Se endividar não é a melhor escolha

A morte em si, não é um depurador de almas, não beatifica ou isenta de culpa quem errou e causou mal a outros seres, quiçá ao planeta. O ser não estará mais presente (fisicamente) mas o mal que causou, seja ele mínimo ou catastrófico, continuará na Terra e sabe-se lá onde poderá chegar estendendo suas raízes. Porém, às vezes ocorre de após a morte de uma pessoa, todos os seus erros e características negativas serem apagadas, levadas para um local da mente das pessoas onde não se manifestem, não evidenciem o lado negro daquela alma. Entre familiares chega-se a causar certo constrangimento quando alguém fala mal de um falecido, embora todos saibam de suas falhas. Tal proceder pode estar relacionado ao amor depositado naquele ser e na capacidade de ver o positivo, uma vez que a personalidade daquele corpo já não está presente para enfatizar a má conduta. Parece-me que ao se retirar, o corpo deixa de ser o véu que impossibilita a comunicação pura entre os seres. Sem esse muro, os corações atuam de forma mais efetiva e a observação se volta para o bom de cada um. Obviamente há casos em que nenhuma porção de bem ou de bondade poderá ser encontrada. Não me refiro a estes. Faço referência aos seres cuja vida foi vivida no esforço de acertar mas cometendo erros e, mesmo que inconscientemente, causando um mal aqui outro ali. Erros e males que poderiam ser evitados se este olhar desvelado fosse praticado em vida. Pelo ausente e pelos que o cercaram. Não sendo assim, o ser parte e deixa mágoas em uns, raiva em outros, indiferença em alguns e desejo que este vá ao inferno — seja lá o que o inferno for — para os mais rancorosos. Paradoxalmente, sentimentos não revelados constantemente emergem e o perdão sutilmente se revela concretizado numa recordação repleta de afeto e gratidão. Desta forma, feridas são curadas e traumas amainados e a saudade fala mais alto. Não é que a morte redima o falecido, isso não. Mas o fato é que ao se deparar com a perda de alguém, as pessoas se predispõem a limpar e manter sem manchas a índole do que foi, assim como prometem a si mesmos uma conduta melhor e um gerenciamento da vida que a torne mais correta e feliz. Inadmissível para uns e totalmente compreensível para outros, a verdade é que muitos que transitaram por esse planeta acabam sendo perdoados por aqueles que aqui estão. O perdão porém, não é algo a ser distribuído sem critérios, assim assim, como coisa banal a ser outorgada sem consequências. Não. Deve-se bem saber que aquele que comete um erro jamais sairá ileso, ainda que muitos esqueçam ou pretendam ocultar esses erros in memoriam. A morte física não redime os seres. O amor, perdoa. O erro e o mal: estes precisam ser evitados para que suas raízes não contaminem o solo onde brotariam flores e deixe uma dívida difícil de pagar.