Na Luz da Lua [18+]

Não haviam paredes, mas se houvessem elas seriam feitas de papel, de água e chantilly.

Eu tinha tomado dois pedaços de LSD, e tudo fazia todo o sentido, por que a única lógica que eu tinha era a de que as coisas são como são por que estão certas. Eu estava dançando e meu corpo era tão meu quanto a grama em que eu pisava, eu sentia meus trilhões de membros sendo esmagados por todas aquelas pessoas, e flutuando levemente na brisa em locais onde o único peso era o de pequenos insetos pousando em meus apêndices.

Eu tinha saltando da consciência para a inconsciência, mas não tinha importância, por que eu já não diferenciava as duas, eu era uma só comigo mesma, todos os pedaços lindamente moldados em um mosaico que cintilava com glitter e suor. Esse mosaico sussurrava o meu nome. Esse mosaico era eu.

Eu era arte divina, moldada por sopros a partir de barro, tornada cerâmica e destruída. Apenas para renascer como um mosaico.

Eu era arte divina, como a grama.

De noite o efeito passou um pouco, e tudo o que eu sentia eram formigamentos repentinos em partes do meu corpo, como se fantasmas tocassem meus braços, acariciassem minhas pernas e me causassem orgasmos tão rápidos que deixavam apenas o ardor de um prazer nostálgico.

A festa ainda estava com tudo, algumas pessoas estavam rolando no chão e fazendo coisas estranhas para quem quisesse ver, mas a maioria continuava no solo sagrado daquela rave; a maioria de nós ocupava a pista de dança.

Juntei-me aos outros caminhantes daquele paraíso, daquela terra nunca antes tocada por nós mortais, nosso nirvana pessoal. Eu dancei, como se não houvesse amanhã, por que não havia mesmo, não para os espíritos livres daquele lugar. O amanhã servia aos enjaulados burocratas e positivistas que temiam nossa liberdade. O amanhã pertencia às nossas partes que abandonávamos no caminho até ali.

Eu dancei e perdi a noção do tempo, do espaço e também outras noções que não me recordo no momento. Fechei os olhos e me joguei na pista, louvando a liberdade, os nossos corpos e a mim mesma, com puro êxtase.

Quando dei por mim, ela estava dançando comigo, seu corpo colado ao meu, rebolando com as mãos ora em mim, ora em si e ora jogadas ao ar. Nossos corpos se tocavam, se amassavam e se fundiam. Nossos seios se beijavam enquanto nossas cinturas lentamente se tocavam, enquanto nossas mãos, ainda mais lentamente, subiam e desciam por nossos corpos.

Estávamos nos conhecendo como crianças conhecem o mundo a sua volta, nos tocávamos, acariciávamos os rostos uma da outra, sentíamos o calor de nossas peles com nossos lábios, percorrendo com arrepios rosto, ombro e pescoço. Nos movíamos e o mundo movia-se de acordo, dançávamos no ritmo das coisas mais silenciosas que fingiam não existir.

Nossos corpos estavam tão próximos que nossos movimentos eram algo contínuo, saltando de uma alma para a outra, nossos braços enroscavam-se em nossas formas esguias, ela cheirava a luz do sol e orvalho e eu senti uma incontrolável necessidade de beber dela; de sorver seu corpo simplesmente por que não me era proibido.

Desci minhas mãos até seus quadris enquanto a puxava para mim, e o fiz com tanta força que seu corpo inteiro veio de encontro ao meu, e seus lábios beijaram os meus, sua saliva tocou minha língua e sua língua tocou meu âmago no que foi um dos beijos mais intensos que já senti.

Caímos ao chão enquanto lentamente redescobríamos nossos corpos, desta vez com toda a lascívia e desejo de animais no cio. Não havia inocência alguma naquilo, na forma como nos tocávamos, como gemíamos, como nossas pernas se entrelaçavam umas nas outras, como as pontas de nossos dedos nos provocavam com promessas de prazer.

Em algum momento nos despimos do pouco que nos cobria, eu apertava seu corpo com força, sentia pedaços de seu quadril e de sua bunda encherem minhas mãos, enquanto ela tomava meus seios com as mãos dela e com sua boca, deslizando sua língua de um lado a outro com maestria, mordendo partes de mim que imploravam para serem mordidas.

Meus dedos a invadiam e penetravam, enquanto seus gemidos enchiam meus ouvidos de prazer. Ela levantou-se e girou seu corpo, colocando sua boca entre minhas pernas e, tratando-me como a grama que eu senti ser momentos atrás, sentou-se em mim.

Sorvi de sua essência, ela umedecia meus lábios e encharcava minha garganta com seu sumo, enquanto entre minhas pernas ela fazia o mesmo, me oferecendo suas mãos, sua boca e toda a experiência que ela claramente tinha com tudo isso. Eu era penetrada e tocada, enquanto bebia e tocava tudo que podia de seu corpo.

