Muda-se o culto. mantêm-se a teologia.
acreditava em minhas reflexões, muitas vezes solitárias, que a geração a qual eu pertenço estava pronta para mudar coisas mais profundas. achava que o problema sobre o a forma de culto, ou o uso do hinário, ou a organização da igreja era apenas a primeira visão de uma mudança mais radical que ressoaria em uma herança pouco refletida e com forte teor de acriticismo. engano meu. a minha geração acredita ainda que o universo foi criado em 7 dias e que deus separou homem e mulher criando assim gêneros. minha geração não entende poesia religiosa, quiça poesia poesia mesmo. se perde em metáforas e abraça um literalismo tão estúpido quanto pueril. ama seus carrascos e odeia a liberdade.
nós somos construções de um mundo onde são os heróis que nos salvam. o indivíduo é quem modifica tudo. somos fãs da ideia de superpoderes e não temos vergonha de odiar os fracos, os que não entendem ou reconhecem que não sabem. odiamos a inteligencia alheia, mas amamos nossa intelligentsia, e eu estou sendo gentil chamando eles de intelligentsia. repetimos frases feitas, histórias sem significados e receitas já caindo de velhas. achamos que o mundo deve funcionar a partir de nossas convicções e não através da relação dialética entre ideias. negamos aquilo que deveríamos apoiar. somos traidores de nosso próprio defeito, nossa juventude.
mas o que dizer sobre isso quando quem ensina diz que nada mais precisa ser descoberto, que a teologia boa é a da repetição do que disse um cara, que eu não conheci e que não vive meu tempo. exatamente por causa disso que se ouve muito mais o discurso que se antena a realidade própria de nossa época. eu recomendo você perceber o quão semelhante é o discurso religioso de certos lugares e de coisas como “geração de valor” ou aquelas paradas de coaching. religião não é uma coisa bonita e arrumadinha pra você se sentir bem, moldada para te ajudar a conseguir os seus desejos. religião tem mais a ver com a descoberta de si mesmo e dos outros, do encontro com o indizível, do que com os sonhos de deus para você. mas o problema é que o culto é chato e a igreja não pensa pra frente, toca essas musicas velhas, diz.
é a meu ver necessário colocar na roda os dogmas para que se reencontrem enquanto sentido. como posso chamar “deus” de pai se ele age como uma mãe, na maioria das vezes? como posso pensar em religião sempre em categorias masculinas, se “deus” não possui gênero? quando é que vamos largar mão da estúpida ideia que é o pastorado? quando vamos parar de achar que a filosofia platônica é a melhor para descrever nossa religião, que Agostinho tinha sérios problemas com o sexo em si, e com o sexo oposto? quando vamos parar de matar em nome de um “deus” que não existe, nem nunca existiu? quando vamos deixar de lado as coisas infantis?
saiba que é necessário um pouco mais de iconoclastia, revolta e arrogância. e dar voz aos sem voz. aos bons teólogos e não a pastores. aos oprimidos e não opressores. a existência e não a espiritualidade.