Carta aberta a Vilma Gryzinski em resposta ao artigo “Justin Trudeau é bonitinho, mas altamente ordinário”

M. Nicolosi
Apr 9, 2016 · 5 min read

Prezada Sra. Vilma Gryzinsky,

Bom dia!

Você não me conhece, mas eu sou jornalista. Tinha pendurado minhas proverbiais chuteiras muitos anos atrás. Porém, assim como em Rocky, o Lutador, quando Balboa volta para mais uma rodada, suas palavras me tiraram da aposentadoria. Achei irresistível palpitar.

Sei que esta não é uma matéria jornalística, que devo estar um pouco enferrujada, mas acho que eu ainda tenho o dom. Sabe aquele? Noventa por cento transpiração, 10% inspiração e muita apuração? Não sei se é um pre-requisito pra sua função.

Em primeiro lugar, nunca é demais enfatizar: Não compartilhe suas diarreias mentais com o resto das pessoas. Todos nós estamos sujeitos a esse mal, mas quando escrever é o nosso trabalho, acho que vale ter um pouco mais de cautela.

Também gostaria de dizer que certas opiniões precisam ficar restritas à fofoquinha do almoço das socialites. Talvez a faculdade de jornalismo já tenha ficado um pouco distante, mas quiçá você ainda há de lembrar que jornalismo opinativo não se faz com as coisas que passam na nossa cabeça conversando cozamigo. Ele é feito com opiniões baseadas em fatos bem apurados e pesquisados, de preferência citando fontes. Aprendi essa lição preciosa na minha primeira aula de opinativo na Faculdade Casper Líbero com o jornalista Luis Costa Pereira Jr. Viu? Citei a fonte.

E falando em fonte, olha só, eu e um outro colega ex-jornalista escarafunchamos a web e não achamos nada sobre o seu comentário a respeito do Estado Islâmico ter aclamado a eleição de Trudeau. Gostaria muito de saber de onde veio essa informação. Será que você entendeu errado? Enfim, ficou uma coisa meio jogada… Assim, estilo Daily Mail pra enlamear a reputação do Primeiro Ministro. Será que era isso que você estava pensando? Vou dar a você o benefício da dúvida.

Mas devo dizer que senti muita vergonha alheia quando li seu comentário sobre os muçulmanos e sua cultura. Sim, alguns terroristas são muçulmanos, alguns são cristãos, alguns são ateus e assim por diante. Da próxima vez que quiser falar de um assunto que não entende bem, dá aquela ligadinha pra um especialista e pede ajuda, senão pega mal, sabe?

O Canadá é um país multicultural. Isso quer dizer que se faz, a priori, um esforço para acomodar diferenças culturais ao invés de inferiorizá-las, como se faz no Brasil com o candomblé, por exemplo. É um país onde os imigrantes que vêm do mundo inteiro criam empregos e contribuem com a sociedade. Isso acontece, em parte, por causa do esforço para integrar as pessoas, para que não se sintam como cidadãos de segunda classe e, assim, queiram que o país continue nos trilhos. Uma demonstração disso é que assim como Justin Trudeau visitou uma mesquita, também visitou uma sinagoga. Aliás, você sabia que também existem terroristas judeus?

Esse toque meio imprensa marrom continua a colorir o seu texto quando você “joga no ar” que Justin é levemente de esquerda. Mas dessa vez, não me diga que não foi de propósito, nem que você não sabe que para o leitor de Veja isso poderia muito bem ser palavrão. A política canadense é um pouco mais complexa do que essa proposta binária que temos no Brasil hoje em dia. O primeiro ministro Trudeau é filiado ao Partido Liberal. Liberalismo, sabe? Thomas Hobbes, John Locke, Adam Smith? Proteção à liberdade do indivíduo? Mercados livres? Lembra? Da época da facú? Só que no Canadá a cultura é diferente, imagine só? As pessoas acreditam que é necessário que todos tenham acesso a uma infraestrutura social para que todos possam viver felizes. Isso inclui as pessoas que têm dinheiro, porque quando os pobres não são tão pobres, a violência diminui. Acredita? Dessa forma, o liberalismo canadense é chamado de liberalismo social, porque o estado regula a economia de mercado até certo ponto. Isso, inclusive, evitou que aquela situação embaraçosa com os bancos em 2008 afetasse muito o Canadá, que surfou uma onda de valorização do seu dólar. Além disso, saúde gratuita é garantida para todos. E, diferentemente do Brasil, quando alguém vai ao hospital público, a infraestrutura funciona.

