Super Bock Super Rock: A libertação de Chino Moreno é a de milhares

Deftones levaram o público ao rubro no último dia do festival. Fatboy Slim fechou com chave de ouro. Antes, SILVA e James Vincent McMorrow levaram as suas canções delicadas até ao Parque das Nações.

Rita Sousa Vieira | MadreMedia

Foi, muito provavelmente, o momento mais bonito desta edição do festival Super Bock Super Rock: Chino Moreno, vocalista dos Deftones, desce para junto do público e é de imediato abraçado por um fã, tatuado e de unhas pintadas, e que comovido esconde as lágrimas no peito do músico. O caso não é para menos. Estamos a falar dos Deftones, banda que se soube alienar de todo o movimento nu metal para criar uma sonoridade só sua, em que as regras que comummente se associam ao género dão lugar a uma experimentação sem igual em relação aos seus pares. Cabe de tudo no caldeirão dos Deftones: metal, shoegaze, hip-hop, pós-rock e emoção. Demasiada emoção.

Tanta quanto aquela que se viu no momento supracitado, e que se vislumbrou nos rostos dos muitos que se deslocaram até à MEO Arena para aquele que foi o último dia do festival Super Bock Super Rock. Para esses, os Deftones são a banda de uma vida, a banda que soube traduzir um determinado estado adolescente em verso e riff, e que em quase trinta anos de carreira ainda não desistiu de trilhar um caminho só seu. A prova: “Gore”, ótimo álbum editado no ano passado, e o qual vieram apresentar naquela que foi a sua décima passagem por Portugal.

No baixo já não está Chi Cheng, lamentavelmente falecido em 2013 após um acidente de viação que lhe acabou com a carreira, em 2008, e o deixou num estado comatoso até à sua morte. Mas está Moreno, um dos vocalistas mais versáteis do rock pesado, por entre gritos de libertação e momentos mais introspetivos. Claro que o público reage mais nos primeiros, dedicando-se ao crowdsurf e à pancadaria sempre que pode, especialmente nas fileiras mais próximas do palco. A libertação de Moreno é a libertação de milhares. Um salto, uma cotovelada, um pontapé são sinais de que a vida existe e merece ser celebrada quando não é a azáfama diária a ditar as suas regras.

Num concerto sobretudo emocional, destaque para as celebradas “Digital Bath” (de “White Pony”, celebrado álbum de 2000), “Change” (idem, e entoada a plenos pulmões), “Back To School” e “Rocket Skates”, ficando apenas um amargo sabor de boca pelo pouco tempo de que os Deftones dispuseram — eles que juntaram, sobretudo, na Arena aqueles que foram adolescentes no virar do milénio e que hoje não esquecem o quanto já foram felizes. Tal como os Deftones, que serão sempre acarinhados por um país que os conhece bem. Estejamos, ou não, saudosos dos anos 90.

A MEO Arena, e a década em questão, seriam fechados com chave de ouro por parte de Fatboy Slim, que em modo DJ set e de pé descalço transformou o espaço numa enorme pista de dança, recorrendo não só aos seus grandes êxitos (“The Rockefeller Skank” foi um deles) como também aos de outras influências e comparsas, casos dos Ramones (“Blietzkrieg Bop”) e Zombie Nation (a infame “Kernkraft 500”). Ainda houve tempo, inclusive, para Norman Cook — o homem que assina com o apelido Slim — descer para junto de uma fã e “roubar-lhe”, momentaneamente, o cartaz com o seu logótipo desenhado.

Antes disso, SILVA (com quem o SAPO 24 esteve à conversa) apresentou as suas canções de sotaque e jeitinho brasileiro perante uma audiência considerável. Trazendo consigo não só os seus próprios temas como também os de Marisa Monte, que cantou no seu último álbum, SILVA proporcionou um bom concerto de fim de tarde, tendo apenas faltado a relva e algumas cadeiras para a bucolidade jazzy da coisa ser completa. Uma bucolidade também presente na folk vestida de rock n’ roll de James Vincent McMorrow, irlandês que só se encontra mesmo à espera de rebentar — isto é, de passar de uma cena mais indie para aquele meio-termo que ocupam, por exemplo, nomes como Iron & Wine.

Já Seu Jorge foi uma decepção; não por culpa sua, mas por culpa dos muitos milhares que encheram o palco EDP não deixando, de todo, escutar o brasileiro e sua guitarra acústica, num concerto em que este se atirou às canções de David Bowie, assim como escutadas no filme “The Life Aquatic with Steve Zissou”. Um álbum que, contou, nasceu após um telefonema “em dia de folga”. De Wes Anderson, realizador responsável pelo filme em questão, que perguntou ao músico se este conhecia Bowie. “Sou preto, nasci lá na favela e preto não ouve rock n’ roll”… Apesar disso, “Rebel Rebel” e “Starman” ainda se discerniram por entre o gritante murmúrio, mas não há volta a dar-lhe: tinha que ser em sala fechada.

O Super Bock Super Rock regressa no próximo ano para aquela que será a sua 24ª edição, nos dias 19, 20 e 21 de julho. E o primeiro nome já foi confirmado: Slow J.

Originalmente publicado a 16 de julho de 2017 no SAPO24.