
Djavan ao mar!
Tinha quase 15 anos quando minha família se mudou para uma cidade litorânea. Não houve um batismo, uma iniciação no azul indizível, com um horizonte poético, ou palavras cheias de beleza me apresentando ao mar. Não. Naquela época meus pais estavam ocupados demais gerenciando as dificuldades de uma família grande e não havia espaço para essas abstrações. De qualquer maneira, meu amor pelo mar não necessitou deste preâmbulo. Foi algo assim já sabido, o cheiro de maresia, o salitre, o horizonte, o contato dos pés com a areia, a água gelada refrigerando o corpo quente e queimado de sol. Minha juventude foi permeada de momentos de descoberta e felicidade à beira mar. Morávamos próximo a um hotel cinco estrelas que separava a praia de seus abastados hóspedes de nós, com uma cerca de arame farpado. Para acessar um pedaço desta, tínhamos que atravessar um canal (assim o chamávamos) que na vazante molhava nossos tornozelos e na cheia passava de nossas cabeças. Sabendo disso íamos para a praia cientes de que não podíamos descuidar da hora da volta, pois nenhum de nós sabia nadar. Passávamos horas cochilando ao sol, correndo, brincando, rindo, até que o estômago roncava de fome avisando que era hora de ir. Naquele dia, eu e minhas irmãs devíamos ter saído de casa bastante saciadas, pois quando a fome bateu a maré já enchera o suficiente para a água bater em nossos ombros. Resolvemos enfrentar a travessia e evitar a fúria dos pais e o risco de ficar presas pela cerca que nos impedia de passar pelo outro lado. Nos certificamos que os pés tocavam o fundo e iniciamos nossa jornada através do canal. Caminhávamos devagar sentindo a água no pescoço quando a menor de nós perdeu o chão. Não bastasse o risco eminente de um triplo afogamento, tudo se agravou quando ela se deu conta de que a camiseta que carregava nas mãos se soltara. Não era uma simples camiseta. Era “a” camiseta. A camiseta que era assim um… um talismã, um estandarte, uma peça cujo valor era incalculável para ela por ter estampado o rosto do Djavan. Enquanto duas de nós lutávamos para chegar à margem, ela lutava para salvar a camiseta com seu ídolo. Era como se ele mesmo estivesse ali precisando de salvamento e aquela roupa fosse seu salva vidas, sua tábua de salvação. Não sei se gritamos, ou se alguém da areia viu nosso quase afogamento e correu para nos ajudar. Fomos salvas e zarpamos para casa, onde não contamos nada. Até hoje narramos esse fato nos encontros de família como uma referência à despreocupação, irresponsabilidade e espírito aventureiro dos jovens; que demonstra também certa ingenuidade acerca dos perigos da vida, dos riscos que ela oferece. Um pensamento de imortalidade, de força física e capacidade de vencer todos os obstáculos, os torna impetuosos e à mercê das adversidades. Naquele dia poderíamos ter nos afogado por conta da inconsequência juvenil. De um estado de inconsciência que é típico dos jovens e que nem sempre culmina com final feliz. Por outro lado, esse olhar distanciado que os pais muitas vezes têm sobre seus filhos, seja por preocupação demais com a subsistência da família, seja por que motivos for, pode ajudar nessa coisa de se rir diante do perigo. Para nossa família o final não foi trágico. Poderia ter sido. Quanto à camiseta com o Djavan, foi salva e durou muito tempo ainda. Cheguei a vê-la esburacada alguns anos depois. O que o amor juvenil, seja por um ídolo ou outra pessoa pode fazer, é algo que nem sempre podemos imaginar, ou prever. Por causa disso, é preciso estar atentos às braçadas que os jovens dão e orientá-los sobre sua efemeridade.
