As belezas dessa vida

Havia no colégio em que cursei o magistério, um professor que fazia suspirar toda a ala feminina que circulava por ali. Ele era uma cópia quase idêntica do Vítor Fasano, mas possuía um quê mais rude, mais agressivo, mais acre, digamos assim. Encontrar com ele pelos corredores era o sonho de cada uma de nós, que obviamente possibilitávamos esses encontros. Ao encontrá-lo ocorria uma espécie de prazer e temor juvenil, causados por sua beleza e o fato de ele ser seríssimo, não dar a mínima trela para nós, ser casado com uma professora que lecionava ali e por causar constrangimentos vários por conta dos foras que dava nos alunos. Aquele professor me fez suspirar muitas vezes, mas a maior lição que me deu não tem nadissima a ver com a sua beleza máscula. Um dia de aulas vagas, uma amiga cismou que tinha que dar um recado para uma garota de outra sala. Saímos de nosso corredor e fomos até a turma da tal que receberia o recado. Minha amiga bateu na porta e gelei quando quem abriu foi o dito cujo. Ele olhou sério, eu recuei um passo atrás já aguardando o esculacho e minha amiga, meio atrevida , disse a que veio: posso falar com a fulana? Foi aí que ouvi a resposta que me intrigou durante muito tempo e até hoje me faz pensar sobre minhas ações: “Pode, mas não deve.” Ele só falou isso, silenciou e voltou à seu trabalho. Eu fiquei embasbacada e numa fração de segundos parece que o mundo parou para eu pensar e tentar compreender o que ele queria dizer. Não sei até hoje se saíramos da porta, se minha amiga insistiu, se ela deu o recado, se simplesmente fomos embora. O que sei é que “Pode, mas não deve.” me fez e faz refletir constantemente. Tornou-se um enunciado ético para mim. Uma forma de rever minhas decisões sempre pautada no equilíbrio entre o que é meu direito e o que minha sensibilidade diz pra recusar. Algumas vezes desconsiderei essa diretriz e acabei com uma terrível ressaca moral, além de outras consequências nada agradáveis. O livre arbítrio, tomado forma à partir dessa reflexão sobre o que se pode e o que não se deve fazer, coloca-nos numa posição especial de autorresponsabilidade. É saber que se tem as armas nas mãos e optar por não usá-las. Posso fazer mas não o farei devido ao que implicará essa ação. São reflexões que exigem um desprendimento, um desapego ao status, uma aniquilação da persona; que quer fazer o que der na telha. A verdadeira liberdade exercida do ponto de vista da sensatez. Como aprendi e costumo repetir sempre que posso, não estamos nesse planeta sem razão. Nessa escola há muito que aprender. Umas vezes buscamos. Outras, as lições vêm até nós. Aquele professor nunca saberá o quanto influenciou — e influencia — minhas decisões diárias, me ajudando a errar menos. No final das contas, acabei descobrindo que ele era um lindo professor mas não estava ali somente para exibir sua beleza.

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