A renovação das provas da UEFA, a “piada das bolas quentes e frias” e a crença em Portugal. Marchetti deu para todos os gostos

O diretor de competições da UEFA, Giorgio Marchetti, foi um dos oradores do primeiro ciclo de conferências desta manhã no Estoril, nas Football Talks. O italiano aproveitou a ocasião para dar a conhecer duas competições europeias renovadas, mais solidárias, quer a nível de performance desportiva, quer a nível financeiro. Marchetti, na ocasião, foi ainda convidado a desmistificar o mito das bolas frias e quentes nos sorteios da UEFA. “Uma piada”, respondeu.

Em 2018/19 as duas competições europeias de clubes, a Liga dos Campeões e a Liga Europa, surgirão renovadas. E foi isso mesmo que Giorgio Marchetti, diretor de competições da UEFA, veio ao Centro de Congressos do Estoril, às Football Talks, explicar: os traços de duas competições que se querem mais solidárias.

Talvez no seguimento das ideias apresentadas por Alexander Ceferin — que rejeitou esta quarta-feira a ideia da criação de uma Superliga europeia promovida pelos clubes mais poderosos, em alternativa à atual Liga dos Campeões -, Marchetti tenha iniciado a sua intervenção dizendo que a “mudança não se faz por pressão dos grandes clubes”.

Mas o tema da Superliga não escaparia, e o italiano fez questão de fechar a questão, em sintonia com o presidente da instituição que tutela o futebol a nível europeu. “A UEFA não faz as coisas sozinha. O que é a Superliga? Se a Superliga é uma competição fechada para a elite, então essa não é a nossa competição. Estamos muito felizes por manter a Liga dos Campeões aberta. As competições organizadas pela UEFA são de nível ‘top’, mas abertas a todos”, rematou.

Aliás, segundo os planos apresentados no Estoril, a renovação das competições europeias far-se-á beneficiando os ditos pequenos, alargando o acesso e aumentando as receitas para estes clubes.

Em relação à liga milionária, manterá o formato de 32 equipas e incluirá, pelo menos, 17 federações. Algo que Marchetti reitera como prova de que a Liga dos Campeões não ficará mais exclusiva, afirmando que o aumento de clubes das quatro top ligas será apenas um “crescimento ligeiro”.

Esta era uma mudança necessária, diz o diretor de competições da UEFA, sublinhando que se não houvesse uma renovação corria-se o “risco da perda de interesse por parte do público e dos patrocinadores”. “O fosso entre clubes ricos e pobres e não podia continuar assim”, concluiu o italiano.

No que diz respeito à Liga Europa, Marchetti revelou que entre 2018 e 2021 mais federações serão representadas naquela que é atualmente segunda competição de clubes da UEFA, deixando a garantia de que todos os campeões nacionais vão marcar presença, pelo menos, na Liga Europa. Com isso surgirá uma nova fase de qualificação: o caminho dos campeões.

Outra novidade é o modelo de coeficientes que passa a mudar. Os clubes que integram ligas de menor dimensão deixam de estar restringidas pelo coeficiente do seu campeonato na UEFA para passarem a depender do seu próprio desempenho.

Por último, a distribuição das verbas irá beneficiar os clubes e ligas de menor dimensão, tornando-se mais justa e compensado a diminuição da percentagem das receitas provenientes da ‘market pool’, relativo às transmissões televisivas.

“Já aumentámos a distribuição de receitas para a Liga Europa. Na verdade, a distribuição pelos clubes na Liga Europa é maior do que as receitas da competição e assim será também no futuro próximo. Isto é para continuar e já foi anunciado que haverá um movimento extra de 50 milhões de euros da Liga dos Campeões para a Liga Europa”, frisou Marchetti.

“Portugal tem todos os meios para voltar e para conquistar posições novamente”

Portugal soube recentemente que irá perder uma vaga para os representantes nacionais na Liga dos Campeões em 2018/19, descendo de três participantes para apenas dois (somente um com entrada direta), mas Giorgio Marchetti relativizou este cenário, lembrando que “o sistema de quocientes é dinâmico” e que os clubes portugueses têm condições para inverter este ciclo.

“Se Portugal perdeu agora uma posição na Liga dos Campeões é devido ao conjunto das suas performances. Penso que os clubes portugueses demonstraram sempre que têm recursos para competir ao mais alto nível. Têm todos os meios para voltar e para conquistar posições novamente. É uma luta muito renhida”, sublinhou.

Bolas quentes e frias? “Isso é uma piada”

Depois de falar no palco da Football Talks, na zona mista, Marchetti foi convidado a desmistificar um dos temas que tem sido alimentado por sucessivos rumores ao longo dos anos: há ou não bolas quentes e frias nos sofrteios da UEFA? “Como é que podemos ter bolas quentes ou bolas frias? É impossível. Com a qualidade das pessoas que nós convidamos para os sorteios nunca me atreveria a pedir a alguém algo que não fosse honesto no sorteio. Como é que posso dizer isso a antigos grandes jogadores? É uma piada”, afirmou Marchetti aos jornalistas.

Originalmente publicado a 23 de março de 2017 no SAPO24.