E um, dois, três, quatro, talvez até mesmo cinco orgasmos depois, eu notei que tínhamos toda uma plateia nos encarando, no solo sagrado, no centro daquela rave.

Movi a bela confusão que eram nossos corpos e sussurrei em seu ouvido. “Por mais que eu goste de uma plateia, acho que pode ser uma boa ideia levar a nossa festinha particular para minha casa”.

Ela apenas olhou fundo em meus olhos, com seus lábios brilhantes e cheiro de sexo, sorriu e assentiu.

Catamos nossas roupas, quebramos o circulo de olhares lascivos e lábios sendo mordidos. Corremos até meu carro e saímos em direção à minha casa, enquanto a lua cheia ainda brilhava alta e imponente no céu.

No caminho conversamos um pouco. Seu nome era Dília e sua voz soava como chuva tamborilando em uma janela; ela disse muito além de seu nome, mas só consigo me lembrar disso. Disso e do cheiro de orvalho e terra molhada que permeava o carro.

Chegamos ao meu apartamento, caminhando com calma até meu quarto para não acordar meu filho, que estava dormindo em seu quarto, ou o meu amigo que havia prometido cuidar dele, e dormia no sofá da sala.

Em minha cama, longe de todas as cores e sons daquela festa, Dília era ainda mais bonita, ela se destacava, como se ela pudesse sair da festa, mas a festa não pudesse sair dela. Ela brilhava na luz do luar, e era bem mais do que o glitter de seu corpo, ela parecia emanar luz, seus olhos eram prateados e pareciam joias me encarando, questionando por que eu ainda estava parada enquanto havia tantas possibilidades naquela noite.

Seu corpo tremia com um simples toque meu, e o quarto rapidamente esquentou, meus lençóis estavam encharcados, sujos e perfumados como se encontrados em uma selva tropical. Ela gemia enquanto eu devorava seu corpo com meu desejo e bebia de seu mel com minha língua…

Foram-se os momentos contados e não havia minutos perdidos, eu tinha consciência apenas entre orgasmos e, enquanto ela massageava meu clitóris com sua língua, eu apaguei com aquele último nirvana passional, que me lembrou um dos orgasmos fantasmas causados pelo LSD.

No dia seguinte eu só pude me levantar com muito esforço daquela cama vazia. Vesti umas poucas roupas e caminhei até a cozinha para beber um pouco de água. Led continuava dormindo no sofá e eu não tive coragem de acordá-lo naquele momento.

A água que tomei tinha um gosto levemente adocicado, provavelmente causado pelo contraste com a secura e amargura da minha boca. Dília havia desaparecido, o que não me surpreendeu, afinal, ela era tão livre quanto eu e por mais agradável que tenha sido nossa noite, foi o acaso que a fez tão bela.

Um pouco mais revigorada, fui procurar meu filho, Mike, em seu quarto, imaginando que ele acordaria em breve. Ao abrir a porta, porém, um choque percorreu minha espinha, sua cama estava toda bagunçada, seus brinquedos espalhados pelo chão e sua janela aberta, com a rede de segurança que eu mandara instalar quando nos mudamos completamente rasgada.

Morávamos no 14º andar e meu medo era óbvio. Corri até a janela e olhei para baixo, sentindo a pior vertigem que senti em toda a minha vida. Não havia nada lá embaixo.

Acordei o Led imediatamente, querendo alguma explicação que, no fundo, sabia que ele não tinha. Ele havia me dito que colocou o Mike na cama em torno das 21h30min da noite passada e ainda o checou duas vezes antes dele mesmo acabar dormindo.

Só tinha uma resposta. Dília, ela havia sequestrado meu filho. E eu queria ficar com raiva dela, mas por algum motivo eu sempre sentia cheiro de orvalho nessas horas, e isso me acalmava.

Os policiais vieram, fizeram todas as investigações, pegaram uma descrição dela e foram embora, para nunca mais voltar. Eles provavelmente acharam que eu mereci aquilo. Nunca fui uma mãe ruim para meu filho, qualquer um podia dizer isso, mas eu gostava de festas, gostava de entorpecentes e gostava de pessoas, sem distinções; e no fim ter o meu emprego, pagar minhas contas e ser parte da sociedade não valeram de nada perto do preconceito que já haviam criado sobre mim.

Eu perdi meu filho, e por mais inconformada que eu tenha ficado, ao ponto de quase perder a sanidade, hoje algo me diz, como se fosse uma voz sussurrando no fundo da minha mente, que ele está em boas mãos. E que ele vai voltar são e salvo, como se nada tivesse acontecido.

E ele ainda vai me chamar de mamãe, me abraçar e sorrir. Talvez nesse dia, ele até me pergunte:

“Mamãe, por que você tá chorando?”

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