Certa vez eu orei

Certa vez depois de sofrer como quem tinha culpa de alguma coisa, não resisti e depois de muitos anos fechei meus olhos e orei. No começo como toda oração que não é feita saiu como uma grande torrente de emoções. Eu queria culpados, vinganças, fogo caindo do céu, mas também queria paz, calma, amor e compreensão. Eu orei não como quem sempre orou, eu orei com meu corpo. Foi como se naquele momento eu realmente estivesse falando com alguém superior. Não era aquela fala solitária de igreja, que a gente usa para impressionar ou para cumprir requisitos religiosos. Eu orei como quem não sabia orar, e então por causa disso, orei. Depois de algum tempo entre o choro de quem balbucia apenas os múltiplos afetos que me afetavam, o silêncio tomou a minha mente, o meu quarto e o meu corpo. Eu não tinha mais o que dizer, estava lá tudo dito. Deus, esse ser, devia saber o que eu estava passando, mas acredito que ele queria me ouvir dizer, esse safado. Disse mesmo, tudo. E naquele instante cai. Cansado e com sono. Adormeci. E pela primeira vez Deus me respondeu.

Não como quem fala comigo, mas como quem fala através de mim. Que fala em mim. E sonhei. Sonhei que encontrava muitas pessoas queridas e que todas elas me diziam o por que eu era querido para elas e eu dizia o por que elas me eram queridas. Encontrei paixões de adolescente e de adulto. Encontrei amigos e conhecidos. Encontrei estranhos que me ajudaram. Encontrei gente que eu nunca conheci e que me eram importantes. Encontrei meus familiares e gente da família que eu nunca vi. Vi as heranças históricas e espirituais que eu possuía. Vi e senti coisas que não tem nome, e que me encheram de sentimentos e de coisas que eu não consigo explicar. Por instantes eu vi a minha história sendo contada não como o drama de quem não sabe onde vai parar, mas como uma caminhada de quem está apreendendo a amar. E sim, eu vi o Amor. Não, não deus é o amor. O Amor mesmo. Essa potência que me movia mesmo quando eu parecia que não estava me movendo. Ela, ele, o que você quiser dar, Amor. Foi nesse momento do sonho que eu senti. Ali por algum motivo todas as coisas escuras de minha alma foram clareadas e eu vi meus defeitos e traumas sendo tratados. Com calma, sem pressa, cada coisa conforme seu tempo, cada tempo conforme a sua coisa. Foi onde eu tive meus medos colocados lado a lado, onde tudo que me causava pânico estava lá, sentadinhos sendo cuidados, cada um a seu tempo, cada um conforme algo acontecia. Todos eles acabavam deixando de ser aquela coisa horrível para ser mais uma coisa dentro das muitas coisas que me habitavam. Eu então senti que ali era a minha casa. E que ela era bonita do jeitão que era. Torta, confusa, cheia de buracos e de lugares estranhos. Mas era minha. Ao lado das minha covardices as coragens que eu tive. Ao lado da raiva o bom humor. E ao lado do medo, o Amor que sobrepunha a todos, pois estava a pronto de tomar conta daquela casa. Eu acordei como quem não acordou. Como quem viu demais e estava pronto para contar o que via. Minha boa nova tinha chegado. Que eu estava me amando e que isso era bom demais. E que a grande noticia é que todo mundo devia se amar, e se ajeitar, pois a casa dentro da gente é lindonda.

Certa vez eu orei.

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