Tudo posso
Quando eu era criança minha mãe fazia eu e os meus irmãos fazerem uma coisa que eu achava uma chatice. Adolescentes acham tudo chato, eu sei disso. A gente antes de ir para a escola, na época estudávamos eu e minhas irmãs à tarde, a gente ajoelhava e orava. Eu achava uma chatice, mas fazíamos isso todos os dias. Minha mãe orava muito tempo, isso era o que mais me deixava aperreado. Mas fizemos isso até que nós crescemos e ela achou desnecessário continuar com isso com a gente, também nossos horários não coincidiam ai nem rolava. O que eu posso dizer é que eu orei muito quando criança e até certo ponto da adolescência. As consequências disso eu não consigo medir muito, mas digamos que hoje já formado em teologia e cheio de ideias que minha mãe não curte a oração não é meu forte. Não é que eu não ore, eu só oro em circunstâncias extremas, quando realmente eu estou destruído, e não vejo como fazer outra coisa. Ultimamente essa orações são somente choros silenciosos que acontecem dentro de mim. Mas não é disso que eu quero falar. O que eu quero falar é do texto que a gente sempre repetia ao fim da nossa reunião de oração. Filipenses 4.13.
Apesar de não me considerar um Cristão mais, eu compartilho algumas coisas com o Cristianismo, mas grande parte do seu platonismo eu rejeito. Contudo eu não consigo me desvencilhar de algumas coisas nas quais eu tenho quase que uma base. Um axioma (palavra feia eu sei). O texto de Filipenses tem mais a ver com a ideia de que não importam as situações eu tenho todas as possibilidades em minhas mãos, eu posso tudo naquele que me fortalece. Tem a ver com a possibilidade de novidade e de resistência (não resiliência, credo). Esse versículo foi repetido a minha infância quase toda. E meio que voltou a tona a alguns dias. Por algum motivo que eu não consigo enxergar essa lembrança me veio a memoria. Das orações. Da gente ajoelhado. Da espera de cada um fazer sua oração. E do fim onde em conjunto dizíamos o versículo. Eu enxergo tempos difíceis a frente. Pra todo mundo. E eu já estou lidando com coisas que eu evitei lidar a minha vida toda. Mas por algum motivo eu não sinto o desespero. Já senti. Mas se eu posso tudo qual é meu medo? Se em mim existe toda potência e toda vontade. Se em mim habita aquilo que é maior que mim mesmo, e eu não falo de Deus ou Espirito Santo, eu falo do que eu posso enquanto gente. Enquanto humano. Força criadora. São essas relações que me fortalecem. Eu sei que eu sou a bagunça que eu fiz de mim e que fizeram de mim, mas sei também que eu sou a bagunça que eu gosto ser. Se hoje eu oro, oro por que acredito em algo que eu não sei o nome. Se hoje resisto, resisto por que fui ensinado a resistir, e a não por a língua pra fora. Se hoje eu choro, rio, me alegro ou me irrito é por que de alguma forma em mim eu tudo posso naquele me fortalece.
E que tudo que é velho um dia se fará novo. E ai daquele que tentar impedir.
(Obrigado mãe.)
