Alex e a Louça

Acordar, lavar a louça, sair, lavar mais louça, dormir, sonhar que lavou a louça quando na verdade você deixou para a manhã seguinte. Se tivesse sorte você até encontrava algo para fazer e ganhar dinheiro entre toda essa lavação de louça; pra eventualmente comprar louça nova pra lavar.

Não havia sentido em nada daquilo, por que no fim das contas você era miserável independente da quantidade de louça que tivesse na sua casa.

Seu nome era Alex, e enquanto não lavava a própria louça, ele cuidava de um prédio no centro de sua cidade.

Ele nunca deu a devida atenção à quantidade colossal de louça que lavava, como faz a maioria de nós. Alex tinha uma rotina maçante que envolvia cuidar daquele prédio como se fosse seu, ele subia e descia aqueles oito andares tantas vezes por dia que até os elevadores ocasionalmente o confundiam com um deles.

Ele passou anos ali, todo fim de tarde indo até o oitavo andar e descendo as escadas, fechando todas as janelas e verificando todas as portas de todos os andares, antes de trancar tudo e ir para sua casa, dar alguma atenção à sua louça.

A rotina de Alex era completamente insatisfatória a qualquer alma. Verdade seja dita, qualquer rotina é profundamente insatisfatória para a alma. É como ver o mesmo filme todo dia, dia após dia, ano após ano.

Um filme que consistia em dar direções vagas a pessoas que entravam em um prédio comercial qualquer, fechar janelas, beber café e escutar reclamações de um chefe que, embora tivesse alguém para lavar a louça dele, continuava insatisfeito com a própria existência sem saber a razão.

Uma vida resumida em idas e vindas por ruas que ele conhecia melhor do que a própria mente, do que os próprios desejos de seu coração.

Pergunte a Alex qual é o seu sonho, ele talvez não saiba responder, ou dê uma resposta trivial, como mais dinheiro para gastar com louças mais finas. Alex sonha com pedaços de papel, com números em uma conta bancária; no fim ele sonha apenas com o potencial de viver, ou pelo menos com o que ele acha que precisa para viver, sem saber o que fazer com todo esse potencial.

Mas se você perguntar a Alex como chegar ao seu trabalho, ele te dará uma resposta mais concreta do que o chão em que você pisa, e muito mais rápido também do que ele responderia qual o seu sonho.

Alex tinha sonhos, eu sei que tinha, mas alguém mostrou para ele um relógio, e o ensinou a vender o próprio tempo.

E ele só vendeu seu tempo por que disseram que era a única coisa importante que ele podia oferecer ao mundo, e disseram tanto que no fim lhe faltava tempo para perceber que ele não podia comprar um sonho.

Alex tinha fome de viver, mas vivia sem tempo, e tudo o que fez foi devorar a própria existência.

Alex tirava a sujeira de sua louça, e a sua louça o tirava de si mesmo.

Um belo dia Alex foi despedido. Não passou pela sua mente o quão injusto aquilo era, ele que havia dado seus anos, seus dias e todas as suas oportunidades para aquele prédio, para as suas janelas incidentalmente deixadas abertas depois das 18:00, para seu sindico sempre mal-humorado, para todas as pessoas que lhe pediam informações sobre qual doutor, contador ou advogado ficava em qual sala.

Se Alex tivesse de fato compreendido o quão injusto tudo aquilo era, ele também teria compreendido a louça, e teria entendido que o segredo para a felicidade jazia em talheres, pratos e corpos descartáveis.

Biodegradáveis como ele.

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