Marcou o melhor golo da FIFA em 2015. Agora joga futebol com as mãos

Wendell Lira esteve para assinar pelo Milan com 17 anos, mas o clube que representava recusou. As lesões atiraram o “novo Robinho” para os campeonatos estaduais brasileiros. Entre a deceção, desemprego e os regressos, num estádio com 342 pessoas marcou o golo que lhe mudou a vida. Ganhou o Prémio Puskás em 2015 e a carreira seguiu no mundo virtual. É youtuber e treina sentado 10 horas por dia.

Wendell Lira conheceu o sucesso precoce no futebol. “Eu vivi os dois lados do sonho de um futebolista”, começou por dizer o jogador brasileiro que esteve no evento Football Talks a contar a sua história inspiradora.

Aconteceu tudo entre os 16 e os 17 anos. Jogava no Goiás, equipa que disputava a Libertadores, era profissional, deu nas vistas nos sub-20 do Brasil, chegou a ser apelidado de “o novo Robinho” e o Milan apresentou-lhe “uma proposta de 2 milhões de euros”, em 2007.

O clube recusou a proposta, pouco tempo depois, o avançado lesionou-se e ficou parado “um ano e sete meses”. Foi emprestado ao Fortaleza, do terceiro escalão, lesionou-se outra vez, o contrato não foi renovado, dispensado, desempregado durante 4 meses, voltou a jogar, em clubes de divisões secundárias estaduais, ganhava pouco dinheiro, mas seria ali onde “foi mais feliz” e “fez mais amigos”. E foi precisamente num desses clubes sem dimensão que o seu nome passaria a ser conhecido a nível mundial.

Em 11 de março de 2015 marca um golo ao serviço do emblema do Goianésia. “Estavam 342 pessoas no estádio”, recorda. Nesse instante, de nada serviu. Foi novamente dispensado e acaba atrás do balcão na “lanchonete da mãe”. Mas o tal golo foi o passaporte para mudar de vida, deixando o futebol com os pés e abraçando o lado virtual do jogo da bola.

Nomeado para o Prémio Puskás, prémio FIFA para o melhor golo do ano 2015, deslocou-se à Suíça, esteve lado a lado com os seus ídolos Kaká e Ronaldo e ganhou o troféu a Messi. Seria um evento colateral que viria a transformar a sua vida, ao ser desafiado por Abdulaziz Alshehri, saudita, para um desafio de futebol numa consola de jogos. “Venci-o por 6 a 1”, relembra a sorrir.

Regressou ao Brasil, com o Prémio na mão, assinou pelo Vila Nova, mais um modesto clube brasileiro, mas a aventura teve o mesmo desfecho de outras passagens pelos relvados. Foi dispensado pouco tempo depois. Mais uma desilusão que, no entanto, foi sol de pouca dura. O tal jogo virtual trouxe-lhe fama a acaba por ser convidado para fazer vídeos de FIFA para o YouTube e para ser jogador profissional.

Aos 27 anos abandona o futebol. Uma mudança que tem muito de repentina e pouco de espontânea, antes foi maturada pelas desilusões pessoais na modalidade. E pela paixão pelos videojogos. E porque também “sabia os números que envolvia”.

Hoje é sócio da empresa para a qual foi convidado a trabalhar, e em 2016 nasceu o WLPSKS no YouTube, que mistura duas paixões de Lira, para além da mulher e da filha: o futebol e os jogos virtuais.

Conhecedor dos dois mundos diz que “jogar futebol é fácil. Dormia, treinava e ia para casa. Como youtuber treino 4 horas. E antes das grandes competições, treino 10h”, explica. E com a consola na mão ainda não marcou nenhum golo igual ao que lhe valeu o Prémio Puskás.

Veja aqui as declarações de Wendell Lira, depois da sua intervenção no Football Talks, sobre como convenceu a mulher que o que fazia não era brincadeira, do emprego que tem e de quanto vale o que ele e outros fazem, da disciplina que necessitam ter quer futebolistas quer quem vive com uma consola na mão e de que clube escolhia se jogasse na Liga portuguesa.

Originalmente publicado a 23 de março de 2017 no SAPO24.