
Certezas do coração
No dia em que meu pai morreu, me convidou para ir até a sua casa e eu não fui. Recusei o convite porque estava cansada, já era fim de tarde, a estrada de terra para lá era bem ruim, havia chovido, e pensei que poderia ir até lá em qualquer outro dia. De fato pude ir até lá muitas outras vezes, mas ele não estava mais presente. O lapso de tempo entre o convite e sua morte foi tão curto que demorei a compreender o que meu irmão dizia quando abri a porta da cozinha — que acabara de fechar — e ele avançou dizendo “o pai, o pai”. No pronto socorro, ainda senti o calor de seu rosto quando o beijei, após a hora da morte decretada. Essa vivência não causou ao meu existir quaisquer tipos de trauma ou arrependimento. Não. Também não tenho a petulância, a ousadia, de considerar que ele ainda estaria vivo se eu lá estivesse, na hora fatal. Seria apenas testemunha do fio da vida sendo rompido mais uma vez. Talvez aí sim, carregasse na alma sequelas psicológicas de um dia tão dolorido. Pensar naquele instante de titubeio, de oscilação entre a aceitação e a recusa, não me faz sofrer. Me faz pensar, refletir, meditar. Este episódio foi uma lição a mais sobre a necessidade de seguir as indicações de meu coração. De fazer aquelas coisas que, sentimos, devemos fazer. Senti que devia, mas não fui. Quantos episódios não deixamos de viver por ignorar o que nossa sensibilidade aponta? Quantos erros cometemos? Quantos momentos de alegria, de amor, de reencontro deixam de ser vividos somente porque priorizamos a razão? Quantas palavras não ditas, olhares não trocados, beijos não dados, momentos perdidos para sempre só porque a razão se interpôs à sensibilidade? Embora o coração esteja sempre apontando para a direção correta, estamos sempre fingindo que não sabemos para onde ir. O fim de uma relação por exemplo, antes de ser fim, apresenta os sinais que são sentidos por ambos. Mas se dá preferência por ignorá-los e quando se resolve acatar o que o sentir evidencia, já é tarde. Esse radar que está sempre emitindo sinais em nossas vidas, é o mais preciso e apesar disso, é o menos levado a sério. Quanto mais conjecturamos, mais tendemos a errar. Não digo que seja fácil ler e acatar as rotas emitidas por esse radar chamado coração; mas ter os pés na realidade é fundamental para que a imaginação não interfira na frequência emitida. Se somos capazes de ler estes sinais, é preciso estar atentos e atendê-los. Naquele dia poderia ter estado alguns momentos mais na presença daquele ser tão querido. Optei por não fazê-lo e com o coração em paz, posso afirmar que era para ser assim. A cada um, em cada situação, o coração aponta uma rota. Cabe a nós optar por segui-la ou não e assim feito, estar seguros de que poderemos viver em paz com nossa decisão.
