Cebola crua

Saudade: impossível de ser traduzida. “Nenhuma palavra traduz satisfatoriamente o amálgama de sentimentos que é a saudade. Seria preciso nos outros países a elaboração de um conceito que também amalgamasse um mundo de sentimentos em apenas um termo.” In: A Saudade Brasileira, de Osvaldo Orico.

No exato momento em que me recordei de meu pai comendo rodelas de cebola crua, com azeite e sal, esse mundo de sentimentos amalgamados configurou-se dentro de mim. Pude ver claramente sua satisfação mastigando aquelas rodelas super ácidas para meu paladar, mas que para o dele, pareciam sempre doces. Foi neste momento de recordação — de revivência — que a conversa entabulada com um amigo gourmet tomou o rumo da filosofia e nos debruçamos sobre a saudade. Foram quatro horas, entremeadas de receitas para assar uma cebola e a dialética. E no embate travado passamos da calma à exaltação, até chegar ao bom senso. Almas em busca de respostas ou de reiterações… Saudade é amor, eu disse. Ele refutou imediatamente afirmando que são coisas distintas. Sim são. Mas o amor está implícito na saudade, uma vez que ninguém irá sentir saudades de tempos ruins, de tristeza, de dor, de sofrimento, de desamor. Nossa saudade é fruto de horas felizes, de pessoas queridas, de momentos cheios de prazer, de paz, de satisfação, momentos em que tudo ia bem ou em que estávamos na presença de seres queridos. Momentos em que a pureza e a ternura faziam parte de nós mesmos e que não havia preocupações ou responsabilidades. Na saudade não há espaço para momentos amargos, para humilhações, para desgraças, para a dor. No entanto, o mais interessante é que ela mesma traz em si um quê de sofrimento, uma melancolia, uma dor assim aguda, quando quem a sente não consegue transcendê-la e pensar com gratidão e afeto naquele ou naquilo que se foi, que está ausente. É então que a saudade, que deveria trazer à recordação momentos felizes acaba por fazer sofrer. Porque não é só a ausência do que não mais está palpável, mas também a certeza de que isso não mais será possível nessa etapa. Uma dor infinda se apresenta quando a saudade se manifesta na forma de impossibilidade. Não foi assim que centenas de escravos africanos morreram? De banzo? Inefável, a saudade também aperfeiçoa quando, ao nos remeter ao passado, ensina o que é importante, o que é preciso valorar. Nessa heterogeneidade de sentimentos o amor — tal mercúrio — nos liga, nos conecta, nos une. Amalgama-nos. Porque se não se ama alguém, ou algo, a saudade não é possível. Porque o que a gente quer (quando sente saudade) é voltar no tempo ou trazer pra junto de nós seres que já não estão em nossa presença. E reparar erros e intensificar momentos que viveu superficialmente. Para não sofrer com a saudade é preciso compreendê-la e transformá-la em algo doce, bom de degustar. Como as cebolas. Cruas, ainda são insuportáveis para o meu paladar (para o de meu amigo também) e por isso as assamos com ervas, as caramelizamos… E ainda que me tragam saudade fico feliz, pois me conectam a meu pai.

Like what you read? Give Maria Paula da Costa a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.