O Escritor que não dormia

Mateus Feld
Aug 9, 2017 · 3 min read

Certa vez, havia um Escritor que não dormia.

O Escritor, em seu recluso apartamento de cidade grande, apenas escrevia. Ele disparava as palavras no papel até que sua tinta secasse. Escrevia até ter cãibras e então usava um gravador para continuar narrando sua história, pois precisava esvaziar a mente — ela não parava nunca, afinal.

O homem escrevia desde o nascer das primeiras estrelas, até o momento em que todas eram engolidas pelo alaranjado brilho do amanhecer. Sua cor favorita era o roxo que o céu assumia durante a transição do fim da noite para a chegada da alvorada. O Escritor não dormia, e continuava a escrever.

Seus leitores liam, compulsivamente, seus livros, seus contos, suas histórias. A cada palavra, uma após a outra, eles deliciavam-se e não conseguiam parar. Uma nova publicação era um sinônimo de excitação, e logo as obras do Escritor causavam um sentimento de obrigação nas pessoas. Ele havia os prendido e agora os torturava com suas belas palavras. E eles nem percebiam. E eles adoravam.

Durante o dia, o Escritor saía para a rua e observava. Sugava tudo o que podia da cidade, das coisas e das pessoas, para à noite despejar tudo no papel. E assim, o Escritor passava as noites com os olhos vidrados nas palavras, sem dormir. E seus leitores lendo, e dormindo cada vez menos.

A verdade é que o Escritor não gostava de dormir. Além de crer que era perda de tempo (quando ele poderia estar criando histórias), ele sentia-se extremamente incomodado por deixar seu corpo indefeso, inseguro e inconsciente por tantas horas seguidas.

Por isso decidiu dedicar seu tempo a criar histórias, e logo suas obras foram publicadas e seus leitores começaram a esquecer-se do sono e, aos poucos, quanto mais eles deixavam de dormir, menos o Escritor precisava desligar-se do mundo e das palavras. Cada minuto que uma pessoa deixava de dormir para continuar lendo as criações do Escritor, era menos um minuto de sono que ele precisava — alimentava-se disto. E assim eram as coisas. Enquanto o Escritor mantivesse as pessoas lendo, ele não precisaria mais dormir. Como um encanto, um feitiço.

Entretanto, se um dia todas as pessoas parassem de ler suas histórias, então o Escritor teria de dormir todo o tempo perdido. E seria muito tempo. E esse era o maior pavor de sua vida. Ele vivia cada dia apenas focado no objetivo de que isso não acontecesse. Para o resto de sua existência, ele não poderia parar de escrever, nem deixar de ser lido. Seu desejo tornou-se sua maldição.

E como o Escritor passava o dia todo vendo, ouvindo, sentindo, tocando e imaginando, ele absorvia tudo — amanheceres e anoiteceres. E sua cabeça doía e seu corpo cansava-se e ele não conseguia mais diferenciar o dia da noite, e nem o que era real ou o que era ficção — o que ele vivia e o que era apenas conteúdo de suas histórias.

Logo ele ultrapassou a beirada e caiu no abismo negro e vazio da loucura. Ele não mais materializava algo do mundo das ideias através de palavras no papel. Agora, o mundo das ideias é que era o seu mundo.

Seus leitores permanecem fiéis e continuam lendo mais e adormecendo menos. E o Escritor continua vivendo os mesmos dias e noites para sempre, esperando que nunca chegue o tempo em que ele precise dormir ou parar de escrever.

E há muito mais, ainda, que o Escritor pode e precisa escrever. Muito mais para ser contado. Muito mais mesmo.

Então por favor, não pare agora.

Por favor.

Continue lendo.

Mateus Feld

Written by

Fundador da publicação O Centro. Eventual escritor de contos curtos, curtos demais.

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