O Conflito é Você

Mateus Feld
May 18, 2016 · 4 min read

O leitor nunca sabe quais os caminhos que uma história tomará.

O escritor, por sua vez, tem a obrigação de convencê-lo a descobrir.

Por exemplo: você está aí sentado, nesse momento, lendo essas palavras. É um dia como qualquer outro; o que acontece em seguida?

Pronto, agora você faz parte da história.

O grande desafio do escritor é fazer com que você continue aí, lendo.

E é por isso que você ouve um disparo seco e um grito na escada que leva ao segundo andar do seu escritório.

A escada dá direto para a sua mesa, e quando você olha para trás, você vê a rajada escarlate manchando a parede, e o corpo daquela sua colega caindo no chão, os olhos verdes arregalados lhe encarando.

Conflito. Esse é um dos segredos.

Você ouve os passos calmos e a respiração pesada subindo a escada, enquanto a sombra se alarga contra a parede há pouco branca como essa página.

A confusão e o pavor se espalham no ambiente como a palavra de Deus em uma terra de desesperados, e então o homem surge, e ele é alto e careca e o seu rosto ensanguentado lembra o de um corvo. Ele para de pé em frente ao corpo de sua colega e então ele grita: “Dez!” e aponta a arma pra você e dispara sem qualquer hesitação contra sua cabeça.

Agora veja, isso é o que não pode acontecer. Você morreu e a história acabou.

Fim do conflito.

Por isso, vamos voltar um pouco.

Você ouve os passos calmos e a respiração pesada subindo a escada, enquanto a sombra se alarga contra a parede há pouco branca como essa página.

A confusão e o pavor se espalham no ambiente como a palavra de Deus em uma terra de desesperados, e então o homem surge, e ele é alto e careca e o seu rosto ensanguentado lembra o de um corvo. Ele para de pé em frente ao corpo de sua colega e então ele grita: “Dez!” e quando você olha para o chão, sua colega não está mais lá — mas sim, de pé atrás do homem, puxando a faca Smith & Wesson da cintura dele e a deslizando pela garganta pálida do sujeito, o sangue dele jorrando na parede junto ao dela, e então ela salva o dia e vocês transam e terminam juntos.

Sem graça. Além de improvável.

Vamos tentar novamente, sim?

Você ouve os passos calmos e a respiração pesada subindo a escada, enquanto a sombra se alarga contra a parede há pouco branca como essa página.

A confusão e o pavor se espalham no ambiente como a palavra de Deus em uma terra de desesperados, e então o homem surge, e ele é alto e careca e o seu rosto ensanguentado lembra o de um corvo. Ele para de pé em frente ao corpo de sua colega e então ele grita: “Dez!”, erguendo a arma para o alto e disparando.

A gritaria e a confusão esvaecem. Os desesperados ouvem a voz de Deus. E a voz continua:

“Nove.”

O homem começa a caminhar pelo escritório.

“Oito.”

A presença dele se agiganta e preenche o ambiente.

“Sete.”

Ele aponta a 9 milímetros negra para a cabeça de cada um.

“Seis.”

Uma das estagiárias começa a chorar e ele vai até ela.

Você se agacha e rasteja até a escada. Pelas costas, você ouve o disparo seguido da voz do indivíduo.

“Cinco.”

O choro desaparece.

Você começa a descer e quando está no meio da escada já está correndo. Ao passar na frente da sala do seu chefe, nota, com surpresa, que ele não está lá, e quando chega à recepção você tropeça em algo e despenca no chão.

O gosto ferroso e amargo preenche sua boca enquanto você se apoia nos seus cotovelos e encara a poça volumosa de sangue no piso.

Na poça você vê o reflexo de um rosto. Mas não é o seu rosto.

Você se vira para trás com urgência, mas o homem corvo não está lá.

Ele está na sua frente, morto. O corpo em que você tropeçou. O sangue que você, sem querer, engoliu um pouco ao cair.

E olhando para a poça você vê novamente o seu reflexo. Careca, a testa grande, os olhos redondos, um nariz comprido e curvado na ponta.

Um corvo branquelo e ensanguentado.

Você se levanta e nota que não tem mais controle. Em seu corpo o sangue do homem circula, e em sua mente as ideias dele. Seu corpo — ou melhor, o do homem — começa a agir sozinho, contra a sua vontade — conforme a vontade dele.

Você começa a subir a escada e quando chega lá em cima vê os cadáveres no chão. Você caminha entre eles — seus parceiros, seus amigos queridos e, no fim da sala, com a 9 milímetros caída ao lado, seu chefe.

Você grita e explode por dentro porque sabe o que seu corpo vai fazer. E o que ele vai fazer é se agachar e recolher a 9 milímetros do chão.

Você sente o aço gelado contra sua pele.

Você protesta, preso naquela pele, e então, com a 9 milímetros apontada contra sua têmpora, você sussurra baixinho, para si mesmo:

“Dez.”

E é assim que se faz.

“Nove.”

Um conflito que gera um novo conflito.

“Oito.”

No fim, o leitor não se importa com o caminho que a história tomou.

“Sete.”

O que ele deseja é ter sido refém da história.

“Seis.”

Porque ele lê para poder distanciar-se do mundo real por um tempo.

“Cinco.”

Enquanto o escritor escreve para distanciar-se do mundo real o tempo todo.

“Quatro.”

E é por isso que o escritor tem a obrigação de jamais enganar o seu leitor.

“Três.”

E a única maneira de fazer isso…

“Dois.”

… é nunca deixar a história acabar.

Mateus Feld

Revisão: Nicole Roth

Mateus Feld

Written by

Fundador da publicação O Centro. Eventual escritor de contos curtos, curtos demais.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade