseguir, embora não queira, minhas ultimas cinco férias foram com você… Sabe, é difícil falar de você no passado sendo que ainda queria ter você no presente e para sempre.

O que você fez com tudo o que vivemos, com todas essas lembranças, com todo o amor que disse sentir por mim?

É chegada a hora do nosso fim? Não existe mais a gente, voltei a ser apenas eu. Só sei que ainda te amo… Obrigado por tudo de bom e mais intenso que me proporcionou, obrigado por ter me amado, por ter dividido momentos e somado a vida comigo. Meu amor é também ódio por não te ter.

Meu vôo parte às dezesseis horas e preciso sair para fazer o check in… Te desejo sonhos, os melhores.

Um abraço carinhoso do ainda tão seu que nem meu consigo ser.

A seta do mouse clica em enviar, a face do rapaz é refletida na tela de seu computador. Sua melhor amiga aproxima-se e diz:

- Pronto?

- Pronto! Enviei.

- Vamos então?

- Vamos. Só vou desligar aqui.

Quando o mouse se aproxima do X para fechar sua caixa de entrada entra um novo e-mail.

Em súbito ele grita:

- Espera, vem aqui… Ele respondeu. Devo abrir?

- Sim, abre logo.

Ele abre. E lê.

“todos esses sentimentos que você perguntou aonde estão, permanecem aqui… Querendo te ver”.

Direitos reservados para o ilustrador Felipe Guga.