Frutas e sementes

Quando era criança meus pais diziam que se engolíssemos a semente de alguma fruta, esta brotaria e cresceria dentro de nós. Passei a infância imaginando uma laranjeira crescendo de dentro pra fora de mim. Seus galhos rasgando minhas entranhas e empurrando tudo que encontrasse pelo caminho até sair pela minha boca já com frutos pendurados. Desta forma, cada pedaço de fruta possuidora de caroço era meticulosamente degustada, afinal para mim, cada carocinho engolido se constituía numa possibilidade de germinação e sofrimento. E eu mergulhava em imensa felicidade quando após dias de uma semente engolida continuava sem quaisquer alterações abdominais que comprovassem uma germinação interna. Assim como essa, muitas outras imagens fizeram parte de um imaginário aterrorizante; originado pelos dizeres paternos que na intenção de fazerem seu melhor, muitas vezes acabavam nos incutindo um temor à coisas que jamais deveriam ser temidas. E dessa forma crescemos com os resquícios desses bichos papões que na idade adulta nos impedem de experimentar uma série de coisas, pois a lógica, a compreensão da realidade encontra- se travada pelo medo. O que quer que meus pais quisessem nos ensinar ou nos proteger de, incutindo-nos um medo desse tipo, acabou dando lugar a fragilidades, crenças, ressentimentos, incompreensões ou quiçá, traumas ainda por vencer. Não fui a única menina assustada com estes ensinamentos infundados e com certeza não serei a última do planeta. Ainda hoje, se pode ouvir adultos ameaçando crianças com imagens tenebrosas. Parece absurdo mas tais ameaças são fruto da ignorância aliada a uma imaginação para o que é ruim. No intuito de educar mas sem as ferramentas e conhecimento adequados vão se criando medos, temores que, se pra um adulto são uma tolice, para uma criança é assustador. Outro dia comendo uma lima da Pérsia engoli um caroço. Imediatamente aquela imagem veio à minha mente e comecei a rir sozinha de tal estapafúrdio. Superei este e outros medos, mas quantas crianças e adultos têm que conviver hoje com o resultado dos absurdos que lhes foram ditos ou com as sequelas dos medos inculcados? Medo de sair sozinho, medo de experimentar um novo prato, medo de viajar para novos lugares, medo de ousar, medo de dizer o que pensa, medo de amar, medo de viver. Muitos medos. Devemos ir ao encontro deles e não, fugir assustados. Se fugimos do que nos amedronta, nunca seremos conscientes da força que temos. Embora uma menina assustada, nunca deixei de apreciar uma fruta por causa das sementes. O sabor que degustava – e degusto – sempre faziam o risco valer a pena.