Você continua tropeçando nas palavras quando ofende a mãe do Primeiro Ministro. Ora, Vilma, vamos concordar que nem briga de recreio do colégio desce tão baixo. A gente aprende desde pequeno que não se deve meter a mãe no meio. Você não tinha amigos? As crianças nunca ensinaram isso pra você?

Ficou feio. Até porque, esse tipo de comentário machista é muito mal visto no Canadá, onde as mulheres têm muito mais liberdade e desfrutam de muito mais respeito do que no Brasil, como você pode ver aqui.

Não que seja muito difícil, né? Principalmente nesses tempos de Bolsonaro e bancada evangélica. Mas, olha só, veículos mais respeitáveis, e jornalistas melhores se concentraram do fato do gabinete de Justin Trudeau ter sido montado para representar a diversidade do país e por ter um número equivalente de mulheres e homens e não no factoide da mãe dele ter aproveitado muito bem a sua vida. Aliás, qual é problema de advogar por uma doença que afeta a própria família? Vai falar mal da Fundação Viva Cazuza também? Acho que não, né? A gente nunca sabe quando vai precisar de um favorzinho da Lucinha Araújo.

E para concluir, o Canadá é um país enfadonho baseado em quê, miga? De onde você tirou que canadenses se despencam aos Estados Unidos para se divertirem e se darem bem na vida? Consultou algum dado do Censo canadense, entrevistou alguém da embaixada, algum especialista? O fato de você não conhecer artistas canadenses exceto os que estão em Hollywood não quer dizer que eles não existam, só que você é ignorante sobre o assunto, além de egocêntrica por achar que nada existe se você não está ciente. Muitos canadenses não sabem quem é Chico Buarque, Elis Regina e Fernanda Montenegro, mas já ouviram falar de Tropa de Elite e Cidade de Deus. Entendeu? Precisa desenhar?

O Canadá possui uma cena cultural e de entretenimento muito rica, repleta de artistas que não precisam necessariamente ir para os Estados Unidos porque conseguem ganhar a vida e são reconhecidos em seu país. Além disso, existem diversos incentivos culturais e as pessoas tem dinheiro para consumir cultura. Já ouviu falar do Juno Awards? Aposto que não. Então, shush.

Nessas alturas, você deve estar se perguntando, quem é essa fulaninha. Bem, como eu disse, sou jornalista por formação, tive uma assessoria de imprensa e uma pequena empresa de ensino de línguas no Brasil, trabalhei alguns anos em uma multinacional e estou prestes a obter outro bacharelado em psicologia. Eu e meu marido, que tinha um tão sonhado emprego público, largamos tudo para morar, veja só, no Canadá!

Estamos aqui há quase 6 anos e fomos muito bem recebidos desde o primeiro dia, tanto pela estrutura governamental quanto pelos cidadãos. Nunca sofremos discriminação e eu adoro poder andar na rua sem sofrer assédio sexual diariamente. Podemos andar pela cidade a qualquer hora do dia e da noite sem medo de violência e nunca vivemos tão bem.

É um país maravilhoso, cheio de pessoas gentis e respeitosas para quem deve ser muito difícil entender essa sua atitude condescendente e arrogante. Daí as dezenas de matérias acabando com você. Por isso, resolvi escrever esta carta. Porque você me envergonha, assim como envergonha toda a comunidade brasileira no Canadá. Nós aqui não queremos ser confundidos com brasileiros como você. Você não nos representa e deve desculpas ao Canadá e aos brasileiros no Canadá os quais precisarão explicar daqui para frente que não se misturam com gentalha como você.

Faça um favor a todos, pegue seu banquinho, saia de fininho e feche esse biquinho.

Grata,

Melissa Nicolosi


Nota: Editado em 11 de abril. Correção de erro de digitação.

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