Aceitação Radical

Yamato Tanooka

Estar presente aqui e agora me permite aceitar as coisas como elas realmente são. Aceitar abre espaço para me conectar comigo mesmo e com o outro. Quando isso acontece sinto uma felicidade que não vem do prazer, vem de me perceber pleno novamente, parte de um todo que me transborda.

Essa presença, ainda que fundamental, é apenas parte do processo de aceitação.

Fiquei extremamente emocionado quando vi nos noticiários o caso dos pais japoneses que abandonaram o menino Yamato na floresta. Impossível — ao menos para mim como pai — compreender racionalmente essa decisão. Só fui capaz de xingá-lo em meio a alguns soluços durante a coletiva de imprensa que o pai deu após o resgate de seu filho. Ele disse que se arrependeu do que fez ainda que sua intenção tivesse sido apenas a de educá-lo.

Por instantes eu estive presente. Vi o que era mostrado e ouvi o que era dito. Também percebi o que se passava dentro de mim durante todo o tempo. E mesmo assim, não consegui aceitar o que o pai dizia. Eu estava afogado em minha própria noção de certo e errado, num caldo de sentimentos misturados que vinham de imaginar a mim e meu filho naquela história maluca. Pensei que jamais faria algo assim e então lutei com tudo aquilo. O que eu sentia alimentava o que eu pensava e vice-versa num loop sem fim. É nesse momento que a presença se esvai e eu passo a existir numa realidade paralela, cheia das minhas fantasias e lembranças. Não sobra espaço para aceitar nada diferente disso.

Em algum momento, menos relacionado ao tempo que se passou e mais à uma certa coragem em deixar minha bolha de realidade, arrisquei aceitar as palavras do pai. Não me preocupei se era verdade ou não, adequado ou não, manipulação ou não. Suspendi a descrença e me entreguei ao que estava ali (é o mesmo frio na boca do estômago de se fazer algo pela primeira vez).

“Eu vi Yamato. Pedi perdão. Ele assentiu com a cabeça. Seus lábios estavam um pouco secos. É extraordinário que esteja são e salvo. Não tenho palavras” — disse o pai durante a entrevista.

Meu choro passeou por “esse pai merece perder a guarda de seu filho”, passando por “que tipo de animais estamos nos tornando como homens?” até chegar em um “graças a deus meu filho foi encontrado vivo e eu pude dizer a ele como me senti terrível por tê-lo abandonado”.

ELE → NÓS → EU

Quando aceito fico permeável. Viro parte do que eu aceito e o que aceito vira parte de mim.

Isso não é o mesmo que concordar, acatar, resignar, desistir etc. 
Essa aceitação que estou chamando de radical vem antes disso. É algo primordial, é enfrentar o que vejo (estar de frente para isso).

Somente quando aceito radicalmente algo, para além do que eu esperava desse mesmo algo, sou capaz de me conectar com o que é verdadeiro ali e posso agir de acordo.

Meu filho Joaquim chama minha atenção quando pego o celular no café da manhã. Ele grita ou enfia o rosto na frente do meu para me olhar nos olhos. Então sou capaz de ver que ele está ali e, ao fazer isso, ele também pode perceber que ele está ali. Ele se acalma, novamente nos encontramos e o ruído inaudível da nossa desconexão cessa.

Eu percebo sua necessidade de ser notado para existir, assim como percebo minha necessidade de saber o que está acontecendo para também existir. Isso eu chamo de empatia. Me dar conta disso me permite fazer escolhas mais legítimas. Posso oferecer a ele o que precisa naquele momento se isso for possível para mim. Se não for, eu sei o porquê não foi.

Sei bem como é desejar que ele se cale imediatamente enquanto faço uma ligação e ele grita com o máximo de seus pulmões pavarotianos. Sei exatamente também como é me sentir como um pão murcho após desejar isso. No entanto, quando percebo isso enquanto isso acontece, tudo acontece diferente. Não há ansiedade nem culpa.

Nada é mais forte do que se perceber presente, conectado e vivo.