The Kills: “Só os riquinhos têm bandas de guitarras hoje em dia”

A dupla de Jamie Hince e Alison Mosshart regressou ao NOS Alive, para mostrar ao vivo os temas do seu último álbum, “Ash & Ice”. Ao SAPO 24, o guitarrista falou de rock n’ roll.

Rita Sousa Vieira | MadreMedia

Vamos falar de rock n’ roll. Vamos falar daquela luz que se acende em milhões de cabeças suspirando pela loucura, pela descarga que só uma guitarra de seis cordas (ou menos, ou mais: tem é que ser eléctrica) consegue emanar. Vamos falar de ensaios em garagens, vamos falar de sexo, de drogas e de canções — e, ao mesmo tempo, vamos falar do presente, e do passado, e do futuro. Assim fez o SAPO 24 com Jamie Hince, cabecilha dos The Kills lado a lado com Alison Mosshart, dupla que ajudou a reavivar o rock já no novo milénio, e que encontrámos nos bastidores do NOS Alive, um par de horas antes de subir ao palco para novo concerto em Portugal. O nono, para se ser mais exato.

«O que me ficou na memória foi aquele que demos aqui, no palco secundário [em 2012]. Tocámos às 2h da madrugada, a seguir aos Radiohead. Estávamos chateados, pensávamos que ninguém nos iria ver, que os promotores nos odiavam… E depois foi uma loucura, um dos concertos mais feéricos que já fizemos. Foi isso que me levou a pensar “este lugar é do caraças”…», explica-nos o guitarrista, impecável sotaque brit e mais rock n’ roll numa unha do que muito boa gente na sua alma inteira.

Um rock que se parece estar a perder, já que foi ultrapassado, em popularidade, pelo hip-hop — que se tem tornado mais experimental, mais direto, mais cru, e que tem plantado nos corações dos jovens aquilo que as guitarras plantavam antigamente (e, como é certo e sabido, nisto da música os jovens têm quase sempre razão): joie de vivre, rebelião, sentido de comunidade e de pertença. Um hip-hop que «está a fazer o que fez o punk rock: a levar a música para um lado mais “feio”, que depois se transforma no novo belo», comenta Hince.

Rita Sousa Vieira | MadreMedia

Imediatamente nos lembramos que, nos seus primórdios, o punk e o hip-hop andaram de mãos dadas até que algo ou alguém decidiu separar ambas as subculturas. O guitarrista anui e atira: «é mais inspirador ouvir hip-hop que uma banda nova que soe aos Ride. Não que eu desgoste dos Ride…». Os igualmente britânicos até se juntaram recentemente para um novo álbum, o primeiro em quase duas décadas, mas Hince prefere apontar artistas como Kendrick Lamar, Young Thug, Future, 21 Savage, Tyler, The Creator ou Kodak Black como influências. «Não é preciso ter uma guitarra para se ser rock n’ roll. [Estes artistas] são muito mais rock que as bandas indie…»

O indie, que em tempos parecia ser a tábua de salvação do rock, também foi perdendo estatuto; hoje mais parece local para todas as ortodoxias e mais algumas, para o baralha-e-volta-a-dar e não para a evolução, para a experimentação, para o reescrever de métodos. «É uma vergonha que a música que é feita com guitarras não se tenha reinventado, como outros géneros. Falta garra», diz, relembrando o sucesso de bandas como os Oasis: «Quando apareceram, eram um bocado um revival dos Beatles. Mas conseguiram chegar às pessoas, tocar as pessoas».

Talvez o tivessem conseguido porque os eternamente desavindos Liam e Noel Gallagher provissem desse mesmo povo, dessa mesma working class à procura de um fim para a alienação provocada pela luta do dia-a-dia. Hoje em dia, essa mesma working class prefere criar a sua música em computadores e no conforto do seu quarto — o que também ajuda a explicar a queda de popularidade do rock n’ roll. «Ter uma banda que faça música com guitarras é caro. Tem de se ter dinheiro para as comprar, para comprar os amplificadores, para conduzir até à sala de ensaios. Só os riquinhos têm bandas de guitarras hoje em dia — e isso dá em música de merda», remata.

Falta garra, sobretudo. Falta a mesma faísca que tornou o rock n’ roll num caso sério de popularidade, num marco absolutamente indispensável na história da música popular. E lemas, faltam? Uma “missão”? «Bandas como os Fugazi, Nation Of Ulysses, Bikini Kill tinham-nas. Hoje em dia isso é estúpido. O mundo move-se demasiado depressa. O que era radical então é hoje completamente conservador, o que era importante agora não tem garra. O mais importante a fazer é ser uma barata e adaptarmo-nos a qualquer situação», explica Jamie.

Baratas ou não, os Kills foram sabendo adaptar-se consoante as circunstâncias. E, para o seu próximo álbum, até poderão ter aquilo que nunca tiveram ao longo de quase 20 anos de carreira: um produtor. De “Keep On Your Mean Side” [2003] até “Ash & Ice”, o seu último álbum [2016], os The Kills souberam sempre o que fazer, preferindo controlar todos os aspetos da sua produção musical. Até agora. «Sempre soubemos o som que queríamos, e por isso nunca precisámos de um produtor. Mas, há um mês, entrámos em estúdio e trabalhámos algumas canções com um engenheiro de som. Deixei-o guiar-nos e saiu incrivelmente bem. Foi bom ser “apenas” um músico: pensas de forma diferente estando apenas a tocar», esclarece.

No NOS Alive, tocaram perante muitos milhares de pessoas — a grande maioria das quais estava, naturalmente, presente em Algés para ver os Foo Fighters. Mas há sempre aqueles fãs de longa data, que uma vez ouviram as canções da banda durante alturas terríveis das suas vidas e que com elas ficaram para sempre. É essa a meta para um músico? «Uma das coisas mais incríveis, nisto de fazeres música, é o facto dela permanecer», explica o guitarrista. «Podes viajar, anos mais tarde, para um país a milhares de quilómetros de distância e encontrares-te com alguém que nunca viste na vida, que te diz que a tua música os emocionou. É incrível!», completa — com um fucking pelo meio, ou não fosse isto rock n’ roll. E nós gostamos.

Originalmente publicado a 10 de julho de 2017 no SAPO24.