O dia em que matei a Cuca

Um dos poucos medos da minha infância era a Cuca, do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Passava todos os dias na Rede Globo e era um dos pouquíssimos programas infantis no início dos anos 1980, uma coisa meio mambembe e cheia de gente fantasiada de bicho, como o Rabicó. Tinha o Saci de uma perna só, mesmo, o que dava um ar de realidade pra coisa toda.

Principalmente, para a Cuca. A Cuca era um jacaré loiro com listras psicodélicas na pança, ou jacaroa, nunca ficou claro pra minha cabeça de criança se era jacaré ou jacaroa. Então a garotada da rua em que a minha avó morava a chamava de bruxa, e pronto.

A Cuca, não minha avó.

O problema é que essa rua era sem saída, ali no bairro planalto, em São Bernardo do Campo. Bem por isso (e por ter muita, mas muita criança na mesma faixa etária) eu passava a maior parte do meu tempo livre por ali.

Agora imaginem uma safra de uns 15 moleques em seus 5, 6 anos de idade, todos amigos. Todos juntos. Seria o inferno na Terra naquela rua, caso os adultos não inventasse maneiras criativas de manter a rebentada na linha, que preferia ficar junta na rua a entrar cada um para sua casa.

Algum gênio teve a brilhante idéia de colocar a Cuca no meio dessa história. “Crianças, não fiquem na rua após o anoitecer, porque a Cuca mora ali na pracinha e sai assim que o sol se põe”. Com isso, as cinco da tarde todo mundo entrava, alguns corajosos esperavam uma ou outra vez até umas 18:30, mas depois que o Fernandinho perdeu a hora e o sol se pôs… nunca mais! O coitado entrou correndo, com a calça mijada de medo, jurando que viu a Cuca na pracinha.

Eu? Eu observava. E planejava. E separava (roubava) partes do cerol que os meninos mais velhos espalhavam nas linhas de pipa aqui, sumia com um rolo de fio de nylon do meu avô ali… media a altura da Cuca no programa da tv, comparava com a minha.

– Eu sou da altura do Pedrinho, né vó?

Cálculos feitos, material apanhado, oportunidade surgiu nas férias: corri para a pracinha no fim da rua, sem que ninguém soubesse do meu plano, no exato momento em que todos entravam para suas casas.

Eu preciso que você entenda quanta coragem eu tive naquela hora. Sozinho. Na pracinha, com o sol se pondo. Esticando a linha de nylon na altura do meu nariz, entre duas árvores.

A linha cruzava o campinho de areia de futebol. Passei cerol, em doses generosas. Vi as folhas do matinho se agitarem, certeza que era a Cuca vindo!

Corri para a casa da minha avó, coração na garganta de tanto medo. Consegui chegar vivo! Pedi para meus tios me acordarem bem cedo na manhã seguinte, queria ser o primeiro a encontrar o cadáver da bruxa! Me imaginava sendo entrevistado no Jornal Nacional:

– Menino herói salva todas as crianças do mundo. A Cuca está morta…

Na manhã seguinte, perdi um pouco a hora. Tomei café e ia para a pracinha, muito curioso do que encontraria, quando o Paulinho passou por mim correndo e chorando, com a mão na garganta, o peito ensopado de sangue. Muito espertosamente percebi na mesma hora o que estava acontecendo!

– A Cuca ainda está viva e atacando meus amiguinhos!!!

Peguei um pedaço de pau na rua e sai correndo para a pracinha, o mais rápido que pude! Quando cheguei lá, soltei um grito de guerra e parti para cima… de nada. Havia apenas uma porção de garotos ao redor do nylon esticado no campinho.

Nada da Cuca.

– Juninho, foi você o filho da puta?

Não sei como descobriram. Nem entendi por que me xingaram, mas mandei sebo nas canelas pra casa, perseguido por uma turba de amiguinhos enfurecidos que contaram tudo para minha avó assim que ela saiu no portão para ver que gritaria era aquela.

Pensa numa sova?


Originally published at macassis.com on March 22, 2015.